quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Sem o Sam





Sem o Sam

Dário Borim Jr.

Ontem pelas oito e meia da noite fazia muito frio por esta região da Nova Inglaterra: dois graus centígrados negativos, ou seis graus negativos, sob o efeito do vento. Esse talvez não fosse o maior impecilho a minha caminhada. Mais difícil era pensar na saudade que sentia do Sampson, ou, carinhosamente, do Sam, um belíssimo cão da raça golden-retriever, de 40 kg, pêlo dourado brilhante, súper liso e macio, olhos castanhos suaves, doces como mel, rodeados de uma moldura natural bem branca, como fossem óculos de nadadores.
Sam foi meu amigo fiel por dez anos. Ele e eu devemos ter ficado bem conhecidos nesta parte da cidade de South Dartmouth como companheiros inseparáveis de assíduas caminhadas. Em geral saíamos três vezes ao dia, perambulando por aí pelas ruas, fosse dia ou fosse noite, fizesse frio ou fizesse calor. Ele me ajudava a perder peso e eu lhe oferecia a chance de respirar ar livre, de cheirar todo tipo de coisas, vivas ou mortas, no asfalto e nos jardins dos vizinhos, além, é claro, de poder receber muitos mimos das pessoas que encontrávamos por acaso. Eu sempre dizia que Sam era um cachorro viciado em carinhos.
Sam era extremamente gentil e tolerante. Cresceu junto com Zach e Ian, e com eles brincou sem jamais perder a paciência com os ocasionais exageros de meninos ao lidar com seu “brinquedinho” de quatro patas. Zach tinha oito anos e Ian quase onze quando o adotamos em Minnesota. Eram três irmãos que traziam muitos sons, movimentos, amor e alegria à casa. Os amigos que cá vinham nos visitar eram logo alvo de um doce assédio, a incansável busca de Sam por afagos. Dava gosto ver um ser tão parecido a muitos de nós humanos, na nossa necessidade de atenção e chamego.
Antes de atingir a meia-idade canina, Sam também fora pura energia. Corria por todo canto, muitas vezes em alta velocidade. Se por acaso a porta ficasse aberta por alguns segundos, ele logo fugia afundando a pata no acelerador, sem medo. Certa vez isso aconteceu tão radicalmente que ele atravessou a porta feito um cometa em direção à rua. O vizinho que morava em frente, Doug Roscoe, meu colega na Universidade, vinha de carro para casa. Quando viu aquele bicho peludo se movendo como um Airton Senna sob efeito do álcool, parou o carro, mas não pôde evitar que Sam continuasse na sua corrida frenética, e que batesse na porta do seu carro. Felizmente Sam não se machucou, nem a lataria do carro se estragou.
Nossas caminhadas às vezes incluíam tempo para ele namorar um pouco. Aquela a quem eu considerava sua namorada é Piper, uma golden-retriever bem mais jovem e um pouco mais clara e mais leve do que ele -- também um doce de animal, que mora a poucas quadras daqui. Em frente à casa dela, os dois safadinhos corriam, rolavam na grama, e se mordiam levemente, com muito respeito.
Sam era um cão que não reconhecia muitas palavras, mas entendia muito bem suas próprias necessidades e as alheias. Ele entendia, principalmente, os sentimentos das pessoas a quem amava. Quando meu sogro faleceu, não deixou que Ann sofresse sozinha em nenhum momento. Compreendeu sua dor e a acompanhou pela casa noite e dia. Nas raras vezes em que eu adoeci nesses últimos dez anos, ou quando me recuperei de uma pequena cirurgia, Sam jamais me abandonou ao lado da cama. Ele de fato entrava em depressão e não comia nada por vários dias quando um de nós quatro viajava e se ausentava por algum período mais longo. Aliás, à noite ele não se afastava da porta de entrada da casa até que o último de nós quatro voltasse da rua a qualquer hora da noite.
Sam tinha vários meios de se comunicar, naturalmente. Quando recebia um presente, como um pedaço de osso apropriado a seu peso e raça, percorria toda a casa chorando de alegria. Quando ele e eu nos aproximávamos de um quarteirão pelo qual ele não gostava de passar, diminuía a velocidade dos passos até parar, e depois me encarava. Era como dizer: “Por aí, não, meu velho. Tem alguma coisa nesse trajeto que me incomoda”. Infelizmente eu nunca descobri exatamente o que lhe era desagradável, mas sempre atendia ao seu pedido. Na hora em que ele se cansava de uma caminhada, repetia aquele mesmo comportamento. Eu lhe perguntava se estava cansado e queria voltar para casa. Ele imediatamente dava meia-volta, para que retornássemos e ele logo pudesse descansar em paz.
Pouco mais de duas semanas atrás, Sam e eu caminhávamos como de costume. Eu havia notado que nos últimos dias ele parecia cheirar o chão mais amiúde do que antes. Ele devia estar mais dependente do que nunca daquele sentido, o olfato, para se locomover. Eu não sabia que ele estava ficando cego rapidamente. Naquela tarde ele não viu uma caminhonete estacionada a sua frente e bateu com a cabeça no pára-choque. Achei aquilo um pouco estranho. Sam era como eu, muito avoado, distraído, mas não era para tanto.
No dia seguinte, uma quarta-feira (seis de novembro), ele deu outros sinais de que algo estava errado com ele. Na quinta-feira o levei à clínica veterinária. Fizeram alguns exames. A médica disse-me que infelizmente não gostava nada do seu comportamento. Parecia algo muito sério, pois Sam já era outro: tinha uma perna dura, se afastava de todas as pessoas, inclusive de mim, chorava um pouco, e ficava caminhando com dificuldade, em círculo -- às vezes até de marcha ré! Certamente era caso sério para um cirurgião neurologista, provavelmente um tumor cerebral.

A tristeza que foi vê-lo sofrer de dor e desorientação nos dias seguintes não vale a pena descrever aqui. Prefiro relembrar o enorme contentamento que ele nos trouxe por quase dez anos e registrar o prazer que foi poder tê-lo comigo por ainda mais duas noites. Dormimos, meu amigo e eu, lado a lado, em um colchonete posto ao chão. Em alguns momentos, ficamos de rostos quase colados. Apesar das suas intensas aflições físicas, Sam conseguiu adormecer em paz por várias horas, num silêncio e numa paz que jamais esquecerei. Jamais esquecerei, tampouco, a ternura do seu olhar, a maciez do pelo nas suas orelhas, ou o calor da sua pata ao nos cumprimentar como se fosse gente. No sábado, dia nove de novembro, Sam partiu, mas jamais será esquecido por qualquer um a quem tocou fundo no coração. E foram muitos de nós.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A Descontração da Noite e a Magia das Artes


Café-Teatro Sagarana, em Mariana, MG


A Descontração da Noite e a Magia das Artes

Dário Borim Jr.

Dentro do universo das redes que existem entre artistas e amantes da arte, no sentido mais amplo da palavra, incluindo as artes plásticas, performáticas e literárias, os eventos culturais programados para acontecer regularmente nos jogam sementes de um promissor porvir. Eles nos inspiram, fomentam pontes no tempo e no espaço que transformam as vidas das pessoas, ou pelo menos nos ofecerem entretenimento estético e razão para repensar nossa existência além da rotina, conforto e banalidade do dia-a-dia.
Não moro em Nova Iorque, Paris, Londres ou Rio de Janeiro, mas a 10 minutos de carro da minha casa se encontra o centro histórico de uma cidade que nem é exatamente a cidade em que resido: New Bedford, Massachusetts. E a comunidade artística de New Bedford, que já foi uma das cidades mais ricas do mundo por conta da caça das baleias, no século XIX, conseguiu uma belíssima façanha: a Aha Night, ou Noite do Auê, que se realiza na segunda quinta-feira de cada mês. Os bares e restaurantes oferecem música ao vivo e cardápios especiais, as galerias de arte (que são muitas) abrem novas exibições. Música, dança, brincadeiras para as crianças, e oficinas de arte e artesanato ocupam as ruas de pedra rodeadas de lanternas coloniais e arquitetura charmosa de um tempo em que o dinheiro abundante fazia muita diferença naquela paisagem urbana.
Na última quinta-feira, na Aha Night deste mês de outubro, encontrava-me com dois amigos que conheci quase que exatamente um ano atrás. Em outra edição da Aha Night, em noite memorável, eu fizera minha estreia como fotógrafo em uma exposição coletiva denominada Postcards from New Bedford. Entre os visitantes, lá estavam Don Burton e Leila Kaas – ele, artista-cineasta americano, ela, professora-jornalista carioca. Apresentaram-se a mim e em pouco tempo nos sentíamos amigos. É que além da empatia e simpatia instantâneas que cada um parecida notar no outro, eles chegavam da Califórnia (onde moraram vários anos) com um recado de um amigo brasileiro que tínhamos em comum em Los Angeles, Sérgio Mielniczenko, o famoso radialista e attaché cultural do Consulado do Brasil naquela Meca do cinema. Uma nova cadeia de afeições e interesses artísticos em comum se criava rapidamente entre nós três.
Um ano mais tarde, Don, Leila e eu desfrutávamos de mais uma noite artística pelas ruas de New Bedford. Vimos belíssimas exposições no Museu de New Bedford e ouvimos música clássica de violino e violão tocada por um trio assentado em um sofá cercado de dois abajures, tudo posicionado no meio da rua. Chegou a hora em que apenas Don e eu nos dirigimos a um pub onde uma banda de seis músicos tocava uns velhos blues e uns rocks de arrepiar. Conversamos por mais de três horas, Don e eu, e não faltou assunto relacionado às artes e às emoções da vida noturna, onde se encontram pessoas criativas e abertas para a troca de histórias e ideias.
Papo vai, papo vem, falamos de literatura, e dali vieram lembranças de outras noites culturais programadas que marcaram a minha vida. O palco dessas memórias foi o Café-Teatro Sagarana, de Mariana, Minas Gerais. Hoje ele é gerenciado por Ana Lana Gastelois, mas, naquela época, nos meus bons tempos de professor da Universidade Federal de Ouro Preto, quem administrava a casa era sua mãe, Magdalena Gastelois, professora de francês, escritora de vários livros infantis, e mestre fundadora da famosa escola-piloto Picapau Amarelo (1969), de Belo Horizonte.
Minha amiga do peito, Magdalena era uma figura inesquecível pelo seu despojamento, sua coragem como inovadora do ensino de línguas estrangeiras através do teatro. Ela se apaixonara por uma esplendorosa casa edificada em uma fazenda da distante cidade de Campina (localizada no sudeste mineiro), e resolveu comprá-la – sim, apenas a casa. Ocupou-se então de transplantá-la em dezenas de viagens de caminhão, telha por telha, tijolo por tijolo, para um lote que havia comprado na cidade de Mariana. Conseguiu. A casa já foi material de reportagens em revistas de arquitetura. A parte onde funcionava o estábulo da casa original Magdalena transformou em café-teatro, o Sagarana, inaugurado em 1998 com mesas e cadeiras também num belo jardim em frente. Entre outros eventos inesquecíveis, disse a Don, Magdalena e outros professores ali realizavam semestralmente o Festival das Línguas, com peças de teatro encenadas pelos alunos da UFOP em francês, grego, inglês, espanhol e italiano.  
Também contei a meu amigo Don -- nessa mais recente noite de Aha -- que no período em que trabalhei na UFOP, entre 1997 e 2000, havia uma programação cultural intensa programada para cada semana. Na quarta-feira, uma noite de debates, com professores, alunos e representantes da comunidade de Mariana e Ouro Preto. Na quinta, forró com diferentes bandas da região. E, na sexta, dança livre.
Naqueles anos eu vivia uma certa esquizofrenia histórica ao ter um pé assentado no fim do século XX, em Belo Horizonte, onde morava com minha família, e outro pé no fim do século XVIII, naquela cidade barroca, onde as noites às vezes duravam quase duas vezes mais tempo que os dias.
Sob o luar e a luz das estrelas, rodeado de prédios coloniais, flores e coqueiros, a diversão e a troca de ideias eram intensas. Só mesmo acabavam no meio da madrugada. Eu não queria perder nada daquilo. Por isso ocasionalmente eu ficava até o fim do expediente. As consequências eram radicais para o corpo, mas fenomenais para a mente. Certas vezes deixei o café-teatro pelas três e tanto da madrugada para ir dormir num hotel onde eu residia por três dias a cada semana. Antes das sete horas já estava de pé de novo. Tomava duas ou três xícaras de café e saía cantando ou assobiando, quase que marchando, de tanta disposição para trabalhar. Ainda, é claro, sob efeito da magia da noite, logo estava em sala de aula, onde possivelmente ministrava algumas de minhas melhores e mais inspiradoras aulas ao discutir as obras de Blake, Dickinson, Hardy ou Shakespeare.
Não se pode subestimar o prazer estético e o poder espiritual dos eventos culturais do Café-Teatro Sagarana e do Aha Night, na barroca Mariana ou na velha New Bedford, duas cidades históricas da minha própria história de vida, assim como todos os outros eventos programados e incentivados pelas comunidades dentro e fora das universidades. Se duvidarem, perguntem a meus ex-alunos da UFOP, ou visitem New Bedford na segunda quinta-feira de cada mês.

Como dizia Hamlet a Horácio, “há mais coisas entre o céu e a terra do que podes sonhar na tua vã filosofia”. Muitas dessas descobrimos ao desligar a TV e o computador para ir conviver um pouco mais sob a descontração da noite e a magia das artes.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O Poeta da Paixão em Oxford



O Poeta da Paixão em Oxford

Dário Borim Jr.
dborim@umassd.edu 


Acabo de passar um fim de semana extraordinário. Afinal de contas, não é a qualquer momento da vida que podemos visitar uma das universidades mais famosas do mundo que, por coincidência (brincadeira, é claro), se situa numa das mais belas cidades pequenas do planeta, ambas, de mesmo nome: Oxford. Para mim, e para muitos de nós brasileiros, Oxford nos lembra Vinicius de Moraes, que lá viveu e estudou entre 1938 e 1940. Também por coincidência (mais outra brincadeira?) para lá fui com a missão de discutir a natureza da paixão na vida do poeta e músico carioca. O assunto é longo. Quem sabe escrevo um livro sobre ele. Enquanto o desejo permanece apenas em forma de miragem, aqui segue uma amostra, e não um resumo, do que falei a outros pesquisadores neste último sábado, exatamente (mais uma coincidência)  75 anos depois de Vinicius partir de navio para a Inglaterra, a 7 de setembro de 1938.
A paixão de Vinicius de Moraes pela vida, isto é, por certos elementos que dela mais valorizava, como a aventura romântica, a amizade, e a sexualidade, se via frustrada sob o sentimento de solidão, as restrições disciplinares, e o marasmo social, aspectos de seus anos em Oxford. Em carta a um ex-colega da faculdade direito no Rio, San Thiago Dantas, publicada em obra organizada por Ruy Castro, Querido Poeta: Correspondência de Vinicius de Moraes (Cia. dads Letras 2003), o jovem Vinicius tece metáforas para descrever aquela “vida sagrada, vagamente misteriosa e envolta em mantos de realeza” (68). “Tenho que essas são coisas íntimas,” admite,  e “vivê-las é como se despojar delas” (68). O que chama de tempo da inocência ele deixou para trás. Já teve muitas experiências que o impedem de “fantasiar mais minha vida em cap and gown e me ordenar sob outra lei que não seja a da minha liberdade instantânea” (68).
Oxford parece se constituir para ele numa Victorian lady, muito bela e muito casta. “A vontade que me dá,” arrisca-se a dizer, é traí-la, fazer molecagem como um bom brasileiro e representar personagem de aventura, mas já estou bem-educado demais para isso, e mesmo creio que não se deva ferir uma coisa tão exatamente bem-proporcionada como Oxford” (Querido Poeta 68).
Desenvolvendo uma colcha de metáforas e símiles,Vinicius argumenta que “Oxford é a carne inglesa” ou qualquer coisa “de monástico, de subterrâneo e submarino. Pode te dar tanto a impressão de um campo minado, como o de um convento, como o de uma mina de minério, como o de um aquário de belos peixes, essas coisas enfim que não querem dizer nada e cuja vida íntima não se sabe que razão têm, nem a que leis obedecem para se manter” (Querido Poeta 68). Outras imagens reforçam a mesma impressão do estéril e do anódino na famosa universidade: “Uma peça, um cisma, toda uma religião, mas nada de vivo: de lawrenciano, de rimbaudiano, de dostoievskiano, de shakespeariano ou quem mais você queira de fundamentalmente humano em si” (68).
Aos quase 25 anos o poeta pensa que a experiência de vida em Oxford o vá fazer envelhecer, “e é pena, mas por outro lado pode me fazer muito bem. Vejamos. Tenho medo dessa beleza fria, que mata em vez de fecundar. Tenho medo dessa arte de anjos, dessa arquitetura celeste, ao mesmo tempo eterna e impalpável. É tudo alto demais, inacessível” (Querido Poeta 69).
Em carta de janeiro de 1939 a um casal de amigos, o olhar poético de Vinicius não ignora, porém, a formosura do ambiente quando neva em Oxford: “É bonito de ver todas essas torres, todos esses edifícios de velhice escura, subitamente ficarem de cabeça branca” (Querido Poeta 83). Porém, em face à saudade e à sensação de displacement, exacerbada, é claro, pelos céus cinzentos e ares frios e úmidos da Inglaterra, o jovem carioca Vinicius de Moraes provavelmente ali embarcou numa viagem de paixão que, em termos práticos, o matou quatro décadas depois. Aquele quem desabafa “Ah, toda a minha poesia por um raio de sol, por um banho de mar em Copacabana!” (Querido Poeta 83), também se reposiciona: “vou vivendo aqui nessa velha cidade de gênios e de bêbados, me sentindo melhor com o contato dos segundos” (82). A solução para seus problemas em Oxford é aquela de natureza etílica: “Hoje à noite tem pileque, amanhã também. Santo estado alcoólico, tão ‘falsamente’ poético, mas tão camarada para o espírito da gente...” (84).
Evidentemente, pode-se dizer que Vinicius de Moraes viveu de paixão. Na verdade, de paixão também ele morreu, mas não foi de amores. Nesse ínterim, sua história serve para ilustrar a relação entre paixão e doença, de que trata Michel Foucault em História da Loucura na Idade Clássica (Perspectiva 1978) ao destacar a transformação pela qual passou a percepção da paixão, não mais como um fenômeno estético do ethos, como na Grécia antiga; ou moral, como nos tempos dos estóicos romanos; ou de pecado, como na Idade Média de São Tomás e Santo Agostinho; ou de insensatez animalesca, como na era do Iluminismo. Desde os meados do século XIX estuda-se diferentemente, então, aquele velho problema da paixão a partir dos anos do Positivismo e da gradativa superação das garras punitivas do poder religioso pelos bisturis higiênicos da medicina.
Vinicius era essencialmente um homem triste. Com medo da morte e com esperança de viver livre sob os auspícios do álcool, ele, durante muitos anos frequentou a Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro, para se recuperar dos danos daquela dependência servil, compulsiva, sem, porém, jamais querer perdê-la. Bebia consciente de que o álcool o mantinha dinâmico, alegre, produtivo, e o ao mesmo tempo o matava lentamente, trazendo-lhe o diabetes e a hidrocefalia. Bebia para que em torno dos amigos, dos amores e do uísque (o melhor amigo do homem, um cachorro engarrafado), não morresse de medo da solidão, pudesse mascarar a sua solidão, que o torturava quase que diariamente, e também o seu medo da morte, a única forma de solidão extrema, irredutível e totalizante, definida, em seu “Soneto da Fidelidade,” tão simples e tão pertinente a si mesmo como “fim de quem ama.”


quarta-feira, 24 de julho de 2013

Mundo bipolar

 
James Cotton, figura lendária do blues, em Newport, Rhode Island



Mundo bipolar

Dário Borim Jr.


Que esse mundaréu velho sem porteira é bipolar, todos sabem. Não é preciso diploma de psiquiatra não. Mas que sua esquizofrenia às vezes assusta, isso assusta sim. Vê se pode um negócio desses: minha amiga Rosa diz que em Londres o bicho tá pegando… pegando fogo! O mercúrio subiu até os 35 graus. Parece que os 35 graus na terra do novo príncipe esquentam mais que os 35 no Guaipava.  Deve ser a umidade, o ar abafado da capital londrina – sei lá!
Aliás, vocês sabiam que Guaipava tem uma comunidade na rede social Orkut? Ela se anuncia assim: “Você esta [sic] nesse momento na única comunidade destinada ao distrito de Guaipava em Paraguaçu/MG. Esta comunidade destina-se a todos q[ue] nasceram, moraram, passaram ou se sentem envolvidos com essa verdadeira comunidade”. Depois da expansão avassaladora do FaceBook, esse tal de Orkut ainda existe? Não importa. Não vim aqui pra especular sobre a vida ou a morte de nenhuma comunidade real ou virtual, mas, sim, comentar a esquizofrenia do planeta, principalmente nesses tempos de verão, no Hemisfério Norte, e de inverno, no Hemisfério Sul.  
O negócio é o seguinte: vive-se agora, aqui onde estou, a energia do sol, que traz tanta coisa boa para onde ele esquenta o baião. E por falar em baião, já faço meu tributo à arte maior do Nordeste e envio meu abraço especial para a família do fabuloso sanfoneiro, cantor e compositor José Domingos de Morais, a.k.a. Dominguinhos, que nasceu em Garanhuns, na região agreste de Pernambuco.  Aos 72 anos, Dominguinhos, o segundo Rei do Baião, faleceu hoje em São Paulo. Segundo ouvi da sua própria voz essa noite na TV, ele fora eleito e declarado “sucessor” do trono de Rei do Baião pelo próprio rei, Luiz Gonzaga. Nesta quinta-feira, o Brazilliance, meu programa de rádio e internet, fará homenagem ao músico que influenciou a milhares e encantou a milhões pessoas.
E é de música mesmo que vou encher o balaio dessa crônica veronil. Mas antes tenho que lembrar que enquanto o bicho pega em Londres, o frio fascina um monte de brasileiros que nunca viram neve. Em mais de 60 cidades, só em Santa Catarina, viram a coisa branca cair hoje. E o frio vem mesmo maltratando a muitos mais, do Rio Grande do Sul a Goiás, estado normalmente tão quente, mas onde vai gear essa noite.
Sim, gente: vai gear em Goiás! Esse mundo está muito louco – ou sou eu que perdi a estribeira do real? Então chegou o bendito frio civilizatório aos trópicos tupiniquins? Curiosamente, é neste inverno que os brasileiros estão pondo as manguinhas de fora e fazendo muita arruaça social e política, um inverno marcado pela massiva adesão do cidadão comum ao protesto coletivo por causas mais que justas, apesar de híper-caducas, tão antigas que se perdem de vista. Acorda, gigante, muitos dizem! É também o inverno em que surgiu com enorme força nefasta e destrutiva a categoria de “vândalo” – figura encapuçada e aparentemente paga para destruir e aterrorizar. Mas chega de papo de política, porque no momento quero enfatizar o efeito positivo do sol sobre a sociedade, o calor que permite e convida as pessoas a fazer e acontecer, principalmente no campo da música. 
Vocês devem saber ou imaginar que quando o inverno bravo assola as terras aqui mais próximas ao polo norte, pouco acontece em termos de eventos grandiosos. Porém, quando o sol começa a esquentar os ares em fins de maio, promovem-se, dia após dia, concertos memoráveis e grandes festivais de inúmeros gêneros musicais. Parece que toda a energia e todo o dindi ficam estocados no inverno para sair dos casulos e dos cofres nesses meses de se suar bicas e se beber cerveja aos baldes.
É fato que neste verão já vi e ouvi tanta gente boa tocar e cantar a minha frente que às vezes  até me esqueço de um ou de outro nome. Para mim a sequência de shows até agora (e ainda virão mais eventos, antes de acabar o oba-oba do calor no Hemisfério Norte) já incluiu Ana Carolina, Joan Baez, Bob Dylan, Claudia Smith, John Gorka, The Morning Jacket, Richard Thompson, Southside Johnny, e James Cotton, além das dezenas de bandas e cantores solos folk oriundos da Austrália, Canadá, Inglaterra, Irlanda, Escócia e Itália, músicos que estrelaram num belíssimo festival aqui mesmo, a 10 minutos da casa onde moro, ao sul de Massachusetts, na Nova Inglaterra.
O frenesi musical desta época do ano não é restrito a este país extremamente musical, os Estados Unidos. Na Europa os espetáculos estão rolando a rodo, e entre eles, imaginem, vem acontecendo os primeiros shows de uma banda de rock do Sul de Minas, The Dogs and the Fields, com dois rapazes de Três Pontas (Gabriel e Luis) nos teclados, guitarras e bateria, e  também um paraguaçuense, no baixo, Marco Antônio, neto de d. Walderez Prado Leite Mignacca. 

Às vezes penso no raro privilégio que é poder driblar a esquizofrenia do planeta e passar dois verões num mesmo ano. Para mim, este ano tem sido assim. Por conta de um semestre sabático, em que recebi vencimentos integrais para pesquisar, mas sem precisar ministrar qualquer curso, o professor universitário que escreve essas mal traçadas linhas pôde desfrutar do sol de dezembro, janeiro e fevereiro ao sul do Equador, e agora se deleita sob o calor efêmero, mas real, dessas praias do Hemisfério Norte. Porém, confesso: fico pensando nos brasileiros e fico com pena de quem sofre por não estar habituado ao frio intenso, frio que corta os lábios e os cantos dos dedos, e que, com a neve, pode estragar o humor geral (seria essa a causa de tanto mau humor nos Estados Unidos?). Também pode causar muitos transtornos e acidentes à gente a pé ou no volante. À distância, estou solidário, ma só posso desejar aos brasileiros um bom cobertor de orelha. Isso não trem preço, tanto ao sul como ao norte do Equador. 


segunda-feira, 3 de junho de 2013

Deus é brasileiro e... atleticano!




Deus é brasileiro… e atleticano!

Dário Borim Jr.
dborim@umassd.edu 

Muitas agências de notícia exploraram o mesmo tema. A BBC de Londres, por exemplo, deu, no dia 20 de março, que a presidente Dilma Rousseff “reagiu com bom humor” a uma pergunta de um jornalista argentino, quando ele questionara a opinião dela sobre o fato de o novo papa ter nascido em Buenos Aires. "Vocês, argentinos, têm muita sorte… o papa é argentino, mas Deus é brasileiro", assim argumentou a presidente em visita oficial ao Vaticano.
Outras notícias vindas mais recentemente de Belo Horizonte vão além. Deus não é apenas brasileiro: Deus é atleticano.  Na pequena paróquia de Nossa Senhora da Piedade, da comunidade de Piedade do Paraopeba, pertencente ao município de Brumadinho, o carismático  e genoroso padre Paulo Eustáquio Cerceau Ibrahim incorporou uma trilha sonora bem especial aos ritos sagrados da Festa do Divino: o hino do Galo! Sim, aquele mesmo, “Nós somos do Clube Atlético Mineiro/ Jogamos com muita raça e amor/ Vibramos com alegria nas vitórias/ Clube Atlético Mineiro/ Galo Forte Vingador”.
Bem, convenhamos, aquele é um hino muito especial. Segundo o site oficial do clube belorizontino, www.atletico.com.br, o primeiro hino da associação vigorou entre os anos de 1928 e 1968, mas em 1969 a diretoria atleticana encomendou ao compositor Vicente Motta o "Hino ao Clube Atlético Mineiro". Segundo a mesma fonte de informação, este hino é idolatrado pela torcida de tal modo que  se tornou o “mais cantado em estádios no Brasil”. Ainda de acordo com aquele portal, em 1976, em Nápolis, na Itália, houve um concurso mundial de hinos de clubes de futebol, e o do Galo foi o vencedor. Passou a ser considerado o mais belo entre todos os hinos de clubes de futebol do mundo.
Não sei se padre Paulo tem paixão especial pelo Hino do Galo, ou mesmo se outras vezes já pediu que a banda da paróquia o tocasse em pleno rito religioso.  O fato é que, João Batista Vaz Xavier, um grande amigo meu, estava presente à procissão. Filmou o “fenômeno religioso-esportivo” e postou o vídeo na maior rede social electrônica do planeta, o FaceBook. É também curioso que naquele mesmo domingo da Festa do Divino algo muito importante aconteceria no estádio do Mineirão, logo após a procissão:  a partida decisiva a consagrar o campeão do estado de Minas Gerais de 2013.
Antes, um verdadeiro banquete popular -- com arroz, feijão, frango assado, e muito mais -- foi servido aos fieis. Conforme explica Batista, o padre é uma espécie de Robin Hood por conseguir doações junto aos ricos e oferecer comida e outras dádivas materiais aos pobres daquela região montanhosa de Minas. Após a comilança, todos regressaram à igreja e assistiram à missa que, coincidentemente, ocorreu enquanto jogavam Atlético e Cruzeiro em Belo Horizonte.  Acabada a missa, disse-me Batista, o padre, ainda do púlpito, se despedia dos fieis quando recebeu um sinal do sacristão: um gesto muito conhecido, o polegar dizendo, “positivo”! Então padre Paulo não se acanhou, “Meus caros, por último uma notícia que acabo de receber: a taça é nossa!”
Esse “causo” mineiro eu ouvi, via Skype, na quarta-feira, dia 22 de maio, véspera de uma palestra que eu daria no Dartmouth College, uma bela e rica faculdade aqui nos Estados Unidos (do mesmo grupo da Harvard, a chamada ivy league). O “causo” me levou a pensar nas teorias do famoso antropólogo carioca Roberto DaMatta. Acabei iniciando minha comunicação naquela escola aludindo ao tal “fenômeno” de mistura entre religião e futebol. Todos nós rimos muito. O professor paulistano Rofolfo Franconi, presente a minha palestra, me perguntou: “e os cruzeirenses, como se sentiram na procissão, e ainda ‘pior’, na igreja?”
Nos seus trabalhos acadêmicos DaMatta enfatiza vários aspectos que apontam para as particularidades do povo brasileiro. Como explica o antropólogo no seu livro O que faz o brasil, Brasil?, o brasileiro vive em um mundo de misturas de todo tipo, inclusive a mescla daquilo que é individual com o institucional, religião com esporte, o publico com o privado, o sério com o  cômico.
A dúvida do meu colega tem fundamento. As estatísticas poderiam confirmar, mas é muito provável que muitos dos fãs do padre Paulo não torcessem para o Alvinegro. Eram fãs do Cruzeiro e, outros, do América. A ética profissional -- ou clerical, como queiram -- foi para onde, nesse caso? Esse “sutil” desrespeito à diferença, às margens do mundo atleticano,  teria alguma importância? Seria outra pitada de humor, como a da presidente no Vaticano? Seria apenas uma pequena e inefável loucura de um padre fanático? Ou seria um exemplo da enorme tolerância de quem não foi incluído na reza -- aliás, daqueles contra quem se fez a reza oficial?
Pois, assim, a paixão individual do padre de Piedade do Paraopeba não se separou do seu poder eclesiástico. Ela se incorporou no rito institucional que ele administrava, com fé e formalidade, e se fez valer, a revelia da anti-paixão de cruzeirenses e americanos. De modo semelhante, a presidente do Brasil fez galhofa da superioridade do povo brasileiro sobre o argentino. Afinal de contas, em termos de poder, a figura do papa está bem abaixo daquela de um Deus, mesmo que brasileiro. Principalmente quando um papa já disse que pecou muitas vezes e que os ateus também podem ascender aos céus.
Como vimos, para o deleite de muitos mineiros, tal Deus também é atleticano de carteirinha. Será que foi com ajuda divina que o goleiro atleticano Vítor Leandro Bagy defendeu um pênalti decisivo, nos últimos segundos de um jogo tão importante como o da Copa Libertores da América na quarta-feira passada? Apenas na manhã seguinte o heroi recebeu mais de 20 solicitações de entrevistas. “O Atlético não poderia ter saído da competição daquela forma. Foi também uma justiça de Deus pelo trabalho que estamos fazendo, por nossa postura”, disse o jogador ao jornal Estado de Minas.
Confirmando a tendência do brasileiro a mesclar o divino com o prosaico -- mundos da mesma moeda que, segundo DaMatta, “se relacionam de modo complexo e simultâneo” -- o goleiro ainda declarou ao mesmo jornal que após o jogo, ao chegar ao condomínio em que mora, viu uma faixa bem simples, no portão, que o tocou forte no coração: “Muito obrigado, São Victor”. Amém!