sábado, 13 de dezembro de 2014

Camaleão



Biblioteca Claire T. Carney, Univ. de Massachusetts Dartmouth

Camaleão

Dário Borim Jr.

“Você consegue se safar da lei, apesar de cometer tantos assassinatos”, diz-me a Rosa Mignacca, uma querida amiga de infância que, em Londres, terra de Sherlock Homes, não passa de uma viciada em filmes policiais. Estou exagerando, sim, mas ela também. O negócio é o seguinte: aquilo é simplesmente uma expressão inglesa muito comum. Traduzi a frase meio que literalmente, por desconhecer uma boa versão em português para a acusação: “Darinho, you get away with murder!” Qual seria o meu crime, vocês devem estar matutando. Eu diria, não sei, são tantos. Brincadeira à parte, minha vítima da vez é sempre a mesma: a literatura! Como assim? E por quê? Bem, vamos dizer, é um crime de paixão e traição. Aparentemente, dizem, amo muito mais a música do que a literatura, a despeito do fato de que tenho um Ph.D. em Literatura Hispana e Luso-Brasileira, e de que ganho a vida como estudante de pós-graduação ou professor universitário nessa área do conhecimento há quase 30 anos.

Valéria Souza, minha ex-aluna desta região onde moro nos Estados Unidos, vira e mexe não resiste e me pergunta: o que você tem mais, livros ou CDs? Honestamente, não sei a resposta. Essa pergunta eu também faria a meu cunhado, Dr. José Codo, que possui milhares de discos e livros em casa. Só que ele, apesar de ser um médico famoso, não suja as mãos de sangue. Sujo eu, dizem as más línguas, ao ganhar a vida com uma coisa e amar e me ocupar da outra.

Recentemente recebi a visita de Jill Gallegos, uma queridíssima amiga do Wyoming. Sou bastante intuitivo e percebi que ela sentia uma certa tentação. Parecia que ela também queria me fazer aquela mesma pergunta. No espaço em que me ajeito para trabalhar, entre as duas longas paredes do meu escritório (que mais parece um estreito minicorredor das artes literárias e musicais), tenho um bom número de livros e outro um pouco menor de CDs – ou seria o contrário? Seja lá o que for, isso não quer dizer que o mesmo ocorra em minha casa, que aqui haja mais livros que CDs – mas, talvez…  

Não importa: o que vale mesmo é a verdade, apesar dessas acusações e especulações – essa… conspiração da esquerda. E qual é a verdade? É que para mim a música está bem mais presente no dia a dia do que a literatura. Outra verdade é que quando iniciei minha carreira como professor universitário, em Minnesota, dei um curso que mesclava as duas coisas. Era sobre a música de Caetano Veloso e a literatura de seu tempo. Então, desde o começo amo, convivo e mesclo essas duas formas de arte. De qual mais gosto varia com o tempo, quem sabe, mas, honestamente, já faz bem tempo que vence a música, com a qual me ocupo, me realizo, e, modestamente, me sobressaio como pessoa e como profissional.

Nessas últimas semanas, por exemplo, me deliciei ao fazer palestras em algumas universidades onde meu assunto foi sempre… música. A satisfação foi enorme ao conseguir que a entusiasta plateia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o famoso M.I.T., cantasse “O Samba da Minha Terra” – aquela composição sobre o samba da minha terra que deixa a gente mole, e tal – junto comigo e com Dorival Caymmi, também presente à tela, junto à letra da canção. Imaginem que na chique Universidade de Harvard fui falar sobre música… brega! Sim, brega, meus caros! E que noite divertida foi aquela, por conta das revelações pessoais e sexuais dos entrevistados pela carioca Ana Reaper, a diretora de um documentário imperdível, Vou Rifar Meu Coração.

Na sequência de muitos eventos musicais ou acadêmico-musicais, estou fechando a semana com chave de ouro. Há poucos dias assisti a um concerto de música asiática. A ilha de Java está muito bem representada na Universidade de Massachusetts Dartmouth por um grupo de uns vinte aprendizes. Elise Lindo e Casey Snook, duas de minhas melhores alunas de Português, fazem parte da banda que semana passada nos trouxe aquela música serena, quase nos levando a um nirvana entre paredes de concreto. 

Anteontem, após produzir e apresentar uma edição especial do Brazilliance, meu programa de rádio e internet, em que toquei três horas de Tom Jobim, fui prestigiar os dois curtas de Don Burton, um amigo cineasta, e lá recebi um convite irrecusável: ir assistir a um concerto de rock progressivo de Adrian Belew, um dos maiores nomes do gênero, o principal guitarrista do lendário grupo King Crimson. Após compartilhar tantas frases melódicas simplesmente maravilhosas de Jobim com meus ouvintes, eu agora ouvia e dançava assentado aos fantásticos sons de um virtuoso da música pop. Aos cinquenta e cinco anos de idade eu curtia um dos shows de rock mais fascinantes e divertidos de toda a minha vida. Acompanhado de Julie Slick, uma atenta e competente mulher de óculos escuros no baixo, e de Tobias Ralph, um puro e virtuoso capeta na bateria, Belew foi o roqueiro cantor-instrumentista mais alegre, brincalhão, criativo e simpático que já vi até hoje.

Ontem, a noite não foi nada menos impressionante e memorável. Fui a um concerto de final de ano, com duas sessões de dois corais diferentes: um fez-se acompanhar pelos solos de um pianista e um violinista; o outro se uniu a uma pequena banda de música africana. No mesmo evento, curtimos uma sessão de canções de Natal sob uma linguagem de jazz. Para concluir, subiu ao palco uma enorme banda de alunos do Departamento de Música que apresentou, entre outras composições, uma bela – e, para mim, brasileiro, também divertidíssima – versão de “Noite Feliz” (“Silent Night” em inglês), ao ritmo de samba, um clássico apropriadamente redenominado “Silent Samba.” Até cuíca e agogô estavam a roncar nas mãos dos gringos.

O evento não parou por ali. Ao som de mais música ao vivo, por parte de um coral de alunos e ex-alunos, serviu-se um elegante jantar (tinha até lagostas) aos presentes, que se deslocaram do teatro para a nossa linda biblioteca central. Agora embalados pelo vinho, outras pessoas me questionaram sobre minha verdadeira vocação. Uma delas, Adrian Tióo decano da Faculdade de Artes  Performáticas e Visuais, me perguntou, brincando, se eu não estaria disposto a oferecer cursos no Departamento de Música. Ainda mais gratificantes foram duas observações da própria reitora da Universidade, Divina Grossman. Ela não apenas me solicitou novas cópias dos CDs do Brazilliance, pois os que eu lhe dera meses atrás estavam cansados de tocar. Fã de minhas imagens postadas no FaceBook, ela também me perguntou quando seria minha primeira exposição fotográfica no campus.

Bem, naquele momento a minha chefe acariciou o meu ego, claro, mas aumentou minhas dúvidas sobre quem sou eu. Entrou na complicada equação de minha identidade e vocação uma terceira incógnita: sou de fato um fotógrafo? Não tem problema não. Aliás, tem mais complicação. Além de radialista, sou cronista, uai. E quem sabe ainda não descubro mais outras deliciosas máscaras – “getting away with murder” e vivendo feliz como camaleão?