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Nefasto desejo de fim de ano

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  Nefasto desejo de fim de ano   Dário Borim Jr. dborim@umassd.edu   Nesta quarta-feira em que um amigo muito especial já se encontra em outro plano de existência, acordei mais triste do que esperava estar. Quase uma semana depois de sua partida, tive, há poucos minutos, um desejo de fim de ano. Precisei escrevê-lo para compartilhar com alguém a minha angústia. Juro, não é uma questão de vingança. Desculpem a franqueza do que vou-lhes dizer! Hoje ainda é dia 30 de dezembro. Portanto, o ano de 2020 ainda não acabou. Mas, pelo que mais o marcará na história da humanidade, o drama desses terríveis meses não vai acabar com a passagem do ano. Eu tenho certeza disso, e muitos de vocês também, por vários motivos, mas mesmo assim já tenho um desejo para a entrada do ano novo, sempre tão comemorada por muitas e diversas culturas mundo afora e muitas vezes tomada como momento para pedir benesses e redenções pessoais. Muitas comemorações desse ano, claro, vão ser, infeliz mas inevitavelme

Aproximações de Clarice Lispector

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Aproximações de Clarice Lispector: Um depoimento à Fundação Joaquim Nabuco   Clarice Lispector Luta sangrenta pela paz, 20/maio/1975 Óleo sobre madeira (Acervo Fund. Casa de Rui Barbosa) Minhas conexões com a obra de Clarice Lispector se iniciaram na adolescência, quando, poucos anos antes de ela falecer, decifrei e me deleitei com alguns dos enigmas de  Perto do coração selvagem . Na época eu lia, sem saber, vários dos títulos que a tinham influenciado profundamente naquela mesma fase instável de formação, que Clarice passou entre o Recife (de onde saiu aos 15 anos) e o Rio de Janeiro (onde floresceu como escritora). Eu mesmo me mudara, também aos 15 anos, de Paraguaçu (cidadezinha no Sul de Minas), para Belo Horizonte (a moderna capital dos mineiros). Absorvemos, os dois, ela nos anos 30, e eu nos 70, um bom número em comum de narrativas inesquecíveis, como  Crime e castigo , de Mikhail Dostoiévski, e  Siddhartha , de Herman Hesse. Clarice, que essa semana completaria 100 anos,

Novos amigos

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  Novos amigos Dário Borim Jr. dborim@umassd.edu Ontem apanhei meu guarda-chuva verde e saí pra dar uma voltinha pela vila onde moro, aqui ao sul de Massachusetts. Fui tirar umas fotos das folhas do outono que se esconde aos poucos, a maioria embelezando em última instância o chão onde caíram. Foi minha maneira de homenageá-las e guardá-las para apreciação por pelo menos mais uns dias (possivelmente por alguns anos), pois o vento, as vassouras e os aspiradores elétricos não as iam deixar durar mais que poucos dias. Fico com a mesma impressão que talvez tivesse Claude Monet cento e pouco anos passados. Precisamos captar esse brilho e nos iluminarmos a alma. Este ano de 2020, mais do que nunca, quero ir ver as cores, as formas e os movimentos fora de casa, onde basicamente trabalho, como e durmo! Talvez essa fome de viver mais e melhor ocorra porque esteja eu, como quase nós todos, um tanto mais sensível. Sem oportunidade para ver meus amigos, ou me divertir como antes da pandemia, o q

Justiceiros do Mal em Nome do Bem

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  Dário Borim Jr. dborim@umassd.edu    Há poucos minutos eu ainda oscilava entre escrever estas linhas em inglês ou português. Até me veio uma ideia esdrúxula: que tal compor uma sentença inteira em uma língua e, imediatamente, sua versão na outra? Eu teria uma crônica para cada um de dois públicos. Nunca soube de nenhum poeta que tivesse feito algo assim. Não serei eu um pioneiro dessa verve bilíngue em prosa. A origem da dúvida é a de que neste outono eu leciono dois cursos que me inspiram a refletir bem além do meu normal. Um deles, na graduação, é todo ministrado em inglês: “Gênero e Sociedade no Cinema Brasileiro”. O outro, na pós-graduação, é um seminário que dou em português: “A Crônica Brasileira”. Ambas as turmas me provocam a pensar de um modo livre, criativo e emocional, tanto nas aulas à distância, via Zoom, como nas tantas vezes que depois, sozinho, sigo por aí, pensando com os meus botões. No curso em inglês, vimos semanas atrás o documentário  Waste Land , sobre o be

Podres e Poderes em Tempos de Pandemia

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Dário Borim Jr.  dborim@umassd.edu   Até ontem, dia 5 de julho de 2020, diz a Universidade Johns Hopkins , havia pouco mais de 11 milhões e trezentos mil casos confirmados de COVID -19 pelo mundo afora. Já foram bem mais de meio milhão de mortos depois de passado apenas meio ano, afirma a mesma instituição de inquestionável renome ético e científico. Para mim, é, ao mesmo tempo, aterrecedor e misterioso como que para muitas pessoas tais dados não importam, pois, elas dizem por aí, “a maioria dos casos da doença é coisa passageira” ou “a pandemia é histeria da mídia sensacionalista e mentirosa”. Que cataclismo ou mesmo que tragédia quase apocalíptica já teríamos vivido, se mais chefes de estado pensassem assim tão levianamente, como o fazem os dois arrogantes, insensíveis e maquiavélicos idiotas que, por “coincidência apenas” (desculpem a ironia), fazem de tudo, igual e simultaneamente, para promover seus egos e incentivar as suas reeleições ao seduzir seus alienados apo

Teaching and Learning from a Pandemic

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Teaching and Learning from a Pandemic Dário Borim Jr dborim@umassd.edu  The spring semester of 2020 will indelibly remain in the minds of all people who have worked and /or lived at our school for that period. Their family and friends may also have stored very grave memories. When I think of my experiences while teaching in that semester, I recall most of all the abrupt transition from seeing and enjoying my students’ presence in the classroom to a pool of doubt whether they would weather the drastic changes in how we all interacted and, particularly, in how they would continue to learn from me and from each other. For me, that transition proved to be much less a matter of pedagogy than a question of numberless challenges in my students’ personal and private lives. As an immigrant here in southeastern Massachusetts with a son living in Morocco and, most of my extended family, in Brazil, I have been,  for several years, quite  used to talking over a computer screen an

Ai, Jesus! (Uma crônica-sacrilégio)

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Ai, Jesus! (Uma crônica-sacrilégio) A imagem icônica e majestosa de Jesus Cristo o Redentor de braços abertos sobre a Baía da Guanabara anoiteceu vestindo um uniforme rubro-negro, menos de uma semana atrás. O reconhecimento celestial de uma glória assaz mundana não foi por acaso. Por conta do que de mágico anda acontecendo em campos de futebol do Brasil e Peru, aqui vai um “causo” sobre a questão, como dizemos em Minas. É uma piada da vida real que nasceu inspirada pelo que ouvi ontem de um amigo português, o Francis Mendes. Ele deve ser parente em algum braço da minha multiétnica árvore genealógica! Seria ele um descendente de novos-cristãos? Quem sabe um ex-judeu, supostamente como nós mesmos, netos do saudoso Adolpho Mendes? O Francis me disse que um canal de TV de Portugal estava colhendo alguns louros nacionalistas por conta do gigantesco sucesso do técnico lusitano Jorge Jesus, do Flamengo, equipe de futebol do Rio de Janeiro. O Mengo, apelido carinhoso do time con