quinta-feira, 22 de outubro de 2009

D. H. Lawrence: Livros e perplexidades



Dário Borim Jr.

[Foto de Lawrence aos 21 anos]
Apesar de suas múltiplas conexões com a ciência, com outros ramos das humanidades, ou com as outras artes, entre as quais a pintura e o cinema, a literatura é um mundo em si, um sistema galáctico de emoções, sensações, e imaginação sem fim. Leio há muitos anos, é claro, e sou apaixonado por narrativas e versos de simbolismo inusitado, de plasticidade na linguagem e desafios nas idéias que me contorcem, massageiam ou revigoram a consciência. De palavra em palavra que leio ou escrevo, reavalio e reinvento o mundo dentro de mim.

A literatura reafirma, galvaniza, sugere, explica, e torna ainda mais misteriosa a vida e todos os seus mais controvertidos e mais enigmáticos segredos, inclusive o amor e a morte. Lembro-me agora de certo dia de abril, quando as belas e coloridas manhãs do outono em Belo Horizonte me fascinavam e eu vivia um fervor de sentimentos e desejos. Pensei que se eu perdesse todos os outros motivos para querer viver, eu gostaria de continuar vivendo pelo prazer de ler. Eu ainda não tinha a menor idéia de que em poucos anos me tornaria um professor universitário de literatura e outros irmãos mais nobres na maravilhosa família das artes, tais como o cinema e a música.

Muitos memoráveis livros eu já li por me encontrar embrenhado na carreira acadêmica. Também muitos outros livros eu pude desfrutar, apesar dos compromissos profissionais que ocasionalmente me empurram a obras que não necessariamente desejo ler (ou reler pela sétima vez). Recentemente, uma daquelas pérolas literárias que me caíram às mãos sem compromisso é sobre um dos mais intrigantes escritores dos últimos dois séculos, David Herbert Lawrence, nascido em 11 de setembro de 1885. Em D. H. Lawrence: Interviews & Recollections um pesquisador da Universidade de Alberta (Canadá), Norman Page, reúne uma variedade de textos que realçam as complexas reviravoltas da vida e inusitadas facetas da genialidade daquele escritor inglês, filho de um quase analfabeto operário de uma mina de carvão e uma orgulhosa intelectual feminista.

Certamente não há espaço aqui para se discutir com profundidade os dilemas de uma vida tão curta (mas tão agitada), ou tampouco as riquezas de um vasto legado literário. Apesar de ter vivido apenas 44 anos, em que sofreu com uma saúde debilitada por violenta pneumonia na infância e uma fatal tuberculose em idade adulta, Lawrence fez fama de conquistador de inúmeros corações e um incansável carpinteiro das letras. Tendo viajado por todos os continentes, ele residiu em oito países. Publicou em sua breve vida, nada menos que treze romances, nove coleções de contos e dez livros de poemas, além de seis peças teatrais e vários ensaios literários.

A obra de Norman Page inclui precioso material pelas suas curiosidades, lirismo e perplexidades expostos em notas e passagens de livros anteriormente publicados sobre o autor de Mulheres apaixonadas e O amante de Lady Chatterley. Alguns desses textos ou fragmentos são assinados por grandes nomes da literatura mundial, tais como Aldous Huxley (autor de Admirável Mundo Novo) e E. M. Foster (Passagem para a Índia). São também de enorme interesse os depoimentos, literários ou não, de membros de sua família e das mulheres com quem o extraordinariamente carismático Lawrence se envolveu. Não se encontra quase nada de clichê no decurso da sua vida, uma vida que na obra de Page, aliás, reluz através de eventos e imagens tratados por pessoas diferentes a expor, às vezes, diversos e conflitantes ângulos de interpretação.

Apenas para evocar uma dessas imagens mais desconcertantes, basta-nos relembrar que Lawrence tinha mesmo um enorme poder de fascinação e sedução. Em 1912, aos vinte seis anos de idade, fora convidado para almoçar na casa de um de seus professores de literatura na Universidade de Nottingham. O jovem escritor conheceu, apaixonou-se e fez apaixonar-se a esposa daquele professor. Tinha ela 32 anos e se chamada Frieda Weekley. Apenas seis semanas após esse primeiro contato, a aristocrática Frieda revelou sua nova paixão ao marido, despediu-se de suas três crianças, e mudou-se, com David, da Inglaterra para a Alemanha, sua terra natal. Casaram-se David e Frieda dois anos mais tarde, e nunca mais se separam até a morte do escritor, na cidade francesa de Vence em 1930. Apesar dessas circunstâncias, penso que não devemos julgar o comportamento do casal sem lermos um pouco mais sobre eles. Naturalmente, as surpresas da vida e dos livros publicados por aí não se esgotam com este ponto final.

23 comentários:

Anônimo disse...

Dario,
E eu que não sabia dessa faceta da vida de D.H.Lawrence! Li Mulheres apaixonadas e vi uma adaptação cinematográfica de O amante de Lady Chatterley que inundou minha cabeça de fantasias... Freud explica! Mas não sabia que tinha morrido tão jovem, nem que tinha se casado com a mulher de seu professor. Que ousadia, hein... dos dois!!! Naquele tempo!!! Deu vontade de reler, mas não sei se consigo fazê-lo com o texto original. Meu Inglês não chega a tanto. Quando voltar, pego na biblioteca central Luis de Bessa uma tradução e mato curiosidade. Faz um tempinho que pensei em Herman Hesse - Lobo na estepe (ou "da" estepe???) Não me lembro... De vez em quando bate uma curiosidade assim, meio sem explicação, mas simultaneamente fico pensando se não seria uma experiência decepcionante...
Um final de semana sossegado para você!
Obrigado pelo "post"...
Abraço
Zé Luiz

JR Quintao disse...

Darinho,
Excelente a sua crônica. Permito-me fazer uma crítica construtiva, quanto ao gerundio aplicado na seguinte frase: Então ficou conhecendo (*), apaixonou-se e fez apaixonar-se a esposa daquele professor. O gerundismo(neologismo criado devido à aplicação indiscriminada deste tempo verbal) tornou-se uma praga no Brasil, porque o aplicam em detrimento de outros tempos verbais mais apropriados.

djborim disse...

Obrigado a vcs, Jose Luiz e Quintao. A eliminacao do abusado/indesejado gerundio vai ser feita, mas por opcao estilistica, e nao em resposta aquela estranha lei de Brasilia. Abracos, D.

Alvaro disse...

Bela crônica, amigo Dário! Bom saber de vc.
Grande abraço
Alvaro

foureaux disse...

Escrevo mais uma vez para alertar a muitos "críticos de plantão" que insistem em dizer que o conhecimento da biografia do autor NÃO é um operador válido de leitura interpretativa de uma obra. Non sense... Não há como negar uma evidência, mas estou abandonando as raias da contenda inócua para elogiar a sua re-apresentação de D.H. Lawrence. Como já disse, despertou o desejo de reler o gajo, esse! Vale a pena. Bem como reler o Hesse! É bom estar de volta na seara dos contatos, homeopáticos, mas igualmente saudáveis, duráveis, densos e sinceros. Abraço de domingo outonal, direto de Zagreb, a capital do milhão de corações! Salve!

Dario disse...

Obrigado por mais esse toque. Concordo com o que vc escreveu, e digo tb que a propria vida de qualquer pessoa -- portanto, tb a de um escritor ou artista --encerra uma multinarrativa polissemica. Essa biografia que leio agora,a de Elaine Feinstein, por exemplo, e' uma tour-de-force em termos de pontos de vista. A autora busca argumentos, dados, e revelacoes em diarios, cartas, entrevistas e, principalmente, na ficcao e na poesia das interessantissimas pessoas que passaram pela vida de D. H. Lawrence. Curtir e entender melhor a complexa vida desse homem (e amantes) e' um exercicio hermeneutico de fino trato, um deleite sofisticado para nossas sensibilidades mais agucadas e subsidio a nossos questionamentos mais profundos. No minimo, entendemos melhor as relacoes entre vida e arte, mas o que mais me fascina e' imaginar e depois conhecer a luta que foi para Lawrence sobreviver com os ganhos da literatura, apesar da humilhacao idiotica, puritana, dos ingleses, e do banimento de alguns de seus mais belos livros, e ainda sobreviver apesar dos demonios emocionais/sexuais que o importunaram desde crianca. Esse menino sensivel, que perdeu o irmao que fora o favorito da mae, cresceu num lar marcado pelas incomunicabilidade e violencia masculinas (do pai) e o puritanismo e enorme poder castrador feminino (da mae), horrores domesticos de pais que os encenaram diariamente diante dos quatro filhos.
Depois de ler essas historias, a gente quer mais ficcao, sabendo o quanto que nada nasce do nada, e que tudo carece de interpretacao.
Forte abraco,
Dario

Joao Bosco e Sue disse...

Oi Darinho ! Dei uma boa espiadinha em suas crônicas. Como sempre : deliciosas !
Bjs a todos vcs.

Maria Rita disse...

Dario,
Muito bacana a sua cronica. Valeu!
Bjs,
MR

Jose Codo disse...

Darinho,
esta cronica é das melhores que voce já fez, ´otima

Nina disse...

Quem tem fascínio pela leitura tem fascínio também pelas outras leituras: leitura dos fatos da vida, leitura dos sentimentos das pessoas, leituras explícitas, leituras implícitas, enfim, um universo imenso em que a gente mergulha e se deleita, e fica intrigado, e fica pensando, enfim, uma felicidade ter o gosto pela leitura e que bom que meu irmão é uma destas pessoas! Com carinho, Nina

Cris disse...

Sempre leio suas cronicas várias vezes pra poder extrair sensações diferentes que vc camufla nas palavras. Cada vez que leio descubro algo que parecia não dito, mas que aflora na releitura com outro olhar. Na primeira vez que li, te achei puritano ao dizer que não era pra tirar conclusões das atitudes dos dois antes de saber todo enredo. Depois percebi que na verdade vc estava era tomando cuidado com os leitores puritanos para não descartarem a bela obra dele por ter roubado a mulher do professor. Sutil e efetivo.. é logico que agora to louca pra ler o livro do Norman Page! Na terceira vez que li me veio a sensação do encontro dos dois, Frieda e DHL, como o da Lady Chatterley e o guarda caças. Na verdade ela descobriu o Homem nele que jamais o marido poderia ser...

AMO LER SUAS CRONICAS!!!!!!!! Aprendo tanto e fico tão extasiada de ver que em um texto tem tantas facetas. Putz,vontade de escrever assim! Eu ia ficar rica!!!!!!!!! E foi fascinante conversar essa tarde e aprender tanto com vc. Não seria possível para mim conhecer coisas tão impressionantes do autor que estamos nos deliciando ao embrenhar em seus escritos. E perceber que temos muita sorte de vivermos hoje o que ele descobriu somente qdo não podia desfrutar mais.

Rose disse...

Este é o meu autor preferido, depois dos brasileiros. Li tudo ou quase tudo dele, quando eu tinha 19 anos. O Amante de L C foi para o cinema, mas não chega aos pés do livro. É outra coisa.

Anônimo disse...

Muito interessante a crônica. Para quem já está exausta de ler tantos textos teóricos e árduos para o mestrado, a sua crônica é um descanso muito gostoso!
Beijo grande, Cacá.

Silvinha disse...

Crônica gostosa de ler, mano.

beijos

Grupo Teatro Kabana disse...

Darinho,
Hj tive um raro dia de parada pra descanso.
Estou em falta com vc, eu sei. Mas o que fazer? Como matar as saudades de um amigo querido? Como se desculpar com o amigo que cinquentou e vc não foi abraçá-lo?
Bem, não tem desculpa, ponto.
Mas hj pude entrar no seu blog e "conversar" um pouco com vc.Li uma, duas, tres, várias crônicas...e vou continuar, o domingo só está começando e vou passá-lo em sua companhia. Um grande beijo, Nélida

Rodolfo disse...

Dário-meu-herói!
Gostei muito do texto. Adoro o Lawrence e, sem dúvida, sua vida pessoal contribuiu muito para a criação de suas personagens. Aliás, quem diga o contrário é, no mínimo, ... bobo.
Você deve ter visto o filme Mulheres Apaixonadas, não? Acho a melhor adaptação cinematográfica da sua obra inteira.
E tudo o mais, bem?
Um beijo no seu coração,
Rodolfo

Darinho disse...

Querida Nelida,
Muito obrigado pelas palavras tao amigas e generosas sobre os 50 e as cronicas! Vc nao tem que se desculpar de nada. Sei muito bem do corre-corre nessa fase da sua vida. A festa no Canto foi uma delicia, eu pelo menos achei, e ja' se tornou uma das lembrancas mais especiais de todo o meu meio-seculo de existencia. Senti a sua falta, como a da Lira e a da sua mae, mas a vida e' assim mesmo. As circunstancias e necessidades dispares muitas vezes mandam mais que nossos desejos. A noite anterior a festanca tb foi especialissima, e tive direito a uma danca com sua irma. Adorei aquilo tudo, num ambiente mais que alegre--realmente memoravel, divino! Nunca me sentira tao amado e honrado pela presenca de tantos amigos do peito e da minha familia brasileira!!!
E que legal que vc teve a chance de ler algumas das cronicas do blog. Tem sido muito leagl manter essa atividade paralela, esse dialogo com amigos, com nossa reflexao sobre os misterios, deleites e decepcoes da vida, e a disseminacao de historias que nos provocam e nos ensinam algo, de parte a parte, entre nos todos. Obrigado pela atencao, querida amiga. Nao vejo a hora de nos encontrarmos junto com o Mauro, o Delson, a Guigui, o Jamil, o Pedro, a Lira, o Andre, o Samuca, e todos os outros queridos seres que moram ou frequentemente passeiam em BH rsrsrsrsrs!
Bjs,
Darinho

djborim disse...

Oi, Rodolfo--
Obrigado pelo toque sobre a cronica. Rapaz, fiz (e ainda estou fazendo) uma especie imersao em Lawrence, apesar da falta de tempo. Li dois livros sobre ele nas ultimas duas semanas, e recomendo ambos: auele mencionado na cronica e este, Lawrence and the Women, de Elaine Feinstein. Este ultimo e' uma delicia de biografia escrita por gente que conhece literatura muito bem e nao faz panfletos ideologicos ou nada assim. E' extremanente profundo e belo o livro. Vc tem razao: Feinstein mostra direitinho como a obra de DHL gira profundamente em torno de sua vida real e daquelas de seus parentes e amigos. Eu preciso escrever mais uma cronica com as coisas que descobri/entendi/aprendi sobre esse autor e essa obra importantissima na historia da lit universal. Basta dizer, Rodolfo, que o cara que escreveu O Amante de Chatteley foi um cara MUITO diferente daquele que comecou escrever na adolescencia. Ele teve enormes dificuldades na sua vida sexual. Tendo seduzido centenas de mulheres e muitos homens via afora, e tendo sido casado com uma mulher que queria mais sexo do que ele lhe podia dar, suspeita-se que ele tenha tido apenas tres companheiras de cama, e muitos fracassos em funcao da repressao interna causada pela mae e sua religiao e personalidade castradoras. A mae mesma foi muito infeliz sexualmente com seu marido insensivel e violento-- infeliz, alias, em todos os sentidos! Vc menciona Mulheres Apaixonadas. Nao li o livro mas vou ver o filme hoje. Ja esta' em maos. Li Filhos e Amantes e vi o filme semana passada. Vi tb a versao francesa de 2006 baseada em o Amante de Lady C.--excelente. Ja viu? Acho muito delicada e de muito bom-gosto.
Um forte abraco,
Dario

João Cezar disse...

Caro Dario,

Muito obrigado pelas fotos; de fato, a noite no Rosinha's foi muito divertida!
E obrigado também pelo post, que me interessou muito: vou preparar um post para o projeto do Itaú acerca de seu programa de rádio e blog e mandarei para você o link, quandio publicarmos.
Um forte abraço,
João Cezar

Nélida disse...

Oi Darinho
Realmente estou adorando ler suas crônicas; é um prazer enorme dialogar com vc através delas; as suas idéias, convicçoes, emoções são muito bem colocadas ali, é você mesmo. Bacana.
Se quiser acompanhar um pouquinho da nossa façanha atual, uma turnê pelo Vale do Jequitinhonha apresentando um espetáculo muito diferente que montamos no início desse ano...
Olha ai: gtkabana.blogspot.com

Um beijo da amiga
Nélida

Rose disse...

Dario, a Glenda Jackson - q foi feito dela? - em Mulheres Apaixonadas ( que nada tem a ver com amor entre mulheres) está perfeita. O filme é mais que bom.
No livro, o personagem , Hermione, pede observação. Depois me conte o q achou .

Rick disse...

Great piece! I will have to read some more Lawrence! Rick

Ivonne disse...

Estimado Dario:
He leido tu articulo sobre D. Lawrence y como dices si perdieras los motivos para querer vivir, te gustaria continuar viviendo para leer,me parece un pensamiento que deberia ser contagioso. Cuantos hoy viven y se moriran sin disfrutar del goce que brinda la lectura.
Tu articulo presenta tan claramente ese aspecto de la vida de Lawrence que lo enriquece por su sinceridad y valentia para hacer de su vida lo que el deseaba, y no que la vida le sucediera, como una suerte de condena donde solo la resignacion encuentra domicilio. Creo que fue tan potente su escritura porque asi fue su vida , de lo que deduzco que para escribir juega mas en la escritura, como nos hacemos cargo de nuestra vida, antes que preocuparnos de como escribimos, porque lo primero enriquece la escritura mas que conocer tecnicas para ahcerlo.
Te agradezco una vez mas la conversacion, el articulo que me enviaste y la posibilidad de escribirte.
Un abrazo carinoso
IVONNE