sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Enchentes, falências e batucadas


Dário Borim Jr.
dborim@umassd.edu

Em um de seus mais engraçados e legendários sambas, “E o mundo não se acabou”, o irreverente Assis Valente (1911-1958) ironiza o medo do povo diante da suposta destruição do mundo. Carmen Miranda foi quem primeiro gravou essa canção em 1938, portanto há pouco mais de setenta anos. Nas mentes de milhões de pessoas, a aflição tinha surgido por conta da aproximação e possível colisão do cometa Halley com o planeta Terra. Assim escreve o cantor-compositor nascido sobre as areias quentes de uma praia baiana: “Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar / Por causa disto a minha gente lá em casa começou a rezar / Até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada / Por causa disto nesta noite lá no morro não se fez batucada”.

Nesse quase incrível fim de ano, não tem havido muita batucada na Terra do Tio Sam. Uma nova desgraça em pleno mês de setembro começou a furar e queimar os tesouros dos cofres eletrônicos de Wall Street—exatamente sete anos depois dos covardes ataques terroristas matarem milhares de inocentes de muitas nacionalidades e etnias. Desta vez houve uma implosão de bombas globalizadas e pós-modernas que vêm atingindo as bolsas de valores do mundo inteiro. Dão término a empregos e à paz de trabalhadores que nada têm com o que está acontecendo, a não ser as funções de “operários alienados” e consumidores de bens manufaturados.

Na verdade, a melhor metáfora para uma das causas primordiais desse pandemônio transnacional talvez seja a da bolha. Antes de arrebentar a bolha do mercado imobiliário foi crescendo e fazendo crescer a especulação financeira em plena era do dinheiro virtual, dinheiro que não existe enquanto cédula e que não corresponde às antigas barras de ouro. É dinheiro que percorre milhões de quilômetros em forma de bits informáticos por meio de cabos, internet sem fio e telas de computador antes de fabricar poucos bilionários e muitos subempregados ou desempregados. É dinheiro embalado em forma de títulos financeiros de investimento em ações virtuais de compra e venda daquilo que não existe fora dos circuitos eletrônicos de comércio.

Sem ligação com os homens ricos e poderosos, a voz (talvez de mulher) inventada por Assis Valente narra sua própria história fictícia, dramatizando suas reações nem um pouco desatinadas àquele anúncio apocalíptico: ela quer se divertir como nunca antes. Ela, na verdade, não quer perder uma oportunidade sequer nesse planeta antes que ele se torne um gigante cemitério: “Acreditei nessa conversa mole / Pensei que o mundo ia se acabar / E fui tratando de me despedir / E sem demora fui tratando de aproveitar / Beijei a boca de quem não devia / Peguei na mão de quem não conhecia / Dancei um samba em traje de maiô / E o tal do mundo não se acabou”.

Quem bom seria se por somente uns dias as pessoas pudessem pôr de lado seu medo e insatisfação diante desse mundo explosivo no Iraque; sangrento na Índia; nuclear no Paquistão; retirante, doente e esfomeado na África; alagado em Santa Catarina, e falido nos Estados Unidos! Por outro lado, vale também refletir sobre plausíveis reações diante de novos rumores apocalípticos. Seriam tantos os focos de apreensão no mundo atual que, de tão preponderantes, já não há nem mais espaço nas mentes para se temer o fim do mundo? A personagem de Assis Valente não se abateu. Muito pelo contrário: “Peguei um gajo com quem não me dava / E perdoei a sua ingratidão / E festejando o acontecimento / Gastei com ele mais de quinhentão.” Isso foi antes da persona saber do engano geral do povo, do falso final da vida na Terra. Era tarde. Já tinha jogado fora muito dinheiro e posto de lado qualquer inibição: “Agora soube que o gajo anda / Dizendo coisa que não se passou / Ih, vai ter barulho e vai ter confusão / Porque o mundo não se acabou”.

A questão é que mesmo diante dos barrancos caindo no Sul do Brasil e do número de bancarrotas subindo a cada momento nos Estados Unidos, não se teme o fim do mundo. Há, porém, grande receio de não podermos nem honrar nossas contas nem oferecer a nossos queridos o conforto que merecem. Apesar disso, sou contra o que se tem feito neste país, os Estados Unidos: o cancelamento de milhares de festas e recepções de fim de ano. O mundo não vai se acabar (e ninguém fala disso por enquanto), mas, quem sabe, uma boa batucada (ou sessão jazzística, como queiram) não seja a saída para essa dor geral diante dos barrancos deslizantes e das bancarrotas avassaladoras? A vida tem que continuar, e deixem o povo falar o que quiser. O que importa é valorizar o que temos—fé na vida e potencial para nos adaptarmos a novas vidas, se possível, ao som de uma cuíca de chorar intenso ou de um saxofone cantador de galo. Como diz Manoel Bandeira, “A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”

3 comentários:

djborim disse...

É isso aí Brother! Otimismo sempre apesar dos pesares!

Concordo com o texto do blog: o mundo não vai acabar! E se a gente deixar de fazer o que gosta e se sente feliz por causa das tristezas do mundo, aí é que estaremos mortos!!

Carla

djborim disse...

É isso aí Brother! Otimismo sempre apesar dos pesares!

Concordo com o texto do blog: o mundo não vai acabar! E se a gente deixar de fazer o que gosta e se sente feliz por causa das tristezas do mundo, aí é que estaremos mortos!!

Carla

Rose disse...

Mas acabar é relativo. Se não se tem condição de viver decentemente, dignamente, é o caso de pensar que o mundo acabou sim. Eu acho.

O que um sobrevivente de tragédia é? Um morto vivo. Ele morreu e se tiver sorte refaz a vida, mas, se não, aí é morto morto em vida. Um mulambo.

Saudações paraguaçuenses