domingo, 3 de junho de 2012

Meus novos olhos



Dário Borim Jr.
dborim@umassd.edu





O mundo das percepções é fascinante.  Vivemos nele, sempre, ou já morremos, sem o perceber. Ironia à parte, nós podemos estar, às vezes mais, ou às vezes menos, conscientes dos detalhes do cotidiano, dos elementos que nos rodeiam, elementos esses que geralmente não percebemos, nem queremos ver. Em geral não queremos parar para observar ou refletir, com atenção e imaginação, sobre cheiros, cores, formas, movimentos, sabores ou sons. Passamos por tantas fontes triviais de admiração a caminho da escola ou do trabalho, como se elas não tivessem nenhum valor, nenhum atrativo, nenhuma beleza, nenhuma importância.

Quando comecei a me interessar a sério por fotografia, tornei-me mais consciente de minhas próprias tendências ao descaso para com os elementos do cotidiano e do mundo natural. Pareceu-me que eu tinha adquirido novos olhos, espécies de janelas para uma paisagem intimamente ligada a meus sentidos, mas, principalmente, a minha alma, o cerne de minha constituição emocional e espiritual. Achei, então, que jamais olharia para mundo como o fizera antes, de certo modo cego e alheio aos meus outros sentidos, por conta de minhas preocupações com o dia-a-dia, ou por conta das minhas mais variadas ideias e reflexões afastadas do que se encontrava diante de mim. Nesses novos tempos, passei até mesmo a carregar comigo, no bolso da calça ou na pasta de trabalho, minha nova câmera.

Como exemplos daquela "cegueira" e desses meus novos "olhos", relembro um incidente ao chegar a minha universidade, num desses dias comuns, repletos de tarefas rotineiras. Notei a beleza de um arvoredo refletido no enorme vidro de uma janela, fachada do prédio de Humanidades da Universidade de Massachusetts Dartmouth. Não hesitei. Tirei minha câmera e passei enquadrar a o arvoredo no visor LCD de minha Panasonic. Foi quando apareceu Gisany Parreira, uma de minhas alunas cabo-verdianas. Saindo do prédio ela se surpreendeu ao ver o professor de literatura fotografando aquela janela. Talvez querendo testar minhas hipóteses sobre o tal descaso para com o cotidiano, perguntei se ela também via o que eu estava vendo e fotografando. Ela disse-me: "Aquele aviso ali no vidro, não é?" Ela referia-se a uma placa de metal no centro da margem inferior daquela janela de aproximadamente seis metros de comprimento por cinco metros de altura. O aviso era sobre a proibição de se fumar por ali. Minha aluna não tinha notado a impressionante reflexão das árvores. Ignorava o estético, o belo, enquanto se limitava a ver o óbvio, o imediato, o prático, o "importante".

Por conta dos meus novos "olhos", tenho quase a certeza de que há praticamente três meses não para de ventar nesta região costeira do sudeste de Massachusetts. Por que sei? É que quando se deseja fazer close-ups de flores, por exemplo, o vento atrapalha. Ele intervém e se revela aos olhos de quem vê as flores e procura enfocar na sua câmera os seus minúsculos elementos de formosura. O trabalho é dobrado. Há de se dar conta do vai-e-vem da planta, de se considerar os passos de sua dança ao vento, e clicar, clicar várias vezes, até que ocaso parcialmente manipulado nos ajude a obter uma fotografia nítida e detalhada.

Tenho clicado, sim, e muito. Já foram quase quatro mil fotos nas últimas oito semanas! O dito acaso faz a sua parte. Nós devemos fazer a nossa, estando atentos ao que o acaso nos traz. Outro dia meu filho mais novo, Zach, esqueceu de levar algo para a escola e me telefonou. Saí da universidade e fui ajudá-lo. Passei em casa para apanhar uma raquete de um esporte típico desta região do país, o tal de lacrosse, mistura de tênis e hóquei sobre grama. Ao retornar  à universidade, perto de uma hora da tarde, resolvi "quebrar a rotina" e observar por uns minutos as paisagens ao longo de um belo riacho paralelo à estrada. Fiquei encantado com o que vi e com o que fui descobrindo pelo visor de minha câmera, fotos que poderiam "acontecer", se eu clicasse, ou que já tinham "acontecido" -- todas elas observáveis pelo mesmo visor eletrônico.

Meu entusiasmo foi crescendo. É que havia certa mágica na composição, justaposição e fusão dos elementos naturais. Árvores altas e altivas alinhavam-se na outra margem do riacho. Quase não tinham cores. Nesse momento eu me encontrava bem rente à beira d'água. Olho para baixo. Percebo que, sob o meu queixo, a água reflete o céu azul e as árvores, mas tudo sob efeito dos movimentos e da plasticidade do próprio leito do riacho após dois dias de chuva. Os efeitos multicoloridos também vinham das pedras, da terra sob e sobre elas, da relva e de outras plantas rasteiras e coloridas nas margens. Os efeitos eram, principalmente, criados pelos raios de sol, além das sombras e tons do fundo do riacho.

A imagem que via ali, praticamente adjacente aos meus pés, é emoldurada pela grama e pelas pedras da margem, onde piso, e, como eu dizia, se refletem as árvores do outro lado. Mas estas estão de cabeça para baixo. Eu fotografo aquela imagem espelhada, e o resultado e' um retrato — claro — da imagem do espelho que retrata as árvores. Na água as árvores estão pequenas. Na foto obtida, já dão a impressão de terem readquirido seu tamanho normal. Já no meu escritório, certifico-me de que, para meu deleite, a foto que tirei minutos antes é um tanto rara, misteriosa. Vejo, então, que se eu inverter aquela foto (portanto, a imagem da imagem da árvores), a nova imagem que tenho (resultado da inversão que executo no computador) é ao mesmo tempo impressionista e surreal. Com relva suspensa no ar e árvores com troncos embaçados surgindo do leito do rio, essa nova foto repõe as árvores de cabeça para cima. Nessa nova imagem da imagem da imagem da imagem, tudo parece mágico, mas não é, ou nada é somente o que é. Tudo também é o oposto do seu oposto, um pouco modificado, o espelho que inverte e altera a imagem de um espelho, e assim por diante.

Essas são para mim apenas algumas das várias lições que venho recebendo depois de ganhar novos "olhos". Outras também transformaram o meu viver. Não passo mais por uma poça d’água sem ver que tipo de imagem ela reflete. Por poder e querer caminhar diariamente, aprendi que as poças ressurgem nos mesmos lugares da cidade, mas sempre com novas paisagens na sua superfície. Além disso, mal consigo dirigir sem observar as janelas das casas, os passarinhos e outras aves no chão ou no ar, e apaixonadamente, as esculturas da natureza sob a forma de sugestivos troncos, galhos, folhas e flores.