Prazeres, Riscos e Danos:
Meu Corpo Daria Mais que Uma Crônica
Filme # 1:
Corpos Sociopolíticos

Aos quase 65 anos, eu sou um homem velho demais para
ainda pensar que sou jovem, e jovem demais para já me sentir totalmente
“idoso”. Sem qualquer pretensão de me ver entre os famosos, eu componho essa
abertura pensando em um memorável romance de 1864: Notas do Subsolo,
de um autor clássico, um favorito de minha adolescência: Fiódor Dostoiévski.
Pobre e deprimido, o narrador anônimo de 40 anos mora na periferia de São
Petersburgo. Está amargurado e ressentido, mas podemos perceber o humor irônico
e satírico a partir do início da narrativa. Declara: “Sou um homem
doente.... Sou um homem mau. Sou um homem nada atraente. Acho que tenho um
problema no fígado: ele dói. Mas não entendo patavina da minha doença, nem sei
o quê na verdade me machuca por dentro”. O narrador de Dostoiévski não vai
economizar cinismo e vingança nos seus argumentos existencialistas. Faz crítica
ferrenha às vaidades e contradições da sociedade progressivamente moderna na
Rússia daqueles meados do século XIX, mas sobre si mesmo acha natural e
necessário o prevalente declínio de suas capacidades físicas e mentais.

Também desconcertantes conflitos interiores em ambos
os planos, corpóreo e emocional (além de uma dramatização dos podres de uma
sociedade machista e homofóbica no Brasil dos anos 1970-80), são os temas
centrais de outra obra literária de conteúdo e título que me inspiram a
escrever esta crônica. Quatro décadas atrás, isto é, 120 anos após o lançamento
de Notas do Subsolo, o escritor/ativista/político mineiro Herbert
Daniel publicava Meu Corpo Daria um Romance, obra que estudei na
minha tese de doutorado sobre autobiografias, defendida em março de 1997 na
Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos.
Uma
seção do livro de Daniel é dividida em 11 segmentos. Cada um toma o nome de uma
parte ou sistema do corpo humano. Cada segmento refere-se a um minuto de uma
experiência traumática de onze minutos pela qual passou o narrador-protagonista
no Rio de Janeiro. Ele é humilhado e ofendido por um grupo de jovens num ônibus
em Copacabana. Dois deles, membros/simpatizantes do Partido dos Trabalhadores,
usam uma camiseta que honra a SOLIDARNOSC, o partido polonês SOLIDARIEDADE.
Além de impelir o narrador-protagonista a refletir e relatar a complexa
evolução da sua própria sexualidade não convencional, o incidente no ônibus
também o leva a desenvolver uma proposição teórica sobre o corpo humano como
ponto de tensão psicológica e política.
Filme # 2:
Corpo em Salto Leviano

Outra
obra de destaque no cenário da literatura memorialista brasileira do mesmo
período também é voltada para os martírios do corpo. Feliz Ano Velho, do
estudante de engenharia florestal e guitarrista Marcelo Rubens Paiva, foi
lançado em 1982 com imediato e estrondoso sucesso de vendas. De tom quase
sempre informal e humorístico, apesar da trama se desdobrar fatídica e
emotiva, o livro foi logo adaptado para o cinema, e também para o teatro
(várias vezes, aliás). A composição do texto memorialista ao mesmo tempo relata
e se segue logo ao gravíssimo acidente que o escritor sofreu aos 20 anos, em
dezembro de 1979.
Sem
perceber, e, certamente sem as melhores condições para avaliar os riscos, o
universitário (da mesma idade que eu) pulou de cabeça, bêbado, de uma pedra,
mas as águas eram muito rasas, de apenas meio-metro de profundidade. Bateu,
violentamente, o pescoço no fundo do lago. Perto da cidade de Campinas, ali Paiva
e vários amigos bebiam muito e fumavam muita maconha em plena alegria de uma
confraternização de fim de ano escolar. Foi também o fim da integridade física
do autor em meio a um estilo de vida típico da época, as quatro décadas de 1960
a 1990: extravagância e indulgência sem limites nos prazeres do sexo, drogas e
rock’n’roll. A partir de então Paiva ficaria para sempre paralítico por conta
de uma vértebra quebrada, a quinta cervical comprimindo a medula.
Quando
estava debaixo d’água, tentando boiar para que amigos o salvassem, escreve
Paiva, “não mexia os braços nem as pernas, somente via a água barrenta e ouvia:
biiiiiin” (9). Pensou na morte, com estranhas lucidez e atividade cognitiva: “a
cabeça estava a mil por hora” (9). Apesar de não se ver mais como o dono do seu
corpo, pois já não mexia qualquer membro abaixo do pescoço e nem tinha qualquer
dor, pensou: “Como é que vai ser? Vou engolir muita água? Será que vai vir uma
caveira com uma foice na mão?” (9). A morte de fato tinha surgido tragicamente
na sua família várias vezes nos dois anos anteriores. Além de três tios, dois
avós e uma prima, ele também perdera seu pai, Rubens Beyrodt Paiva, um ex-deputado
federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro preso, torturado e executado em
1971 pela polícia da ditadura militar.
Ao
concluir seu livro de estreia, em dezembro de 1980 (portanto, um ano após o
acidente em Campinas), Paiva compreende que os anos por vir eram “uma
quantidade infinita de incertezas” (231). Cadeirante, questiona como vai estar
fisicamente no futuro e como vai ganhar a vida. Uma coisa afirma
categoricamente: não está “a fim de passar nenhuma lição” e nem quer que as
pessoas o encarem como “um rapaz que apesar de tudo transmite muita força”,
pois não se faz de “modelo pra nada”. De modo humilde, mas equivocado, ele
próprio talvez não tenha aprendido uma dificílima lição para a vasta maioria
dos jovens: nossas escolhas têm consequências e essas podem muito bem ser
seriamente adversas e mudar o rumo de nossa existência, ou mesmo terminá-la,
numa fração de segundo.
Paiva
declara que não é herói, que é apenas uma “vítima do destino, dentre milhões de
destinos que nós não escolhemos. Aconteceu comigo. Injustamente, mas aconteceu”
(231). Acredito que injusta foi a morte de seu pai, que foi punido
tão somente pelas suas ideias políticas sob as garras da
ditadura militar, uma enorme perda para um rapazinho de 12 anos que
posteriormente pode estar relacionada com o uso excessivo de bebidas e drogas
de um adolescente rebelde e extravagante. Acidentes podem ser de diversos tipos
e graus de gravidade, claro, mas uma clave que indiscutivelmente os distingue é
aquela que diz respeito à nossa, digamos, pequena ou grande contribuição para
que ocorram. Se ao momento em que nos acidentamos, temos nossas consciências
alteradas por substâncias como álcool e entorpecentes, por exemplo, e
conduzimos um automóvel a 160 km/hora, será que podemos considerar “injusta”
qualquer fatalidade que advenha desse comportamento
Paiva
se tornou um renomado apresentador de programas televisivos e escritor de
muitos romances e diretor de peças teatrais. De fato, foi logo após o seu
acidente que ele encontrou na literatura uma forte aliada para muitos e imensos
desafios, entre eles as armadilhas da auto-piedade, as limitações da
sexualidade para um quadroplégico, e as dores da fisioterapia que o permitiria
readquirir certas capacidades físicas. Infelizmente, porém, talvez tenha
escrito sua famosa obra muito precocemente, antes de conseguir ver por outro
prisma aquela decantada “injustiça”.
Filme # 3:
Corpo em Choque Avassalador

Um
terrível acidente também marcou e alterou para sempre a vida de outra pessoa
naquela mesma época, o fim do século XX. Esse é o tema da autobiografia Pressinto
os Anjos que me Perseguem. O que aconteceu com a poeta e romancista Helena
Jobim, irmã do músico Tom Jobim, foi, entretanto, um caso de característica
oposta àquele do acidente de Paiva, pois nem ela, enquanto passageira, e muito
menos a sua amiga Leila, quem cuidadosamente conduzia o carro que descia a
estrada extremamente sinuosa entre Teresópolis e o Rio de Janeiro, contribuiu
em nada para a narrada tragédia que ocorreu em 1992. Numa curva acentuada elas
foram atingidas por outro carro. A atitude da romancista, que inicia a sua
narrativa logo após o acidente, aos 61 anos de idade, difere-se muita daquela
de Paiva, de 21: “Eu tive sorte, muita sorte, me disseram. Nem minha cabeça,
nem minha coluna foram atingidas. Sorte. Dezessete fraturas, o baço perdido, o
choque hemorrágico. O fígado e o intestino feridos. Os pulmões perfurados pelas
costelas quebradas” (72).
Como
Paiva, Jobim também se questiona muitas vezes por que aquele martírio recaíra
sobre ela, mas outra significativa desigualdade entre as mensagens de Jobim e
Paiva é que a autora se faz explicita no duplo propósito de sua escrita: “o
primeiro foi alertar os jovens sobre os perigos de uma estrada, de como o corpo
é frágil diante das máquinas, e de como é terrível a dor e a limitação da
liberdade” (11). O segundo foi mostrar, contando essa experiência que viveu, que
“há mais coisas entre o Céu e a Terra do que sonha nossa vã filosofia” (11).
Aproximadamente dois meses antes do seu acidente, Jobim confessou ao marido que
a morte a estava rondando. Com carinho, ele procurou acalmá-la: “Nossa vida
está correndo tranquila. Não vejo nada que possa levar você a pensar isso”
(30). Ela então respondeu: “Não é que eu pensei. Estou sentindo”. Com o passar
das semanas, foi “cada vez mais intensa a sensação e, se me
perguntassem como era sentir a presença da morte, eu não saberia explicar”
(31). Os espaços entre essas premonições foram se aproximando, explica Jobim, e
um “abismo” acompanhava seus passos. “De noite tinha pesadelos com cidades e
ruas desconhecidas e sem luz, por onde vagava perdida” (31).
Aquelas
semanas de sonhos, sentimentos e mistérios desconcertantes a levariam a uma
epifania, traduzida em linguagem poética e intimista. Certa tarde, fazendo
compras, ela passou pela praça da sua infância em Ipanema. “Atraída pelas
sombras que desciam das copas das árvores e iam se tornando mais densas com a
chegada da noite”, sentou-se num banco (31). De repente, “olhando o contorno da
igreja que contrastava contra o céu roxo, despertei. Afastaram-se brumas,
névoas esgarçaram-se na mão de um vento desconhecido” (31). Apoderou-se de uma
perspectiva existencialista. Lembrou-se “do tempo perdido em desencontros,
enganos, jogado fora. Gavetas e pastas abarrotadas de trabalhos inacabados.
Adiamentos, falhas, desculpas” (31). Sentada ali naquele banco de praça, “a
noite caindo rápida, as luzes das ruas começando a brilhar, pareceu-me natural
falar com Deus. Pedi mais tempo de vida. Nenhum dia mais, prometi, seria
desperdiçado” (31).
Filme # 4:
Dramas Precoces
Bebê-Bola
Felizmente ainda não tenho histórias de tanto
sofrimento individual e/ou de conflito sócio-histórico como os narradores de
Dostoiévski, Daniel, Paiva ou Jobim. Como ela e eles, porém, tenho algo a
relembrar, redescobrir e expor sobre a existência desse corpo onde reside meu
espírito, ou minha alma, ou sei lá o que existe dentro dessa carcaça que um dia
já foi forte e saudável. Partes dela se enfraqueceram e perderam o ritmo.
Outras se quebraram e jamais serão as mesmas. Pior ainda, outras partes caíram,
e o vento as levou, como quase todos os cabelos castanhos e encaracolados que habitavam
o topo da minha cabeça. Sobraram uns resquícios laterais e posteriores, é
verdade. Tudo isso, vocês dirão, é normal. Concordo plenamente. Só não é
“normal” dar tanto trabalho ao Anjo da Guarda para que me ajudasse a manter
esta máquina humana funcionando, apesar dos pesares que hoje me assolam e me
instigam a escrever uma crônica fadada a ser muito mais longa que uma crônica
convencional.
Sem
culpar ninguém – aliás, muito pelo contrário – os problemas do meu corpo
provavelmente se iniciaram antes de eu dar meu primeiro choro na madrugada de
18 de setembro, 1959. Apenas seis meses após nascer o meu irmão, José Carlos,
15 meses mais velho do que eu, dona Lucci e seu Dário me encomendaram (ou,
provavelmente, enviaram um e-mail ao Senhor Deus sem o perceber). O problema
não foi exatamente essa agenda apertada. É que durante essa aquela gravidez, minha mãe teve problemas de saúde e precisou
de muito remédio enquanto esperava o próximo nenê. Quando nasci, tinha
absorvido um tanto dos medicamentos, e parecia mais uma bola de vôlei do que um
bebê saudável, o que de fato eu era, graças a Deus (e ao meu Anjo da Guardo,
claro!).
O
bebê-bola teria muitos desafios pela frente, como me proponho a discutir aqui,
e eles começaram bem cedo, uns dois anos depois da sobrecarga medicinal dos
tempos uterinos. Foi um pequeno susto que passou realmente sem deixar sequelas.
Mas que abalo foi aquele, e que providência angelina me salvou! Na praça
Oswaldo Costa, de Paraguaçu, sul de Minas, a minha querida tia-avó, a ilustre
Sra. Noêmia Prado, passeava comigo. E não é que consegui fugir dela e cair no
lago da praça? Ainda bem que um bom goleiro (um dos melhores que a cidade já
viu) estava batendo papo furado com amigos ali por perto, no coreto da praça.
Ao ouvir os pedidos de socorro de minha tia, o jovem e atlético Carlos
Taglialegna saiu correndo, meio desembestado. Conseguiu pular na água para me
retirar antes que eu tivesse bebido muita água.
Poucos
anos se passaram. O bebê-bola já não era mais nem bebê, nem arredondado. Fazia
travessuras como era normal para a idade, e foi assim que resolveu brincar
subindo em uma pilha de rolos de arame farpado deixados no passeio em frente à
nossa casa, junto a Cooperativa Agropecuária de Paraguaçu. Um dos rolos se
desprendeu e derrubou o rapazinho de aproximadamente três anos, cravando-lhe
umas três ou quatro feridas profundas nos braços. Uma delas deixou uma cicatriz
circular que até hoje, mais que 60 anos passados, ainda me acompanha na parte
superior do antebraço direito.
Outra
marca de acidente que permanece comigo há muitas décadas (quase seis) é minha
surdez parcial no ouvido direito, uns 25%, me disse um médico vários anos
atrás. Já deve ter piorado! Dessa vez o acidente criou mais um sério risco de
morte. Um amigo de infância, o Romeu Cosenza, me chamou para ver um filme pelo
lado oposto da tela de cinema. Entramos pela porta dos fundos do lendário
Cine-Teatro Íris, situado na mesma praça Oswaldo Costa. Estava bastante
escuro no interior do prédio, que, aliás, foi edificado pelo meu avô paterno, o
construtor ítalo-brasileiro Virgílio Borim. Infelizmente, não havia
nenhum protetor, uma mureta ou grade, por exemplo, que impedisse uma pessoa de
cair para o piso inferior, onde havia os camarins.
Não
vi, pois, o que me esperava. Pisei em falso. Minha cabeça de menino de seis
anos e pouco se projetou para frente e para baixo, como o ponteiro das horas de
um relógio passa do meio-dia às três da tarde, e a bati forte no piso
acimentado dois metros abaixo. Por sorte não houve hemorragia interna, o que
poderia ter me matado ou me deixado paraplégico. Houve, porém, graves danos. O
choque violento no lado direito da minha cabeça fraturou o osso temporal, o
chamado “rochedo”, que protege os ouvidos médio e interno, atrás da orelha. Com
isso o nervo facial foi atingido e me provocou paralisia facial. Minha boca foi
puxada para trás, até perto da orelha do mesmo lado direito. Cruelmente chamado
de Boca-Torta pelos “amiguinhos” na escola, eu fui protegido pelos meus pais,
que acharam melhor retirar todos os espelhos da casa.
Jamais
vou esquecer o amor e a dedicação de meus pais nesse momento tão difícil. Seu
Dário deixou de lado a Casa Dois Irmãos, da qual era co-proprietário com o saudoso
irmão, Delmo. O ocupadíssimo comerciante foi passar um mês inteiro comigo em
Belo Horizonte, capital do estado, onde fiz um rigoroso e penoso tratamento no
hospital Arapiara. Três vezes por semana eu tomava choques elétricos no rosto,
além de receber massagens com movimentos bruscos, intensos, de panos
extremamente quentes apertando a face direita.
Fiquei
bom, quase perfeito, em seis meses. Minha mãe havia feito uma promessa a Nossa
Senhora. Se eu me recuperasse, ela faria um almoço bem especial a cada semana,
por vários meses, para eu levar e oferecer às pessoas encarceradas em
Paraguaçu. A delegacia, na época, ficava bem próxima à nossa casa. Durante os
cinco ou seis anos seguintes, minha mãe ainda teve muito medo de que eu
sofresse algum choque na cabeça, jogando futebol, por exemplo, e voltasse a
sofrer da paralisia facial. Mas nada disso ocorreu. Nesse período eu me
comportei bem, e assim dei um descanso temporário ao meu Anjo da Guarda.
Filme # 5:
Arriscadas Aborrecências
Beto Guedes, Tatau, Squida, Tilado e eu, em 1977Com a chegada da adolescência, os meus abusos
voltaram. Eu pouco me importava se minha bicicleta Caloi cor marrom, marcha
única, tinha freios. Eu usava o meu par de tênis para reduzir a velocidade – só
quando era necessário, mesmo, porque eu adorava correr e correr muito. Certa
vez inventei de fazer um “pega” com um amigo passando num Volkswagen em torno
da mesma praça Oswaldo Costa, palco de tantas peripécias da juventude
paraguaçuense. Consegui ultrapassar o carro, mas a esquina da casa do Sr.
João Leite me apareceu rápido demais. Perdi o controle na curva e subi no
passeio, onde o meio-fio me jogou alguns metros para frente, sobre os antigos
paralelepípedos. Tive escoriações dolorosas, mas nada de grave aconteceu com a
minha cabeça.
Nessa
época, ainda mais uma vez eu teria exagerado na velocidade naquela praça. Dessa
vez foi morro abaixo. Era sábado de Carnaval. Pela tarde, o famoso Bar do
Vatinho estava repleto de futuros foliões quando descia a rua, em frente à
Igreja Matriz, um rapaz na sua Caloi sem freios. Bem na esquina, quase em
frente ao bar, ele viu que precisava reduzir a velocidade. Já foi tarde. O pé
direito cravou pressão na roda traseira, e esta se arrastou pela força
exagerada do freio nos paralelepípedos empoeirados. Foi receita e realização de
mais um desastre, claro. Novamente o Anjo da Guarda me deu a mão. Tive apenas
alguns arranhões nas pernas e nos braços.
Por
aqueles anos, o final da década de 1970, a força da minha juventude era
indiscutível, assim como era a de meu irmão. Vivíamos a idade de quem pensa que
nós jovens somos imbatíveis, que coisas ruins acontecem é com as outras
pessoas, não com a gente. Essa era uma atitude que também fomentava rivalidade
entre nós dois ao fim de nossas adolescências. Um momento marcante dessa
relação tão comum entre irmãos foi numa tarde em quê, na capital mineira, onde
morávamos, fomos ao BH Shopping Center. Tínhamos perto de 19 anos. Vimos uma
máquina onde se mediam as forças dos braços e das pernas. Tatau, o apelido de
meu irmão, me desafiou. Ele então deu um murro numa bola de couro em forma de
uma gigante gota d’água. O ponteiro do medidor foi às alturas, quase ao seu
limite. Quando foi a minha vez, dei o meu melhor, mas não cheguei nem
perto da marca deixada pelo mano pouco mais velho. Bem, quando foi a hora de chutar
a outra bola de couro da mesma máquina, ele mais uma vez foi primeiro e atingiu
uma marca altíssima, como antes. Quando chegou a minha vez, me preparei
psicologicamente melhor, com mais confiança e determinação. Fui com tanta sede
ao pote que meu chute, de tão poderoso, quebrou a máquina. Ficamos, assim,
quites e felizes com nossas performances.
A
minha adolescência estava, pelo menos no calendário, chegando ao fim. Mas ainda
haveria mais drama antes do início da terceira década de vida. Depois daqueles
tombos de bicicleta (e outros tombos menos ridículos), chegou a era da
motocicleta. Lembro-me de quando, ainda aos 19 anos, perfeitamente sóbrio, eu
corria excessivamente na minha Honda 125cc (também marrom) em uma estrada de
terra. O amigo Henrique Carneiro Prado seguia na garupa. Foi quando apareceu
pela frente uma parte da estrada tomada por muito pó acumulado nos tempos de
seca e, no nosso caminho, uma pedra de uns 20x10 cm, meio que encoberta. Não
houve tempo para mais nada, a não ser eu gritar para o Henrique: “Segura, cara,
porque que vamos voar”. Não sei como explicar, mas saímos quase ilesos.
Num
próximo episódio de moto, poucos meses depois, não tive tanta sorte. Ou,
talvez, deva dizer que tive sorte, sim, por ter sobrevivido. Como anteriormente,
eu estava totalmente sóbrio sobre a minha “magrela”, a minha humilde Honda 125,
ao subir a avenida Bias Fortes rumo à Praça da Liberdade, em Belo Horizonte,
abaixei os olhos para verificar as condições da pista. Quando levantei o rosto,
dois carros tinham acabado de parar no sinal amarelo, luz que tinha acabado de
aparecer. Eu não tinha como brecar a minha moto. A solução foi tentar passar
entre os dois carros paralelos à minha frente. Para isso precisei abrir a perna
esquerda para manter o equilíbrio. Abri demais, e meu joelho esquerdo se chocou
contra o farol traseiro direito do carro à minha esquerda. Resultado: um belo
voo sobre os dois carros e uma fratura no alto do tíbia. Dessa vez a cabeça
tomou um bom tapa no asfalto, mas eu usava capacete, que escapuliu e saiu
pipocando pela avenida. Durante 15 minutos não senti dor nenhuma, e quando
passou um motoqueiro desconhecido, mas generoso, pedi encarecidamente que me
levasse para o hospital. Concordou e seguimos para o João XXIII.
Foram
dois meses de gesso, do calcanhar à virilha, mas fiquei curado, sem sequelas,
exceto a dor a cada inverno nos seis ou sete anos seguintes. Antes disso, tive
que ir de muletas regularmente à faculdade bem distante (a Escola de Engenharia
Kennedy) em ônibus apertado. Valeu a primeira lição sobre o que passam as
pessoas com deficiências físicas, e como o mundo não está preparado para elas.
Eu mesmo fui muito rebelde diante dessa realidade. Abusei da velocidade sobre
muletas e caí algumas vezes. “Eh, Darinho!” – meu superego às vezes
ralhava. Rebeldia maior ainda foi aquela diante do enorme e pesado
gesso que me dava tanta coceira no verão. Em gesto irresponsável, numa praia do
Espírito do Santo, não aguentei. Cortei e rasguei fora toda aquela horrorosa
casca branca. Quando voltei a Belo Horizonte, um médico me repreendeu um bom
bocado e me condenou a mais um mês de martírio dentro daquela bota cansativa e
tirana.
Em
fevereiro de 1980, pouco mais de dois meses após o grave acidente de moto em
Belo Horizonte, foi a vez de eu quase perder a vida no Volks branco que
comprara de meu irmão, uma semana antes. Foi tão pouco tempo depois de retirar
o gesso da perna esquerda que ela ainda estava fraca demais para controlar a
embreagem. Dirigia o carro o Vitinho, um dos amigos a bordo, ambos da minha
idade, quase 20. Voltávamos, nós os devassos, de Varginha para Paraguaçu, após
comprarmos uma caixa de lança-perfume. Para não nos chocarmos de frente com uma
Variante (outro antigo modelo da Volkswagen), tivemos que sair da pista pelo
lado esquerdo, depois de bater de raspão naquele carro. O nosso carro virou
lateralmente e foi se arrastando assim até parar.
Por
milagre, ninguém se machucou no acidente daquele sábado de Carnaval, mas
ficamos todos muito abalados emocionalmente, e eu tive que pagar bem caro por
aquela aventura ultra-perigosa e irresponsável. Diante de tanta infantilidade e
descaso diante da possibilidade de matar alguém, morrer eu próprio, ou me
machucar para o resto da vida, eu perdi o meu primeiro grande amor. Doeu muito,
mas mereci cada lágrima que verti ao longo de uma penosa semana em abril,
quando o nosso namoro de um ano se acabou. Ivana, uma paulista de coração bem
mineiro, era de apenas dois anos a mais que eu, mas já tinha amadurecido muito,
principalmente por ter sobrevivido a um câncer. Meu modo de viver, livre e
alegre, certamente a inspirava, mas ao me ver tantas vezes arriscando a vida,
deixou de vislumbrar qualquer futuro promissor entre nós.
Filme # 6:
Desafios da Meia-Idade
Com Ian, Zach e Ann, em 2017
Desgosto e medo me afastaram de qualquer máquina de
transporte por mais de três anos. Não quis dirigir nada de carro,
moto, ou bicicleta. Meu cuidado era enorme, mesmo como passageiro ou pedestre.
Acontece que compartilhamos o planeta Terra com criaturas que, como as
máquinas, também nos desafiam. Num daqueles invernos bem secos e poeirentos em
Minas, passei um fim de semana no sítio Bella Ciao, de minha irmã Silvinha e o
marido José, perto de Belo Horizonte. Dias depois estava em Paraguaçu, onde a
coceira na dobra interior do joelho começou. Como era de costume, foi consultar
com o famoso e estimado Dr. Zé Tourinho, um farmacêutico prático, sem curso
superior, mas dono de muita conhecimento, experiência e simpatia. Olhou bem e
logo me disse que não era nada para eu me preocupar. Aquela irritação da pele
ia passar, mas não passou. A coceira não desapareceu, e eu voltei para os
Estados Unidos em menos de uma semana.
Alguns dias depois, algo muito estranho aconteceu bem
cedo, enquanto ainda permanecia na cama. Aquela “inconsequente” irritação no
joelho, segundo o diagnóstico do farmacêutico paraguaçuense, agora produziu um
efeito execrável: dali saiu algo parecido a uma matéria fecal. “Cruz-credo, que
coisa horrível! Sai imediatamente daqui, Darinho”, se exaltou minha esposa, com
toda a razão. Muitas vezes na vida um homem precisa que uma mulher lhe diga,
“Vá logo atrás de um médico!” Ainda naquela manhã me dirigi ao hospital no
campus da Universidade de Minnesota, onde naquela tarde eu teria uma aula de
literatura espanhola com o professor grego Anthony Zahareas, no meu programa de
doutorado.
Na minha primeira consulta médica, não fui humilde.
Disse logo que o que eu mesmo suspeitava desde os dias em Minas: o meu problema
era um berne! Eu ainda desconhecia o seu nome científico, bem chique.
Tratava-se da larva da mosca-do-berne, a Dermatobia hominis, que penetra
na pele dos mamíferos, inclusive os seres humanos, e se desenvolve sob ela,
causando um comichão intenso e um tumor doloroso.
Sei que aqueles médicos da Universidade de Minnesota
(agora já eram uns três a minha volta) tiveram que consultar o dicionário e,
depois, alguns manuais para me ajudarem. Mais uma vez me adiantei. Disse-lhes
que o tratamento no Brasil era feito com um pedaço de bacon. Riram, embora,
discretamente, desse tal remédio da medicina popular brasileira, e a seguir
telefonaram para a Escola de Veterinária, para saber mais sobre o caso. Os
médicos de bichos confirmaram a minha receita. Realmente constava nos anais
aquela medida não-ortodoxa do povo. Concordaram comigo. Mandaram buscar um
pedaço de presunto, na falta de um bacon, e me aplicaram a carne no local da
picada. Pediram que eu esperasse. Esperei e esperei. Passada meia-hora vieram
me examinar e me disseram que o tratamento não estava dando resultado. Eu
retruquei. Calma, isso leva um tempo. Se vocês concordarem, eu vou assistir a
minha aula e depois volto para cá. Assim foi feito. Saí então daquele hospital
universitário famoso pelas suas pesquisas com um curativo que incluía um pedaço
de presunto.
E a coceira continuou. Pelas cinco e meia da tarde
voltei para o hospital. A enfermeira removeu o curativo, e a imagem era clara:
o bicho certamente estava pronto para sair. Apertaram gentilmente o local, e
nada. Com o intuito de preservar a integridade física da larva, resolveram
fazer um pequeno corte e... bingo: o bicho caiu fora. Era robusto,
multicolorido, principalmente de verde-castanho brilhante, de uns dois
centímetros e meio de comprimento. A surpresa e fascinação deles diante da
criatura eram óbvias. A seguir começaram a discutir quem se tornaria o dono do
berne. Certamente algum deles escreveria um artigo científico sobre o aparecimento
de uma larva tropical em solo americano. Mais uma vez tive que intervir: “em
nome da ciência, faço a doação desse raro espécime não a um de vocês, mas à
Universidade de Minnesota como um todo. Assunto encerrado!”
Mesmo residindo em Minnesota, para mim o Brasil
continuava a ser a terra dos meus maiores prazeres, maiores riscos e maiores
danos. Tudo muito intenso! Após transferir residência de Minnesota para Minas
Gerais, em 1997, mais uma vez eu quase desencarnei. Foi ao rodopiar numa curva
fechada, em dia chuvoso, a caminho de Ouro Preto. Bati meu Fiat vermelho numa
mureta de pedra. Ela impediu-me de cair numa ribanceira de mais de cem metros
de profundidade. Depois disso passei a viajar de ônibus entre Belo Horizonte e
Mariana, onde por três anos lecionei literatura na bela Universidade
Federal de Ouro Preto.
Os desafios da meia-idade não demoraram. Casado e com
dois filhos, veio a fase dos incontáveis churrascos e cervejadas. Ann, minha
esposa, os meninos, Ian e Zach, e eu nos reuníamos com as famílias de amigos em
restaurantes-fazendas quase todos os fins de semana. Tais múltiplas
indulgências agravaram as consequências metabólicas de minha obesidade, que já
durava por uns sete anos. Sem saber que eu estava com os índices de
triglicérides e colesterol nas alturas, aparentemente sofri um pequeno ataque
cardíaco no voo que fiz dos Estados Unidos (onde passei a morar em agosto de
2000) rumo ao Brasil. No avião, eu estava também com o coração partido
(metaforicamente) naquele mês de junho, 2001, pois naquele dia falecera Ana
Beatriz, minha irmã de 36 anos. Minha viagem era para participar do seu
enterro.
Ocupado na universidade e
alienado da realidade precária do meu próprio corpo, não procurei nenhum médico
após o incidente no avião. Numa tarde quente de outono, três meses depois,
senti forte arritmia e, finalmente, me dirigi a um hospital local, aqui no sul
de Massachusetts. Fiquei internado três dias, mas logo me sarei de uma
pericardite. A ficha caiu: não dava mais para ignorar os danos e os riscos de saúde.
A partir de então passei a consultar com um cardiologista semestralmente. Com
o Dr. Alexander Altschuller, um simpático russo-americano formado na
Universidade de Harvard, falávamos muito dos cuidados com a saúde (com a minha
síndrome metabólica, em particular), mas sempre sobrava tempo também para
conversas sobre literatura e tradução.
Na mesma clínica onde eu consultava regularmente com aquele cardiologista
intelectual, fã de Leão Tolstoi, uma grande surpresa me esperava numa certa
manhã de inverno. Eu havia sofrido uma pequena e superficial queimadura na mão
direita. A pele em volta da área entre o polegar e o indicador foi escurecendo
cada vez mais a cada dia. No terceiro dia, Ann notou aquilo e achou estranha a
minha explicação de que era apenas uma queimadura. Ela insistiu que eu fosse
consultar um médico. Relutei (como um típico homem teimoso), mas fui. Graças a
Deus que cedi aos seus apelos.
Quando a enfermeira pediu que
eu puxasse a manga da camisa, não gostou nada do que viu. Mostrou-me uma linha
de um vermelho claro que saía da mão e subia até o ombro direito. Disse-me
logo: “Você precisa ser internado imediatamente. Essa infecção pode chegar ao
coração em pouco tempo, e o risco é sério.” Minutos depois fui transferido para
um hospital, onde, por urgência, me deram antibiótico intravenoso nos dois
braços simultaneamente. Na cama, lembro-me de que eu precisava e queria
trabalhar no meu notebook, mas não tinha uma terceira mão para isso.
Conversando com meu médico, consegui lembrar-me do que certamente poderia ter
sido a causa de minha infecção. Não foi a queimadura, que ocorreu por
coincidência com uma pequena perfuração no meu dedo indicador direito. Dias
antes eu procurava algo tateando no fundo do bagageiro do meu carro e me
espetei num grampo enferrujado.
Filme # 7:
Estragos na Terceira Idade

Hospitais
eram minha sina! Com a marca dos sessenta anos na espreita, ainda fui jovem (e
imprudente) o bastante para me envolver em mais um acidente grave. Não, não,
não: nada de carro, moto ou bicicleta! Foi jogando tênis – vê se tem cabimento?
Em partida entre dois irmãos, com cerca de sessenta anos, contra Daniel Borim,
o filho/sobrinho ainda nos seus trinta e tal, vencia o jovem, e de lavada.
Jogávamos numa bela quadra numa cidade vizinha a Belo Horizonte. No momento em
que a partida poderia simplesmente terminar, confirmando o franco favoritismo
do rapaz, ela terminou, sim, mas quase em tragédia. Daniel forçou a bola no
fundo da quadra e eu corri de costas para rebatê-la. Desequilibrado por um
estômago cervejeiro em alta velocidade, tropecei em meus próprios pés e me
projetei para trás com violência.
Tentei
diminuir os estragos do impacto me apoiando com o braço esquerdo sobre o piso
de terra batida da quadra, mas não houve como evitar um choque muito pior: o
topo de minha cabeça contra uma parede de tijolos, não muito distante.
Honestamente, eu nem pensei no meu próprio acidente no cinema de Paraguaçu. Eu
havia perdido um de meus melhores amigos, Roberto Reis, o meu orientador no
doutorado em Minnesota, em condições semelhantes, ao jogarmos futebol de salão
em 1994. Meu pavor naquela noite em Minneapolis foi enorme. Agora, tudo se
repetia, mas comigo mesmo. Já totalmente ensanguentado, acabei desmaiando
segundos depois da queda.
Naquele novo
episódio entre a vida e a morte numa inócua quadra de tênis, meu Anjo da Guarda
se mostrou eficaz. Fui logo levado para o hospital Madre Teresa, em Belo Horizonte,
onde outro sobrinho, o dr. Guilherme Borim Mirachi, não mediu esforços para me
ajudar. Então se confirmou que eu não tinha tido traumatismo craniano que
deixasse sequelas. Tive, sim, três cortes no topo da cabeça (de quase quatro cm
cada), além de três faturas no pulso esquerdo, por conta das quais usei gesso
por dois meses.
Assim como
aconteceu quando eu quebrara o joelho, tive múltiplas oportunidades para
repensar a importância da integridade física e como penam as pessoas com suas
deficiências e desconfortos crônicos. Tarefas corriqueiras como dar um laço no
sapato ou abotoar uma camisa se tornaram um desafio. Um médico especialista em
mãos, aqui nos Estados Unidos, quase que me garantiu que minha mão não ficaria
muito prejudicada para o resto da vida. Acertou. Hoje, oito anos passados,
consigo fazer muitas atividades com ela, mas não todas e nem sempre sem dor.
Mas não reclamo. Pelo contrário: agradeço a sorte e a boa vontade dos anjos que
me rodeiam em momentos difíceis.
No Palácio das Artes, com o sobrinho Alexandre, Silvinha e José
Filme # 8:
Mais Visitas Indesejadas
Ainda
antes dos sessenta, chegou-me à saúde mais uma visita indesejada. Essa veio
para ficar dentro de mim até eu partir desse mundo: a malfadada síndrome do
intestino irritável, a SII, que chamamos pela sigla IBS (irritable bowel
syndrome) aqui nos Estados Unidos, feitiço dos tubos e nervos que não ainda tem
cura. Gases abundantes, cólicas abdominais agudas, outras dores vigorosas em
variadas partes do corpo, e uma embaraçosa dificuldade para controlar dejeções
fecais, com ou sem diarreia – estes são alguns dos sintomas e malefícios. Hoje
a ciência acredita que a SII é consequência direta do “desentendimento” entre
os neurônios cerebrais e os neurônios do sistema digestivo. Por isso, é tanto
uma questão física quanto emocional.
No
pacote de inconveniências, os portadores de SII têm que conhecer e lidar com
uma longa lista do que não comer – ou ter que submeter àqueles sintomas que,
quando graves, podem impedir uma pessoa, por exemplo, de sair para
trabalhar ou passear. Minha completa constatação dessa nefasta companheira
adveio de um episódio patético quando comi feijão todos os dias (no almoço e no
jantar) e pãezinhos de sal no café da manhã e da tarde por sete dias em
seguida, em Paraguaçu. Era minha primeira semana no país, depois seis meses
diretos nos Estados Unidos. Passei um dia inteiro de cama, com dores agudas por
todo canto. O que me tirou daquela aflição foi um
fortíssimo anti-inflamatório receitado pelo meu cunhado, o Dr. José
Coda Albino Dias.
Sem
sequer uma definição irrefutável da medicina anterior aos anos 90 sobre o que
ela é exatamente, ou como surge no organismo, a SII se esconde em tabus. Pouca
gente tem coragem de revelá-la. Sabe-se muito bem, entretanto, que ela é um
processo metabólico, mas está sujeita, como disse antes, às emoções da pessoa,
como estresse, medo, preocupação, susto, tensão, tristeza, etc. Estamos
cientes, também, que podemos evitar o pior, como a paralisação completa do
corpo em função das dores por todos os lados, ou mesmo as crises mais leves e
ocasionais, se tomarmos probióticos (recomendação certeira que recebi do Dr.
Francis Magalhães, outro médico da família) e não consumirmos quaisquer entre
muitos alimentos e bebidas de uma longa lista. Para complicar a síndrome, a
lista não se aplica igualmente a todas as pessoas com a SII. O rol de agentes
maléficos à saúde e ao bem-estar dos doentes inclui alimentos e bebidas
extremamente saudáveis para as outras pessoas, as “normais”. Por exemplo,
pêssegos, melancia, brócolis, couve-flor, repolho, couve, leite, feijão, trigo,
molho de tomate, refrigerante, chocolate, molhos cremosos, pizza, e muitos
outros itens merecem atenção, moderação, ou exclusão total.
Infelizmente,
o panorama dos meus dramas não acabou. Nos últimos 18 meses, em plena reta
final para a gloriosa idade dos 65, me apareceram quatro novos desafios.
Primeiro, a síndrome do túnel do carpo na mão direita, e, depois e mais grave,
na mão esquerda. Como percebem, mais uma síndrome na vida deste cronista! Dessa
encrenca me curei, pelo menos dos seus episódios de estreia quando digitei um
longo trabalho acadêmico. Exagerei no tempo de trabalho sobre o teclado e não
me preocupei com a adequada e necessária postura corporal, principalmente a dos
braços sobre a mesa. No inverno passado, mais duas novidades foram seguidas de
outra – a pior delas.
Uma
daquelas preocupações apareceu no consultório do meu médico atual, o Dr. Hugo
Jauregui, um simpático boliviano-americano que morou algum tempo no Brasil e
fala o português muito bem. Ele me alertou sobre minha pressão arterial alta,
medida ali mesmo. Fiz vários exames, inclusive aquele de estresse físico sobre
uma esteira eletrônica. Em menos de dois minutos tive que parar. Quase tive um
evento cardíaco, pois a pressão chegou a mais que 27. Dr. Jauregui também pediu
que eu a medisse em casa regularmente por um mês e lhe enviasse os resultados.
Não
deu outra. O veredito foi: “O Sr. Dário de agora par frente precisa controlar o
consumo de sal e tomar remédio diário para controlar a pressão”. O quê?, pensei
eu. Nunca tinha tido qualquer problema de pressão. Por muitos anos esses
índices foram meu motivo de orgulho diante de vários outros números tão piores
no meu perfil médico. Aos sessenta e quatro lembrei-me de meu pai, que por
décadas disse-nos que a idade dele estava chegando, mas nunca chegava. Continuava
trabalhando de segunda a sábado, horário integral. Um fenômeno! Com a graça de
Deus, ele só pôde pensar que de fato que estava velho quando já tinha quase 97
anos, meses antes da pandemia do corona-vírus e três anos antes de falecer.
Ferrugem
nunca dorme, diz uma canção do canadense Neil Young, um dos compositores que
mais admiro. Bem cedo, numa manhã do mesmo inverno em que de repente soube-me
hipertenso, saí de casa, aqui em Dartmouth, para caminhar com a minha adorada
loira e peluda, a Minnie, uma bela e elegante golden-retriever. Para minha
surpresa, logo passei a ver nas extremidades do meu campo de visão umas flechas
brancas disparadas em rápida sequência. Ainda estava um pouco escuro lá fora.
Cheguei ao absurdo de pensar que eram flocos de neve que, com o vento, se
desprendiam das folhas das árvores, mas achei aquilo muito esquisito. Quando
estava de volta em casa, a claridade do dia nas janelas me mostrou que o céu
estava azul, e que não havia neve nenhuma. O sintoma surgiu ainda outras vezes,
quando eu também passei a perceber alguns bichinhos, como pequenas minhocas,
que flutuavam nas mesmas extremidades da minha visão. Nada fiz por uns dias,
até que em outra manhã, ao acordar, me vi com a metade do olho direito tomado
por um forte vermelhão, sem dúvida uma pura camada de sangue tomando metade da
esclera (a parte normalmente branca do olho humano).
Era
passada a hora de eu procurar uma oftalmologista. Após conduzir uma variedade
de exames, a Dra. Haylee McQuay me confortou: a hemorragia não era nada para me
preocupar, e deveria desaparecer em uma duas semanas. Elas acontecem de vez em
quando, com o rompimento de algum pequeno vaso sanguíneo sob a pressão de um
espirro forte, por exemplo, ou coisa assim. Quanto às flechas e minhoquinhas
nos cantos do olho direito, deveríamos ficar em alerta. Vinham de um desgaste
da retina, de rugas que se formaram ali, ela constatou. Se piorassem bastante
nos próximos meses, teria que ser operado. Por enquanto, que me acostumasse com
os parceiros flutuantes, e bola pra frente.
O
verdadeiro, o extravagante, o mais cruel diabo que já habitou meu corpo veio a
seguir. Com a ocorrência de múltiplos focos de dor corporal causados pela SII,
demorei a desconfiar, mas meu novo companheiro de encrenca tem nome conhecido
por muita gente: nervo ciático. Existem dois tipos desse sufoco criado pelo
mais longo nervo do corpo humano. Um tipo vem de problemas na espinha dorsal, e
o outro surge mais para o meio de uma das duas bochechas do nosso bum-bum. O
meu tipo é o segundo. Atualmente (inclusive enquanto escrevo essa interminável
crônica), o nervo ciático me maltrata bastante, ali no ponto acolchoado e curvo
de sua origem, e também na encruzilhada óssea, nervosa e muscular da
virilha esquerda. Caramba!
E
por falar em virilha, são tantos os meus “causos” médicos que até me esqueci:
também tive uma hérnia na virilha do outro lado, o direito. Foi quando, uns 15
anos atrás, passei a usar amiúde a metáfora da “hérnia” para me referir a
qualquer inconveniente na vida. Nem sabia de quanto aquela hérnia literal não
era nada se comparada com as enormes hérnias metafóricas com que convivo
atualmente: a SII e o nervo ciático.
Pronto!
Chega de lamentos! É hora de concluir essa crônica meio desvairada e um tanto
desregrada, sem nenhum respeito aos limites de tamanho imposto pelo gênero
jornalístico-literário tão enobrecido por Machado de Assis, Rachel de Queiroz,
Carlos Drummond de Andrade e tantas outras penas. Peço perdão pelo abuso do
tempo a quem me acompanhou até aqui e, ao mesmo tempo, desejo que vocês não
encontrem na vida nem um quinto dos percalços aqui arrolados. Se cuidem!
Cine-Teatro Íris, hoje Teatro Municipal Donato Leite Andrade
Filme # 9:
As Cortinas
Eu
não devia reclamar não, e não estou aqui para isso, pois muita gente sofre
muito mais do que eu, com dores constantes, outros maçantes desconfortos, e
acentuadas restrições físicas e mentais ao longo da vida. Pergunto: por quê,
então, quis eu narrar todo esse queixume? Não sei exatamente. Talvez para
extravasar minhas atuais frustrações, que, atualmente, incluem o nervo ciático.
Para quem não sabe, pressão no nervo ciático, um dos maiores flagelos ao longo
de nove anos para a escritora Jobim, pode doer mais que uma fratura óssea.
Talvez eu esteja escrevendo esse testamento para ser modestamente útil a quem
ainda não sabe da existência e possibilidade de algumas armadilhas e asneiras
onde caí ou tropecei. Talvez eu tenha simplesmente desejado me entreter e ao
mesmo tempo torcer pelo mesmo efeito sobre vocês.
Uma
última hipótese talvez seja a mais realista: quero dizer aqui, afinal, que sou
extremamente grato pela saúde que tive e pela enorme e recorrente ajuda que me
deram os anjos. Jamais verei uma pessoa que anda, fala ou respira com
dificuldade da mesma maneira que as via antes de eu passar por certas marcas
descritas nessa narrativa de contratempos e pesares. Com certeza, não há nela
nada estritamente sociopolítico ou aterrador. São um tanto diferentes, pois, do
que fizeram Fiódor Dostoiévski, Herbert Daniel, Marcelo Rubens Paiva e Helena
Jobim, mas me sinto honrado de poder compartilhar com vocês a história de uma
vivência tão aventurosa quanto desastrosa, sem ter sido letal. Além do mais,
confesso que me cansei de conviver com os perigos por trás dos prazeres
desregrados, como a volúpia da bebida, da comida, das drogas ou da velocidade
sobre rodas. Além do mais, me arrependo dos temores que causei a meus pais,
meus irmãos (especialmente o Tatau), esposa, ex-namoradas, filhos e amigos.
O
que está pela frente? Não sei. Ninguém sabe. O que sei que é um dia a gente
pode estar muito bem de saúde, até mesmo ao fim de uma noite, e, no dia
seguinte, não conseguir sair da cama. Passei por isso quase vinte anos atrás
(portanto, antes da SII e do nervo ciático me declarem guerra). Foi mais um
evento ortopédico um tanto estranho de que não me lembrei de lhes contar antes.
Depois de passar cinco horas assistindo a um jogo de futebol americano,
assentado em uma cadeira de alumínio, vestindo apenas um par de jeans e uma
jaqueta de inverno sob temperaturas abaixo dos vinte graus negativos, fui
dormir ainda pensando que tudo estava bem. Na manhã seguinte, eu não conseguia
mover qualquer membro do meu corpo. O susto e a dor foram intensos. Depois de
uma consulta médica que Ann fez por telefone, veio a solução. Uma dose maciça
de ibuprofeno (bem mais de 1000 mg) me liberou os movimentos poucas horas
depois. A sensação que tive àquela época foi de estranhamento, o mistério
diante da fragilidade de nossa constituição física e emocional numa jornada que
tanto pequenos como grandes descuidos podem ter consequências jamais esperadas,
inclusive o retorno à normalidade do corpo sem dor.
Para
mim são muitos os mistérios da dor física, da dor do pensamento, e dor da alma.
Os sonhos, claro, fazem parte desse tabuleiro de incógnitas. No meu caso,
lembro-me de que por mais de 50 anos tive pesadelos obviamente associados ao
meu acidente aos seis ano. Neles eu caía, por exemplo, de uma montanha, uma
ribanceira, uma árvore bem alta, ou a sacada de um prédio de apartamentos, mas
sempre surgia algo a me salvar do choque forte da queda, como uma nuvem amiga
que me acomodasse no ar, ou um enorme colchão de espumas que me recebesse
gentilmente ao chão. Até nos sonhos eu poderia contar com o Anjo da Guarda?
Embora
sem a ênfase com que Jobim dedica-se aos enigmas em torno da suposta
casualidade dos acidentes, em Feliz Ano
Velho Paiva também menciona algo que nos faz pensar nas palavras de Hamlet
a Horácio, imortalizadas por William Shakespeare em sua peça Otelo, asserção que também servem de
mote para a autobiografia de Jobim, Pressinto
os Anjos que me Perseguem: “Há mais coisas entre o Céu e a Terra do que
sonha nossa vã filosofia”. Eliana, irmã de Marcelo, teve um sonho revelador uma
semana antes do acidente dele. Ela sonhou que ele “estava afogando e não
conseguia levantar a cabeça” e que, depois de ele ser salvo, ela “só o via do
pescoço pra cima” (40). Seis dias antes da tragédia, ele foi visitar a família
em São Paulo e ouviu de Eliana a tal descrição da experiência onírica cheia de
premonições. Ao ver o irmão, ela o “abraçou assustadíssima, quase chorando:
‘Tive um pesadelo horrível com você, ainda bem que você está vivo’” (40).
Como
se viu por aqui, dentro de nossos corpos e mentes há chances de muitas tramas,
intrigas e artimanhas atuar no silêncio, na ausência de quaisquer sinais, e
certamente precisamos ser gratos por poder ver o sol nascer a cada dia.
Finalmente, quero confessar algo mais: uma de minhas maiores ingenuidades na
vida foi uma noção equivocada que sustentei por várias décadas, mas que foi se
exaurindo a cada marco significativo de declínio que constatei na minha saúde e
na saúde de alguns de meus melhores amigos e amigas. Quem sabe essa nebulosa
ofuscou o meu radar por eu nunca ter convivido intimamente, isto é, sob o mesmo
teto, com pessoas idosas. Quem sabe pela falta de uma avó octogenária, ou mesmo
com um pai ou mãe decadente, não pude me abrir os olhos, como deveria, para
perceber e sentir empatia pela sua crescente fragilidade física e/ou
mental, e, assim, criei e alimentei um mito.
O
mito é esse de pensar que a vida transcorre assim mesmo: nascemos e um dia
simplesmente morremos. Errado! Esse até pode ser o enredo de alguns seres
humanos, mas a maioria da humanidade, penso, é forçada, pelas circunstâncias, a
lutar contra e, a algum momento, aceitar que vamos morrendo aos poucos,
perdendo nossas forças e nossos talentos até que a cortina do teatro se feche,
e quem sabe, passemos a atuar em outros filmes ainda desconhecidos aqui no
planeta Terra: os filmes do além. Não gostaria de ver ou atuar nessas películas
tão cedo, mas proceder vivendo levianamente pode ser o ingresso, sem direito a
pipocas. No outro lado da tela de um cinema em minha cidade natal, como disse
anteriormente, eu não vi nada, e de lá saí perigosamente ferido, mas fui salvo
por meu infalível Anjo da Guarda, depois de eu brincar com fogo à beira de um
precipício e nele cair brutalmente. Meu anjo deve estar muito cansado. Eu
também. Basta, Dário!