segunda-feira, 9 de julho de 2012

Belo e imperfeito





Dário Borim Jr
dborim@umassd.edu
-- Em outra revista: http://www.huesoloco.org/?p=344

Outro dia acordei pelas cinco e pouco da manhã. Tentei recuperar o sono, mas minha cabeça já estava acesa e cheia de entusiasmo. Não me foi possível voltar aos sonhos de olhos cerrados, pois os sonhos de olhos abertos me chamavam. Estes logo me convenceram: eu não deveria perder o nascer do sol que, pela janela do quarto, já se insinuava com tons amarelos, lilases, roxos e vermelhos. Da janela do banheiro logo vi melhor a paisagem lá fora. Era hora de apanhar a câmera e fazer algumas fotos daquele espetáculo matinal. E foi só o começo. Dali a pouco sairia de casa em busca de mais cores e outros motivos para observar o mundo externo e criar novas imagens. 

Penso que a fotografia é — como outros meios de expressão humana, sejam eles das artes literárias, cênicas ou visuais — um poderoso elo entre o mundo interno, que existe e se transforma em cada um de nós, e o mundo externo, que podemos perceber com maior ou menor curiosidade, imaginação e sensibilidade. Ao decidirmos prestar mais atenção nos detalhes do que nos rodeia conseguimos ir muito além da nossa relação direta e pragmática com o imediato, o óbvio e o necessário. A fotografia poderá ser então o resultado dessa viagem mental e sensorial, onde há espaço e oportunidade para encaixarmos nossas representações de lembranças, preocupações, sonhos, e vasta variedade de emoções. 

Naquela manhã, que para mim começou quando sol, antes de se tornar visível, já tingia as nuvens e seu pano de fundo, o firmamento, eu pude caminhar pela orla do mar e muitas ruas da vizinhança. Estava bem disposto e animado ao ver um mundo em rápida transformação. Mais e mais pássaros, por exemplo, cantavam em múltiplos tons. Sua alegria era contagiante em face ao nascer de um belo dia de primavera já com cara de verão. Ainda se sentindo satisfeitas e renovadas com o orvalho, as folhas das árvores agradeciam o frescor da madrugada. O diafragma de minha Panasonic, azul como o céu naquele momento, funcionou intensamente naquelas duas horas de caminhada e comunhão de luzes, sons e  odores que eu compartilhava com os bichos (entre esquilos, gaivotas, lebres, marmotas e gatos, por exemplo), com as flores (como hortências, lírios, magnólias e margaridas), com as árvores centenárias, com os barcos a vela multicoloridos, e com as janelas espelhadas e reluzentes. Uma das fotografias dessa jornada acabou se tornando uma de minhas favoritas (veja-a acima). Segundo uma amiga conhecedora das artes plásticas, Glória de Sá, ela é como uma obra de Louis Comfort Tiffany (1848-1933), artista americano reconhecido principalmente pelos seus maravilhosos vitrais.

Satisfeito com minha expedição fotográfica de duas horas, pensava eu — quase ao chegar à casa — como era hora de marcar uma consulta de rotina com meu médico, Dr. Alexander Altschuller, um simpático cardiologista russo-americano com quem consulto, a cada seis meses, há onze anos. Nesse exato momento vejo um senhor a caminhar lentamente em minha direção. Trazia consigo um pequeno cão, provavelmente um poodle. Com muita surpresa reconheci o meu médico e também me dei conta da tremenda coincidência de estar pensando nele quando de repente o vi por ali. Surpresa ainda maior foi saber que há mais de 40 anos ele mora nesta cidade, Dartmouth, a apenas quatro quadras de onde moro há onze anos. De fato, foi exatamente em frente a sua casa que nele pensei, sem jamais o ter visto antes em nossa vizinhança. 

Outro aspecto desse encontro foi a diferença que notei entre os dois homens, aquele da rua e aquele do consultório. Vestido de branco e com autoridade do saber médico ele sempre me pareceu muito forte, poderoso, seguro e tranquilo. Ali, na rua, sem o aparato e o ambiente do profissional conceituado que ele é, pareceu-me um típico senhor bem idoso: fraco, lento e vulnerável. Mais um fator que me impressionou foi o elo que nos reunia naquele passeio matinal: a fotografia. Lembrei-me (e logo lhe disse) que admirava as fotos que ele próprio tirava e pendurava nas paredes da clínica onde eu o via há tantos anos. Lembrei-me também de lhe dizer que semanas atrás ouvira falar de um médico que, supostamente, fora o primeiro no país a decorar clínicas e hospitais com suas fotografias e pinturas, levando, assim, um pouco de conforto, distração, formosura e prazer aos pacientes.

Voltei para casa com mais motivos para refletir sobre a vida que levo e certas opções que faço diariamente. Vi-me mais consciente do papel e do poder que temos ao criar imagens. Pensei nas dezenas (talvez centenas) de pessoas que apreciam meu trabalho fotográfico na mídia social eletrônica, especialmente no Facebook. Vi semelhanças, mesmo que tênues, entre o hobby de meu médico e o meu. Conclui que tenho mesmo que continuar minha viagem mental e sensorial através da fotografia, porque através dela realizo a cada dia um dos maiores prazeres que possuo: compartilhar através de crônicas mensais, de músicas semanais, de fotografias diárias, todas as histórias, sensações, e sentimentos que nelas couberem, sejam eles nos momentos de paz e contemplação, como naquela manhã, ou nos momentos de dor e medo, como nas clínicas e hospitais desse mundo tão belo quanto imperfeito.