quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Cartas de Vinicius



Dário Borim Jr.


Para minha surpresa, já me perguntaram se também gosto de livros. Isso porque algumas pessoas se impressionam com o meu amor pela música, apesar de não ser músico, enquanto ganho a vida como professor de literatura. Paradoxalmente é assim mesmo que me justifico: é de tanto amor por música, e de tão pouca paciência para absorvê-la através do lento aprendizado de um instrumento, que nunca fui além de um curso de teoria musical em Belo Horizonte nos anos 70.

Adoro cantar, um prazer imediato, apesar de minhas limitações. Mas gostaria mesmo é de aprender a tocar piano em um mês, ou violão em 15 dias. Não dá, não é tia Selma? Do mesmo modo como eu canto, meu amor por literatura também me dá recompensa imediata, tanto na hora de ler quanto na de escrever. Neste caso, gosto mesmo é do processo, e não sinto impaciência nenhuma diante do tempo que possa transcorrer até que algo meu seja publicado ou até que a última página de um livro seja virada. Aliás, meu longo prazer ao escrever não se compara nem mesmo ao efêmero encanto que tenho ao ver minhas palavras inscritas num blog, jornal, livro ou revista. Pra ser sincero, muitas vezes nem gosto de me vê-las ali. Passo os olhos e prossigo com meus afazeres.

Não posso reclamar: apesar de minhas distintas atitudes em relação a elas, amo-as ambas, igualmente, e por isso música e literatura se fundem na minha vida pessoal e profissional. Nesses últimos meses tenho dedicado parte do meu tempo à preparação para um seminário que darei no Programa de Pós-Graduação em Estudos Luso-Afro-Brasileiros da Universidade de Massachusetts Dartmouth. Chama-se “Arqueologia da Paixão em Vinicius de Moraes”. Naturalmente ali se combinam o cancioneiro e a poética de um dos grandes nomes da cultura brasileira. Para ministrar tal curso tenho lido vários volumes que incluem a biografia, poesia, o teatro, a música, e as crônicas do Poetinha.

A obra que iniciei hoje, entretanto, é Querido poeta: correspondência de Vinicius de Moraes (Companhia das Letras, 2003). Trata-se de um tipo leitura que me diverte e me fascina: uma coletânea organizada por Ruy Castro com mais de 200 cartas — ou do Poetinha ou para ele redigidas em mais de meio século. Para o deleite dos interessados, elas foram cedidas por parentes e amigos e arquivadas junto à Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Entre muitas outras revelações, essas cartas expõem um Vinicius de Moraes que pouco se encontra na sua obra poética: o diplomata, o pai, o filho, o irmão e o esposo.

A primeira carta reproduzida foi escrita pelo Poetinha a sua mãe, d. Lydia, quando ele tinha 19 anos. Conta de uma viagem a Itatiaia, cidade na região serrana do estado do Rio de Janeiro, hoje em dia, mais uma vez, tão tragicamente castigada pelas chuvas. E já chovia muito por lá em novembro de 1932 (quase 80 anos atrás). Sobre a estrada de terra morro acima, super estreita e escorregadia, as rodas do caminhão em que Vinicius viajava tinham correntes duplas, para maior tração, mas os precipícios eram enormes e se abriam logo às margens dos pneus, para o pavor dos passageiros da cidade grande. “Resultado: de músculos contraídos, com ave-marias na boca a cada curva, o vosso filho viu a morte perto do seu nariz durante uma hora e dez minutos” (17).

Diz o poeta: "Esse caminho, conforme nos disse o tal chofer, que e' a cara de são Pedro, não e' nada perigoso quando está seco. 'Quando está molhado', nos disse o animal, é apenas um bocadinho'. Imagina. Não assustes, porém. Para a volta já providenciamos cavalos mansos" (18).
“Depois da tempestade, vem porém a bonança”, acrescenta Vinicius (18). Daí surge uma bucólica descrição do hotel e de outras maravilhas do lugar, também com sensibilidade e humor: "Estou escrevendo esta num caramanchão poético e fresco, com sabiás discutindo perto. Uma delicia. Da' vontade de fazer uma poesia que preste. Mas a preguiça é muita" (19).

De fato há um universo de enredos e emoções em Querido poeta, mas aqui tenho somente um cantinho de jornal para representá-lo. Termino, então, com uma dose homeopática do amor do poeta pela família e amigos. Em 1938, aos quase 25 anos de idade, Vinicius partiu de navio para estudar literatura em Oxford, na Inglaterra. A bordo do Highland Patriot, ainda subindo pela costa brasileira, já sente saudades, e escreve à mãe: “Mais do que nunca, só o amor das pessoas conta para mim. É tão simples que chega a ser difícil explicar por quê” (53).

Apesar de apaixonado por uma paulista, Tati (Beatriz Azevedo de Mello), com quem logo se casaria por procuração, o poeta confessa os sentimentos pelo irmão: “Não creio que haja pessoa no mundo de quem eu goste tanto quanto do Helius. No entanto, você viu como nos despedimos? Um simples aperto de mão” (53). Então conclui, sobre os que ficaram para trás: “É que a ausência não é tudo. Há, mais fundo e mais forte, uma coragem de amar perigosamente, mesmo através do incompreensível. As pessoas tocam a vida pra frente, repousadas umas no amor das outras. É formidável isso. Vocês me deram uma grande lição” (54).

13 comentários:

A. G. disse...

acabei de ler as cartas do vinicius
du caralho -- adorei mesmo
muito bom

Patricia disse...

Que lindas palavras num dia cinzento... Eu estava prestando vestibular quando a notícia correu que o Vinicius tinha morrido. Tudo parou naquele momento e o vestibular parecia algo tão distante e a poesia e música do Vinicius tão presente.
Obrigada, Dário!
Beijos,
Patricia

Thiago disse...

Querido amigo Dário,
É isso mesmo: Amor pela Música e pela Poesia fazem da gente "Escravos de Jó" ou seja, Escravos do Bom Gosto! Muito obrigado por compartir comigo suas "escritas". como diria minha tia Amélia - poetisa Cearense vindo para o Amazonas com os meus avós maternos. Minha mãe nasceu no Amazonas! Por isso, e por toas as outras coisas, fico alegre em saber que voce, alem de ser um Professor numa famosa Universidade Americana, tambem gostaria de tocar o Piano!
Que beleza!
Thiago

Viviane disse...

Gosto muito da forma que vc encontra para lidar com as palavras. Vc tem o dom,a sensibilidade, de expor através da escrita, o sentimento
que "rola" por tras de cada estória, situação,ou, simplesmente,
quando quer falar de si,da vida... Fala com "graça" e espontaneidade que nos cativa ao ler seus "escritos..." hehe! Que beleza,associar aquilo que gosta com a paixão pela música. Isto é para poucos... A maioria das pessoas ainda não conseguiu este "feito' rrs. E nós, aproveitamos sua generosidade em
compartilhar. Vamos curtindo sua bela habilidade.
Que tema maravilhoso vc esta' preparando para o curso que vai ministrar.
Legal saber algo da vida do "poetíssimo" Vinícius de Moraes.
Grata por nos contar um pouco do homem que estava por tras do poema.
E vc,esta melhor..parece que sim.. É "as pessoas tocam a vida repousadas no amor uma das outras"... realmente formídável isto!
“É que a ausência não é tudo" ...que grande verdade! bjo!

Issima disse...

Lindo!
Como sempre!
E eu invejosa (como sempre) de querer participar destes seminários! Mas um dia vai! rsrsrsrs

Priscila disse...

Que lindo isso Professor!
Continue escrevendo e me enviando. É um prazer te ler e aprender sobre a cultura da "terrinha".
Ah, Rick (que já chegou) e Blanca estarão por aqui na semana que vem. Quem sabe nos encontramos para uns drinks?
Mantemos contato e combinamos, ok?
Beijos e boa noite,
Priscila

Liv disse...

OOOOOOOOooooooiiiiiii Dario,
como andas de recuperação? Bem? Quase "zero bala"?

Ah Daritcho, adorei a crônica, linda mesmo.

Por aqui calor e sol. Daqui a pouco me preparo pra trabalhar.

Beijo! Liv.

Riquinho disse...

OI, MERMAO!

Estou da volta, com muito frio, mais contente.

Blanca vai voltar terca feira 31 fev.

Obrigado pela cronica do Poetinha. Gostei muito.

Hoje tem musica, nao e?

Te ligo nela programa. Talvez neste fin de semana podemos caminhar un pouco, ta?

Um abraco, Rick

Blanca disse...

Hola, Dario:
Siento no poder escucharte hoy pero, como ves, en espíritu estoy con Braziliance.
Gracias por tu escrito de ayer. Eres una persona muy interesante y me gusta mucho tener tu amistad.
El próximo jueves estaremos en linea y cerquita.
Un abrazo grande.
Blanca

Carla disse...

Música e poesia sempre! Gostei muito da crônica. Beijos, Cacá.

Silvana disse...

Nossa, que lindeza, coisas tão comuns que a gente sente e ele consegue fazer delas poesia, que lindeza, e o brother lá vai pelo mesmo caminho... e olha que já atem um acervo de 600 cartas!!!. Gostei muito meu irmão. Parabéns

J. Frederico Schmidt disse...

Quem canta, escreve. Quem escreve nem sempre canta, mas a sensibilidade de ouvir é como tocar um instrumento.
Se eu pedesse tocar um piano em 15dias, iria pegar uma guitarra para fazer muito barulho, mas com melodia. Rsrsrsrsrsr
Ficou muito bacana seu texto.
Parabéns!
Um forte abraço!
J. Frederico Schmidt
http//:papillonvoador.blogspot.com/

Tuka disse...

Obrigado pela cronica, como sempre um prazer para a alma.