sábado, 23 de agosto de 2014

Arte e Missão: A Fotografia de Maier e Salgado



Arte e Missão: A Fotografia de Maier e Salgado

Dário Borim Jr.

Que atributo melhor nos destaca dentro do mundo animal? Será que somos mesmo os ditos “animais racionais” do  universo? Diógenes, aquele filósofo grego, estava certo? Não passamos de frangos depenados? O raciocínio, os sentimentos, e muitas outras características fazem parte tanto da vida dos cães, elefantes e pererecas, quanto da existência de lutadores de boxe, políticos e garis.
Um dos atributos que melhor nos separam dos outros tipos de animais acredito que seja a nossa relação com a arte: a capacidade para criar, evocar, representar e/ou transformar o mundo ou novos mundos que brotam de nossa imaginação, nossa necessidade de ir muito além das experiências banais, mas necessárias, como escovar os dentes e pentear os cabelos (quando ainda os temos), nos vestir ou despir pelo menos 730 vezes por ano, comer todo santo dia e quase todo santo dia ver que boa parte daquela comida gostosa estava apenas de passagem. Virou massa abominável. Invadiu os rios e oceanos.
Algum tempo atrás os tais animais racionais passaram a considerar a fotografia como forma de arte. Mais que justo, só que ela pode ser mais que isso! Recentemente mergulhei nas fascinantes histórias de dois fotógrafos cuja existência não seria a mesma se por acaso não tivessem descoberto e alimentado suas paixões e obsessões (desculpem a redundância) pela sua arte. Não há espaço aqui para ir fundo no que vejo de complexo e absolutamente fantástico na mente e no roteiro de vida de cada um. Tentarei apenas esboçar alguns contrastes e semelhanças.
Sebastião Salgado nasceu na pequena cidade de Aimorés, Minas Gerais, em 8 de fevereiro de 1944. Aos setenta anos de idade, é um dos fotógrafos vivos mais famosos de todo o mundo. Vivian Maier veio ao mundo no mesmo dia, mês e ano que minha mãe: 1o. de fevereiro de 1926. Era natural de Nova Iorque, filha de uma imigrante francesa nascida num pequenino vilarejo situado num vale dos Alpes. Maier jamais conheceu a fama em vida. Muito pelo contrário. Basicamente ninguém viu suas fotos. Nem ela! Logo após sua morte, em 21 de abril de 2009, seu enorme legado foi descoberto. Hoje ela é uma das mais celebradas fotógrafas de todos os tempos.
A vasta maioria da produção de Maier e Salgado é em branco e preto. Também há semelhanças temáticas. Embora retratem de tudo que existe na Terra, dedicam mais tempo a fotografar seres humanos, bem mais do que animais, plantas, e paisagens urbanas ou rurais. Em particular, compõem imagens de pessoas que vivem às margens do conforto material e da sensação de segurança de um lar. 
Ao trabalhar por mais de 40 anos como babá para famílias de classe media alta entre Chicago e Nova Iorque, Vivian Maier levava as crianças para passear nas periferias empobrecidas daquelas cidades. Extremamente discreta e solitária, era estranhamente viciada em coletar jornais e revistas nos seus aposentos, que sempre mantinha trancados. Sozinha ou acompanhada nas suas andanças, Maier capturava, com sua Rolleiflex, as ações e emoções de anônimos sem-tetos, desempregados, bêbados, loucos, trabalhadores braçais em inóspitas condições, crianças chorando, casais brigando, a imundice e a pobreza gritando calada que só quem gosta de pobreza é intelectual de esquerda.
Uma obscura missão levava Maier a fotografar freneticamente esse mundo, mesmo que ela mesma não pudesse vê-lo além do visor de sua câmera. Maier não revelou quase nada dos mais de 150 mil retratos que tirou. Talvez sua obsessão com o fotografar sugasse quase todo o seu salário na compra de novos rolos. Talvez não sobrasse dinheiro para o processamento dos seus milhares de cartuchos selados, um dia descobertos num depósito de aluguel. Em função do extraordinário talento e atual reconhecimento da obra de Vivian Maier, qualquer de seus retratos revelados em vida, do tamanho de um cartão postal, ou menor, não vale menos que 4 mil reais.
O enredo do outro protagonista desta crônica também nos surpreende. Há mais de 40 anos residindo em Paris, Sebastião Salgado foi criado por fazendeiros abastados do Vale do Rio Doce. Não seguiu o destino que talvez lhe fosse mais fácil: cuidar e expandir as posses de seus pais. Sensível aos disparates econômicos e políticos do Brasil dos anos 60, rebelou-se. Enquanto estudava economia na USP, foi membro de um grupo de resistência à ditadura, a Juventude Universitária Católica. Perseguido pelos militares, exilou-se em Paris, onde continuou a trabalhar para seu grupo e cursou doutorado na prestigiada Sorbonne.
Em 1970, aos 26 anos, Salgado comprou uma Pentax Spotmatic II, para ajudar Lélia, sua esposa, em seus trabalhos de estudante de arquitetura. Não entendiam nada de fotografia. Foi paixão instantânea. Sebastião e Lélia logo tecem um novo sonho: largar tudo, comprar uma velha Kombi, montar um laboratório fotográfico nela mesma, e sair trabalhando por toda a África. Antes de terminar sua tese, ele obteve um excelente emprego junto à Organização Mundial do Café. Transferiu-se para Londres, comprou um esplêndido carro, alugou um belo apartamento ao lado do Hyde Park, e passou a viajar de graça por todo o mundo. Não podia esperar algo melhor de um emprego, mas isso veio. Realizou gratificantes projetos comunitários de enorme desenvolvimento econômico e social em Ruanda, Burundi, Congo, Uganda e Quênia.
Salgado descobriu que de fato queria fazer muito mais pela humanidade, e que queria muito mais da vida, do que conforto e prestígio próprios. Seu trabalho independente como foto-jornalista já lhe dava confiança e lhe aguçava a imaginação. Resultado: largou tudo para trás para se tornar fotógrafo do mundo. Vendeu o que possuía e investiu em equipamento fotográfico de peso. O sucesso veio rápido, ao receber inúmeros prêmios e ser muito bem pago por agências de publicidade, organizações variadas, além de grandes revistas e jornais europeus. Já retratou mais de 120 países. Seus projetos são longos e sempre de muita relevância social. A cada um deles dedica entre seis e oito anos! Vai e vive com as pessoas que fotografa nos rincões mais remotos do planeta. Mundo afora, já fotografou, por exemplo, os trabalhadores que atuam em tarefas em extinção, por conta dos avanços da mecanização e da tecnologia (Trabalhadores); os milhões pessoas em fuga massiva ou morrendo de fome (Êxodos); e os habitantes desse planeta ainda a viver como se fazia a milênios atrás, como os nômades de Mali (Gênesis, atualmente em exposição em Belo Horizonte).
Para nós, os interessados nesses fenomenais artistas, não falta informação. Recentemente foi lançado um excelente documentário, Finding Vivian Maier, certamente disponível no Brasil em breve. Também recente é o maravilhoso livro de Sebastião Salgado, Da minha terra à Terra. A custo bem baixo, foi lançado em brochura pela ed. Paralela. Tudo isso é, para mim, uma profunda fonte de inspiração sobre como ver, viver, fotografar, ensinar e aprender.