sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Perigosas passagens




Dário Borim Jr.
dborim@umassd.edu


Vem chegando mais um fim-de-ano: festas, mesmo em tempos de arrocho em Wall Street, e também viagens, apesar do desemprego rolando solto. São muitas as ofertas de passagens com descontos, principalmente online. Aos futuros passageiros que se destinam ao Brasil, aconselho dois portais: http://www.farechase.com/ e http://www.clickandfly.com/. O primeiro tem a vantagem de pesquisar e expor as ofertas de vários sites ao mesmo tempo. O segundo pertence a uma loja de passagens de muita experiência (a BACC, de Nova Iorque) e tem ofertas que parecem ser quase exclusivas, de tão boas. Mas cuidado com a compra de passagens nesses portais ou em quaisquer outros, exceto aqueles das próprias companhias aéreas.

Dois meses atrás comprei uma passagem da companhia TAM para viajar de Nova Iorque a Belo Horizonte. No Click and Fly Online achei uma oferta bem razoável: 696 dólares. Uau! Porém, meus problemas começaram cedo, quando fui obrigado a trocar a data da volta por motivos profissionais: multa de 250 dólares. Não tinha como evitar: paguei. Duas semanas depois, tentei mudar o itinerário da volta, que era BH-SP-NI. Era para facilitar minha volta, agora que tinha que fazer uma palestra em Niterói, RJ. A multa dessa alteração seria 500 dólares. Aí já não dava mais para o meu bolso. Deixei como estava, contando com a possibilidade de voltar de ônibus de Niterói para Belo Horizonte, em tempo de embarcar de BH para São Paulo. Grande erro: quando estava no Rio, quase saindo para Niterói (onde logo faria a palestra), o grande dilema começou, pois não havia nenhum ônibus para Belo Horizonte que saísse do Rio ou de Niterói entre as 17:30 e 22:30 horas!

Como é, então, que eu poderia embarcar em BH se não podia voltar pra lá? Uma passagem de avião de última hora eu nem procurei. Custaria uma fortuna. Bem, resolvi correr outro risco e me deslocar de Niterói para São Paulo e lá embarcar para Nova Iorque. Sabia que haveria problema, por isso telefonei para várias lojas da TAM no Rio e São Paulo. As respostas que obtive foram as mesmas: “Meu senhor, a sua passagem é de um tipo que nós, da TAM, não podemos fazer nada para alterar, nada. Talvez o senhor consiga fazer alguma modificação no guichê da TAM no aeroporto de Belo Horizonte ou de São Paulo.” Com a pulga atrás da orelha apanhei um ônibus noturno no Rio e, depois, um táxi da rodoviária de São Paulo, para chegar ao aeroporto de Guarulhos em plena madrugada.

Lá pelas 5 da manhã começou o novo capítulo do meu drama: a loja da TAM se abriu. A atendente pôs os meus dados no seu computador e logo me deu a má notícia: eu tinha que embarcar em Belo Horizonte no vôo que me traria a São Paulo. Pior ainda: “no sistema eletrônico vê-se que a companhia que lhe vendeu o bilhete não permite a emissão de uma passagem em papel. Essa passagem poderia substituir o seu e-ticket e o senhor poderia então embarcar em São Paulo para Nova Iorque.” Mantive a calma e o respeito nas conversas que tive com a funcionária da loja da TAM. Horas antes, ainda no Rio, eu falara com meu pai e lhe dizia que caso houvesse problema em São Paulo eu precisaria me controlar emocionalmente e procurar uma solução ou, pelo menos, não piorar a situação. Foi preciso fazer como havia dito, mas a situação era gravíssima. Meu filho de 15 anos, com vários compromissos esportivos e escolares, estaria sozinho até que eu chegasse de viagem, e eu mesmo precisava lecionar no dia seguinte, em Dartmouth.

A funcionária dizia que só a agência de viagem de Nova Iorque detinha o acesso online e o poder de alterar os dados da minha viagem no computador, e que sem essas mudanças eu não podia embarcar em São Paulo, a menos que comprasse outro bilhete, por uma bagatela de 2.200 dólares! Saí da loja com o coração na mão e me dirigi ao serviço de telefonia e internet do aeroporto. Mandei emails para a Click and Fly como se fosse mesmo possível achar algum vendedor acordado as 4 horas e pouco da manhã, horário do Leste. Depois tentei comprar uma nova passagem barata online, já que talvez fosse esse o pior dos males. Encontrei tickets SP-NI por 700 dólares, mas somente com saídas para dois dias depois!

Retornei a loja da TAM já bastante desiludido e deprimido. A funcionária continuava sendo muito prestativa, e chegou a telefonar para sua supervisora às 5 e meia da manhã querendo saber se ela lhe autorizava usar sua senha de chefe na tentativa de resolver o meu problema. A supervisora concordou com a “exceção,” mas o computador, não—não permitiu nenhuma operação de troca. Quando já eram mais que seis da manhã, horário do vôo entre BH e SP, e tudo parecia perdido, tive um idéia. Que tal alguém da TAM no aeroporto de BH fizesse o meu check-in, usando os dados que eu já tinha repassado à funcionária? Posteriormente, em São Paulo, faríamos um pedido de segunda-via do segundo cartão de embarque (aquele referente ao trecho SP-NI). Eu pagaria a multa que existisse para a emissão da tal segunda via. A funcionária concordou em falar com o chefe da seção de guichês, e esse indivíduo concordou em testar minha proposta. E não é que deu certo? Eu fiquei tão emocionado e tão agradecido que nem consegui falar mais do que um “obrigado” àquela funcionária, mas foi com um olhar carregado de brilho e lento de tanta gratidão. A lição fora penosa, mas aprendi que com essas baratas (e perigosas) passagens, não se brinca.

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