terça-feira, 10 de maio de 2011

Londres não é só para inglês ver



Dário Borim Jr.





Estes são os meus últimos 30 minutos em Londres – até a próxima visita, é claro. Vida de professor universitário foi o que eu escolhi depois de bater a cabeça noutras portas. Em momentos como este, no aeroporto de Heathrow, enquanto espero meu vôo para Boston, tenho plena consciência de que acertei na pinta. Esse negócio é bom demais. Gente como eu nunca vai acumular riqueza. A gente sofre uns bons bocados, pois passa por umas chateações políticas e burocráticas, e tem que sobreviver publicando, senão é esmagado pelo sistema. Mas, na hora de poder escolher onde apresentar nossas pesquisas e teorias, muitos de nós pensamos, naturalmente, em viajar, com quase todas as despesas pagas pela Universidade, a países que nos parecem atraentes. E assim nossas vidas adquirem outro sabor.

Mais um congresso me trouxe, na terça-feira passada, a Grã-Bretanha. Bem, sejamos mais precisos: mais uma vez eu escolhi vir apresentar um trabalho nessa parte do planeta. Eu poderia ter escolhido ir a Viena em julho, ou a China em setembro. Quem sabe um dia por lá estarei. Por ora me contentei em desfrutar do que nos pode oferecer o mundo anglófono. Às vezes me pergunto se numa das minhas últimas encarnações não fui celta, bretão, ou mesmo americano.

O fato é que minha terceira passagem pela Grã-Bretanha me dá mais motivos para refletir sobre a minha “budista” origem inglesa – tudo isso, claro, com uma devida dose de imaginação e humor. Confesso que estou numa danada “ressaca emocional,” daquelas que me chegam depois de uma noitada ou mesmo de vários dias de muita alegria e aventura. Meus dias aqui foram realmente intensos, e para compor uma narrativa de todas ou mesmo da maioria das minhas experiências e reflexões nem teria espaço para essa crônica de jornal.

É verdade que em Massachusetts eu andava tão apertado de trabalho na Universidade, nas duas ou três semanas anteriores ao embarque, que mal pude antecipar mentalmente as delícias da viagem. Isso é mal, porque boa parte das coisas prazerosas da vida vem antes delas, vem da alegria que temos ao pensar nelas, ao vivê-las na mente e no coração, espaços onde não há limites ou fronteiras. Mas não posso reclamar. As emoções que tive em cinco dias inteiros em Londres me compensaram por qualquer “atraso” desse tipo.

Já no primeiro dia pude aproveitar o tempo bom, fresco, sem mais que uns rápidos e tímidos chuviscos, e pude fazer o que mais me atrai ao ar livre: andar, andar, e andar. Num país estrangeiro – aliás, como vivo no estrangeiro, devo dizer, em um país ainda mais estrangeiro que meu país estrangeiro – nem foi preciso ouvir meu I-Pod para me embalar pelas ruas. De fato, música saindo de um headphone seria um terrível filtro, um cabresto auditivo, porque há tantos sons a se perceber numa rua estrangeira quanto há cores, formas, aromas e movimentos, de coisas e de pessoas, que nos fazem descobrir o novo a cada segundo e a cada passo.

O tempo seco tem sido um fenômeno agradabilíssimo, mas meio raro, na cidade de Londres, dizem os jornais. Aqui chove muito e, principalmente, na primavera. Andar e andar na chuva são duas coisas muito diferentes. Lembro bem que foi com a mesma sorte que também me aproveitei do mundo seco, florido e ensolarado das avenidas de Dublim, dois anos atrás. Tivemos lá seis dias de sol em seguida, que fizeram muitos dublinenses pensar que Deus era irlandês. Desta vez, já deve ter londrino imaginando que Deus está sendo muito generoso com os fãs da família real e proporcionando a eles uma lua de mel, uma “lua de sol” para comemorar direito o casamento dos pombinhos Kate e Williams, aqueles belos seres sustentados pelo dinheiro do povo.

Então foi ao passear na minha primeira tarde londrina desde 2007 – sempre de antenas ligadas – ao longo de uma simpática avenida do centro histórico, a Shaftesbury, que notei que uma peça de teatro estava para se iniciar em 20 minutos no belo e tradicional Teatro Palace. A propaganda sobre a platibanda do prédio era muito chamativa: um enorme e brilhante sapato de salto alto azul piscina. Anunciava o musical Priscilla, a Rainha do Deserto. Não vacilei: um espetáculo vencedor de vários e importantes prêmios, com 25 drag queens, não era para deixar passar. 

Já que meu principal motivo para estar na Inglaterra era a palestra que daria num congresso de estudos feministas na Universidade Londres, a chance era excelente de eu logo fazer uma imersão de duas horas e meia no humor, música e dança do espalhafatoso e maravilhoso mundo gay, ali, a meu dispor, por 20 libras. Paguei pra ver e não deu outra: adorei. A produção era excelente. O repertório musical, da melhor discoteca dos anos 70. O cenário, altamente criativo, mutante, mirabolante, tinha tudo de barango-chique e fantástico high-tech, com gente voando ou descendo dos céus, ônibus multicolorido em pleno palco, etc. O elenco e o corpo de dançarinos eram, obviamente, de primeira linha. Mais uma vez valeu a pena ter caminhado com os olhos bem abertos e os ouvidos desobstruídos para descobrir e curtir o mundo da rua, ainda mais em Londres, que, realmente, não é só para inglês ver.

19 comentários:

rose prado disse...

Tudo muito bom e você merece, Dario! Mas qual foi o tema da palestra? Fiquei curiosa!!!!

djborim disse...

Rose, obrigado por ler e comentar o novo texto. A minha palestra foi sobre um livro de cronicas de uma autora paulistana-parisiense. Estou apenas no inicio de um trabalho que terei que abandonar, por uns meses, para desenvolver outros maiores e mais urgentes. Aqui segue o resumo. Um abraco,
Dario


Betty Milan’s Gaze: When Real-Life and Dream-Like Realities Scintillate

This study’s aim is double-folded. Initially and somewhat briefly, it compares and contrasts two São Paulo-born authors, Betty Milan (1944) and Oswald de Andrade (1890-1954), in regards to formalist traits of their respective works Quando Paris cintila and “Manifesto Antropófago” (1928). Later, the discussion focuses on what most significantly distinguishes the 2008 book of crônicas from the 1928 metaphorical proposal of cultural cannibalism.

Betty Milan and Oswald de Andrade share several points of formalist similarity. However, when it comes to the perspective and thematic core of their writings, the two São Paulo-born writers are undoubtedly poles apart. If Andrade’s “Manifesto antropófago” constitutes a poltical and cultural statement through a central metaphor on the Brazilian ethnic development and identity , Milan’s collection of crônicas sheds light on the philosophical, psychological and spiritual realms of individual experiences in contact with multicultural values and life styles. Unlike Andrade, the Paulistana-Parisian writer urges us to think globally while traveling in time and space through detachment and meditation, magic and contemplation, art and risk taking. For her, other decisive elements are patience and willingness to change, adventure and awareness, even the enigmatic sides to living and the educational aspects of dying. Milan’s life-writing through crônicas based on real life journeys is spiritually and aesthetically motivated. Gazing at real life and dream-like realities, she advocates the redemptive clout of imagination and surprise in dealing with the mundane and with the nonsensical appeal of stagnation, helplessness, and surrender.

J. Frederico Schmidt disse...

Com uma crônica bem escrita por você como esta em cada cantinho deste mundo ficaria satisfeito e poderia economizar e evitar o stress nos aeroportos.
Parabéns!!!

djborim disse...

Ei, Frederico--
Obrigado pelo toque! Viajar, escrever, e apaixonar-se tem umas coisas em comum -- tudo de bom, ne' nao? Abracao, Darinho

Nedinha disse...

Bom dia Darinho
Obrigada por mais essa... viagem com vc. É o que eu já disse outro dia, é bom ver com os olhos de outros, e deu prá ver e sentir Londres. Adorei!
Opa! Caindo de volta no Brasil, Sabará, Marzagão... O dia tá lindo, um céu azul, muito azul, uma brisa fria do inverno que tá chegando devagarinho; mas tá na hora, ao trabalho!
Um grande beijo
Nélida

Rosely disse...

Bom Dia!
Darinho adorei a cronica.
Me senti em Londres e senti o perfume da primavera!
Bjos.
Rosely

Nina disse...

Nossa, que delícia ver estas notícias do meu irmão! Como consegue aproveitar todo o possível em curto espaço de tempo e, ao mesmo tempo escrever tão lindo que "boa parte das coisas prazerosas vem antes delas, vem da alegria que temos ao pensar nelas....", por favor, recorra à crônica, vale a pena ver de novo tudo o mais!!! Abração, brother querido. Com amor. Silvana

Henriqueta disse...

Darinho, realmente interessante sua crônica. Gostei muito, e me senti viajando com você. Beijos.

Jac disse...

Olá
Adorei a crônica. Que privilágio assistir Priscilla a Rainda do Deserto. Que inveja, pelas poucas palavras que você descreveu o musical dá para imaginar que foi fantástico.
Depois de momentos assim a gente volta para caminhada da vida revigorado.
Bj
Jac

Maristela disse...

Que legal que esteve em Londrea e de tempo bom -- raridade. No fim de agosto -- em pleno verao -- choveu e
fez frio 8 dos 12 dias que lá estivemos.
Vamos ver se nossas famílias se encontram no Brasil.
Beijao

Cristina Schmidt disse...

Darinho, pude atraves de suas palavras, sentir toda sua alegria e emoçao em estar desfrutando um dos prazeres da vida: viajar para conhecer,viver o novo e o belo. Valeu!!!
obs: rimos tanto ontem que dormi mal. To trabalhando com ressaca.hehehehe

rose prado disse...

Nossa ! OBRIGADA ,Dário.

Sou muito muito grata. E feliz.

Beijos


* vou ler , depois comento

Mariangela disse...

Olá Dario!!! Me senti lá... que delícia de se ler... beijocas millllllllllllllll

Rick disse...

Dear Dario,
Very nice piece; I enjoyed it. But I doubt that you were ever an Englishman in a previous incarnation. You are about as far from being English as from being Chinese. An English-Brazilian is a contradiction in terms!
Best, Rick

Carla disse...

Ei, me identifiquei muito com essa crônica, principalmente quando você fala sobre "curtir antecipadamente momentos gostosos" e quando diz sobre "a aventura de descobrir países estrangeiros"! Adorei, beijão! Cacá.

Di disse...

Muito boa mano!!!!

Risa Helena disse...

Caro Dario,
Que bom poder compartilhar momentos tao preciosos!Sera que estou mesmo na Av. Cararandai!?...
Adorei a cronica e a palestra.
Grande abraco,
Risa.

Risa Helena disse...

Caro Dario,
Que bom poder compartilhar momentos
tao preciosos!Sera que estou mesmo na Av.Carandai!?...
Adorei a cronica e a palestra.
Grande abraco,
Risa.

Vi disse...

Ei,D. ,
É isso aí,aproveitando as oportunidades,a fase boa das viagens...rrs
Muito interessante o show dos gays rrs,vc conta legal esta bela aventura em Londes... ui! E depois, diz q foi trabalhar... afff,isso é estória para ingles ver...hehe!
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Vigat@