quarta-feira, 5 de setembro de 2018

O Monge e o Poeta: Fábulas Sociopolíticas



Pintura de Cândido Portinari (1943)
Igreja de São Francisco, Belo Horizonte, Minas, Brasil

O Monge e o Poeta: Fábulas Sociopolíticas

Crônicas de Frei Betto e Ferreira Gullar fazem-me pensar no desenredar de algumas fábulas sociopolíticas desde a queda do muro de Berlim e dos últimos dez anos no Brasil, em particular. Nesses mesmos dez anos tenho feito um trabalho voluntário de pesquisa, leitura, redação e edição para um distinto periódico acadêmico da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, o Handbook of Latin American Studies, que anualmente, desde 1936, publica um volume de aproximadamente 750 páginas. Contribuem pesquisadores de todo o mundo a redigir sobre os lançamentos nas áreas de humanidades e ciências sociais, no âmbito da América Latina.
Recentemente caiu-me às mãos o enorme livro (525 pp.) Paraíso Perdido: Viagens ao Mundo Socialista (Rocco, 2015). Ali Frei Betto relata a sua cruzada pelo reconhecimento do que vê como as bases socialistas do cristianismo e pela aceitação dessa religião no regimento draconiano dos partidos comunistas (declaradamente ateus) mundo afora, mas principalmente em Cuba.
Outra obra chamou-me a atenção. De aberta preocupação com o social e atuante participação no combate à ditadura militar, especialmente através do Teatro Opinião, o autor do Manifesto Neoconcreto, Ferreira Gullar, dedica vários textos de seu livro A Alquimia na Quitanda: Artes, Bichos e Barulhos nas Melhores Crônicas do Poeta (Três Estrelas, 2016) aos escandândalos e aberrações do período histórico entre os governos de José Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, entre 2005 e 2015.
Comecemos por Frei Betto, o renomado autor de mais de 60 obras, muitas delas hoje traduzidas para 23 idiomas. Erudito e franco, o autor declara ao jornal cubano Granma que Jesus Cristo é “a revelação de um Deus comprometido com os pobres”, pois a sede de justiça é algo que Deus “assume como bem-aventurança” (156). O cronista se faz porta-voz da Teolologia da Libertação ao enfatizar que “o cristianismo  é essencialmente comunista”, mas na mesma entrevista àquele jornal denuncia o dogmatismo de ambos os lados: “Muitos cristãos transformam sua fé numa ideologia e muitos marxistas transformam sua ideologia numa religião” (156). Apesar dessas amargas ponderações, o jornal publicou a matéria na íntegra. O mesmo não aconteceu com uma de suas entrevistas concedidas à TV estatal cubana, a TeleRebelde. Foi vetada com essa justificativa oficial: “Tem um pensamento contraditório e pode trazer confusão. Os jovens podem querer ser cristãos” (160).
Apesar daquelas indesejadas afinetadas, é enorme a carga de elogios que Frei Betto faz ao modelo político e social de Cuba. Para ele o regime de um suposto entrosamento harmonioso entre cooperativas populares e chefias do governo funciona muito melhor do que a democracia do voto. Diz, por exemplo: “a democracia não se avalia pelo modo como ocorre a alternância dos homens no poder, e sim pelos direitos e benefícios conquistados pelos cidadãos” (160). Frei Betto é, pois, radicalmente contra o conceito de que em Cuba exista a “ditadura do proletariado” (159-160).
O próprio fato de a revolução cubana ter nascido por baixo, dos pobres, e não de cima, como na Europa do Leste, por conta das classes medias ou mais abastadas e dirigidas por estrangeiros (os russos),  explicaria o sucesso de um e o fracasso dos outros (515). Outros problemas sérios do socialismo falido na Europa, como no caso da Alemanha Oriental, seriam a corrupção e o autoritarismo educacional e intelectual, explica o monge. Ele arremata, “em nome da mais revolucionária das teorias políticas surgidas na história ensinava-se a não pensar” (519).
Concluído pouco antes ou mesmo em 2015 (os textos não são datados), o livro de Frei Betto revela muito mais complexidades da história do socialismo fora do Brasil do que dentro dele. Os sunames de corrupção a la brasileira não veem à tona. A obra, porém, matou uma de minhas maiores curiosidades a respeito do que teria ocorrido nos batidores do PT, num período de patética crise e virtual desmoronamento das bases do partido: quem teria sido a primeira escolha de Lula para candidato do PT à presidência do Brasil naquele ano? Lula poderia ter colocado no posto quem ele quisesse, como sabemos, dado o seu nível de popularidade sem par na história da frágil e nebulosa democracia brasileira. Eu sabia que não fora a Dilma Rousseff, é claro. Isso ficou óbvio desde o início do seu primeiro desastrado mandato, que muito preocupou ao próprio Lula.
Então, bingo! Assim transcreve Frei Betto uma de suas centenas de conversas com Fidel Castro (o conteúdo de 23 horas delas virou livro best-seller, o Fidel e a Religião): "Perguntou-me sobre a saúde de Lula, suas possibilidades de retornar à presidência, e se Dilma Rousseff havia sido a sua única escolha como sucessora"  (499) Prossegue Frei Betto: "Opinei que, com certeza, ele teria preferido indicar, como successor, Antônio Palocci ou José Dirceu; acredito que o primeiro teria mais chances, já que era visto com mais simpatia pelo setor financeiro". O Comandante assim indagou: "Por que, então, Dilma?" A resposta foi direta: "Ela era a terceira opção. Foi a escolhida porque as outras duas caíram sob suspeita de corrupção" (499).

Apesar de refletir intensamente sobre o colapso do dito socialismo real na Europa do Leste, Frei Betto não deixa claro a qual paraíso se refere o título de seu livro. Não teria sido o paraíso de Adão e Eva, nem outro momento mítico que se tenha vivido em plena paz e humildade nesse planeta, embora, como vimos, o monge estabeleça fortes laços entre o comunismo e o cristianismo. Tampouco teria sido a sociedade cubana. Do paraíso católico de longínquos tempos, ninguém quis fugir, como rezam os livros sagrados. Por conta da maçã, Adão e Eva foram expulsos, aliás, toda a humanidade foi expulsa, por isso nascemos desde então com o tal pecado original na alma. De Cuba, sim – muita gente quis sair! E ninguém teria interesse em impedir que as pessoas de lá saíssem, claro, se não fosse o medo de que elas declarassem ao resto mundo que tal paraíso era apenas uma fábula ideológica sustentada por “imperialistas do bem”, como se podia ironicamente dizer da União Soviética.
Muito mais voltado para a realidade brasileira do que Paraíso Perdido, a antologia de crônicas A Alquimia na Quitanda retrata a ascensão e queda, ao longo das duas últimas décadas, de um dos maiores mitos da história do Brasil. Em sua crônica “E o Lobo Virou Cordeiro”, de 8 de maio de 2011, por exemplo, o escritor maranhense Ferreira Gullar lembra-nos de que após perder três eleições presidenciais, Lula mudou de tom e adquiriu posição moderada, o que lhe permitiu chegar ao poder em Brasília. Adotou, então, “tudo o que seu adversário implantara, desde os programas assistenciais até a política econômica neoliberal, imprimindo àqueles um colorido populista e à política externa um cunho antiamericano para salvar a face” (195). Ampliada pela retórica lulista, acrescenta,  tal imagem, um misto de governo pai-dos-pobres e carismático amigo-dos-ricos, caiu tanto na simpatia popular quanto na confiança do empresariado. Arremata Ferreira Gullar: “Nada melhor para o capital do que um país sem greves nem crises econômicas” (195).
Ao expandir os programas do governo anterior e mudar sua própria retórica e visão social, Lula preservou projetos “que correspondiam às necessidades reais do país” e as mudanças, por serem necessárias, “tonaram-se irreversíveis” (195). Assim, o PT virou PSDB, como se fosse um lobo fantasiado em pele de cordeiro. “Com a diferença de que, se o lobo da fábula continua lobo, o lobo Lula virou cordeiro mesmo” (195).
Bem – mais tarde, ex-Lula-Lobo saiu da pele de cordeiro para proteger o seu círculo de poder severamente ameaçado, inicialmente, pela corrupção no seu Gabinete Executivo e no Congresso, e, posteriormente, pelos deslizes e irresponsabilidades administrativo-fiscais de sua sucessora, Dilma Rousseff. Como reconta a história, Dilma Rousseff infringiu severa e continuamente a Lei de Responsabilidade Fiscal, uma das fontes da surreal inflação dos anos 1980 – lei esta, a que, ironicamente, o PT tanto se opôs durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, uma lei que tanto contribuiu para solidificar o Plano Real, do qual o governo Lula tanto se beneficiou e até ousou assumir autoria.
Sabe-se lá, ou saberemos lá um dia, se aquele mar de lamas foi edificado e coordenado pelo próprio ex-cordeiro, ou por seus mais fortes assessores, Antônio Palocci e José Dirceu, ambos condenados à dezenas de anos de prisão, e ambos favoritos de Lula para ocupar a presidência do Brasil, como revela Frei Betto. O que se pode ter por certo é que a ambição por poder pode facilmente cegar as mentes e calar as consciências. Assim se distribuiu o suborno do Mensalão no Congresso, abriram-se os amplos dutos das propinas milionárias da Petrobras, e firmaram-se contratos ilícitos e generosos entre os governos do PT e as maiores empreiteiras da construção civil do Brasil.
Muitos políticos, até mesmo o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e muitos empresários, alguns portadores de contas bancárias na Suíça sem medida, hoje veem o sol nascer quadrado. Lá está também o único ex-presidente do Brasil a ter cama e banho em hotel gratuito – embora se imagine que para o rol dos condenados também logo se dirija o atual chefe de estado, Michel Temer, ex-vice de Rousseff duas vezes e nefasta herança demagoga da administração petista.
Se para Frei Betto a corrupção e o autoritarismo foram os erros capitais na morte do socialismo europeu, e o embargo “usamericano” (termo de sua criação?) o único câncer na falência da sociedade cubana, a quem se culpa pelo queda abismal do Partido dos Trabalhadores? Os próprios petistas, que sobrevivem à crise, apontam teorias sinistras de conspiração e fascismo por parte de uma direita supostamente pior que aquela dos chamados anos de chumbo. Insinua-se também a presença ianque, acreditem se quiserem! Não veem no seu tombo os enganos e abusos de sua própria autoria e dos comparsas eleitos e parceiros nos seus maquiavélicos esquemas de sustentação do poder a qualquer custo, seja na coligação com políticos sem escrúpulos, seja na maquinação sem lei com empresários capitalistas que suas fábulas sociopolíticas tanto atacavam.
Enquanto isso, o mito do cordeiro continua vivo. Quem errou se faz de vítima, e quem venceu tantos entraves um dia pode ser vencedor novamente: sair da cadeia e assumir o destino da nação pelas mãos do “povo”, de quem se diz salvador. Vejamos o próximo capítulo dessa fábula. Que não seja tão vergonhoso e melindroso quanto ao livro de atas do Brasil dos últimos dez anos.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Ludibriados



Ludibriados

Lênin e Fidel queriam o bem, e o sonho é de direito de todos, mas querer o bem não necessariamente torna legítimos ou justos, igualitários ou eficazes, os métodos adotados por quem quer que seja. O capitalismo é depredador, sim, e o comunismo também. Só variam as ideologias e os métodos. O problema maior do comunismo é a ditadura encoberta por um discurso mentiroso de respeito ao “povo”.  O problema maior do capitalismo é explorar o povo para enriquecer quem já é rico ou quer ser rico a qualquer custo.
O comunismo a la Marx e Engels ainda não morreu por completo, mas vai logo. Cuba só não morreu de fome como um todo, porque se abriu um pouco para a iniciativa privada. O embargo dos Estados Unidos não deveria ser a única explicação de um fracaço nas bases da sociedade cubana. Agora talvez haja alguma esperança de melhores dias para tanta gente sofrida por lá. A utopia cubana durou enquanto a União Soviética lhe mandou milhões de dólares anualmente. Era quando uma amiga minha fazia balé e ia ao teatro e cinema semanalmente em Havana, porque pertencia a uma família privilegiada. Aliás, a igualdade entre os cubanos era uma das maiores farsas da fachada do regime.
Caiu o muro de Berlim — onde, em 17 de junho de 1953, duas dezenas de trabalhadores foram assassinados e centenas de outros berlinenses machucados por fazerem greve e protesto no belo lado comunista da cidade — então, sem a benesse soviética, a fome e a miséria se proliferaram na Ilha de Fidel. Aquela minha amiga que fazia balé, atualmente uma professora universitária aqui em Massachusetts, passou muita fome antes de conseguir fugir de Cuba. Depois, teve que passar dez anos sem ver os pais.
Os princípios socialistas do comunismo são de forte apelo às nossas consciências, e provam fazer o bem onde há também práticas capitalistas, como na Dinamarca e na Suécia. Enquanto isso, a ideologia da revolução socialista armada foi, é e, certamente, sempre será uma utopia dos sonhadores que querem implementar um regime falido e mentiroso na base da força. Fidel já executava dissidentes imediatamente após vencer a revolução em 1959. Eram três as principais facções unidas pelo espírito revolucionário em Cuba. Só a facção dele queria ver instalado no poder um ditador comunista no lugar de uma oligarquia vendida aos interesses dos EUA. Quem de fato lutou pela revolução cubana e queria abertamente uma democracia em Cuba após 1959 foi encarcerado e fuzilado por Fidel e seus comparsas. Na Rússia, Stálin manou fuzilar mais de uma centena de milhares de russos.
No Brasil, a tentativa de revolução armada por conta dos socialistas foi desde cedo uma das mais fracas na América Latina e morreu cedo, defunta já no início dos anos 70. Quem venceu no Brasil foi o Partido dos Trabalhadores, através das urnas, por conta da sagacidade, carisma e determinação do seu líder maior, o Lula. Mas para vencer, depois de três derrotas, Lula teve que modificar o discurso “revolucionário” e agradar os empresários.
Quando assumiu o governo, em condições financeiras sem par na história do Brasil (250 bilhões de dólares em caixa e sem dívida externa), Lula manteve quase todos os ministros de FHC e se beneficiou enormemente do capitalismo chinês (que ironia), que comprava e elevava os preços das commodities brasileiras. E Lula se entrosou muito bem com os empresários. Aliás, bem demais! Logo montou esquemas de corrupção de grande porte com as maiores empreiteiras do país em múltiplas obras no Brasil, Peru, Cuba, África Lusófona, e mais!
Lula logo montou também um esquema de corrupção com os outros partidos, principalmente com o PMDB, como sabemos. Em 2010, Lula poderia escolher quem ele quisesse para ser o próximo presidente do Brasil, já que a Constituição não permitia três madatos consecutivos! Imaginem, tanto poder nas mãos de um homem só — ele, afinal, contava com 85% de aprovação ao final do seu mandato! Ele era o nosso Fidel Castro! Então Lula teve a ousadia, cegueira e fome por poder que o levaram até a escolher e eleger o vampiro do Temer, duas vezes, como o novo vice-presidente do Brasil!
O resto é história! É abuso de poder sem limite e sem vergonha de Dilma, quem, por exemplo, começou a governar consultando e obedecendo ao  seu Lula a cada momento de decisão (apesar do discurso feminista dela de fachada, e dos comentários machistas, dele, às costas da “presidenta”).
Houve desentendimento mais tarde, é claro, pois parte do PT queria mais poder para ela, e para o PT. Então o próprio Lula se viu muitas vezes ofendido pela “independência” e audácia de certas facções do Partido. Mas, grosso modo, a ordem  era para se ouvir o seu Lula, e não era para se consultar ou respeitar o Congresso (depois do escândalo do Mensalão), um modelo mais  parecido com o de Cuba, onde os representantes do povo, eleitos por cartas marcadas, serviam e ainda servem para legitimar as decisões do Partido Comunista.

Chega! Votei no Lula e votei na Dilma, sim. Mais um culpado pelo desastre dos últimos oito anos, que deu no que deu num país entregue às moscas, fui ludibriado como milhões e milhões de outros brasileiros. Desejar o bem e se autopromover por esse discurso não enchem barriga, não dão emprego, e nem trazem paz, se o caminho do bem não for o caminho da transparência, da honestidade, e do respeito à verdade. Como já dizia o ativista cultural e poeta neoconcretista Ferreira Gullar na sua crônica “O Sonho Acabou”, publicada pela Folha de São Paulo em 25 de fevereiro de 2007: “é muito difícil abrir mão de um sonho generoso que nos deixa em paz com nossa consciência. Mais difícil ainda é admitir que não há soluções mágicas nem definitivas para os problemas”.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Anjo Loiro de Pé Sujo



Anjo Loiro de Pé Sujo:
Uma Minibiografia de José Carlos Borim

Não se sabia o sexo do próximo rebento a nascer naquela época, lá pelos fins da década de 1950. Menina ou menino, chegaria mais um bebê ao lar de Lucci Prado Mendes Borim e Dário Foresti Borim. Já tinham vindo três meninas. Uma, a Vana Lúcia, faleceu acidentalmente na primeiríssima infância. As outras duas vingaram: Silvana, a mais velha, e Silvinha, a segunda mais velha, de uma família que seria de cinco filhos.
Deus ia ajudar: era a hora de um macho! A reza foi tanta que veio um varão muito especial, que se tornaria um bom partido: um jovem engenheiro eletrônico de 25 aninhos de idade pescado por uma mocinha também muito especial, uma estudante de Edificações. Essa é Jaqueline Santoro Quintão, esposa dedicada de mil e quinhentos talentos, uma adorada figuraça que organizou esta súper festa e me convidou para redigir essas mal traçadas linhas sobre a vida de meu irmão.
Mas esperem aí. Muita água rolou antes daquele dia chuvoso de novembro, quando os dois prometeram fazer uma forte trança das cordas de seus destinos e juntar os trapinhos na bela Igreja de Lourdes.
Vamos então voltar a 1958. José, sim – José se chamaria o neném em homenagem ao santo marido de Maria, o pai-adotivo de Jesus Cristo, que segundo a Igreja Católica, tem o papel de intervir a favor dos que pedem uma importante graça a Deus. Aliás, “acúmulo de bens nas mãos de Deus” é o significado de “José” em hebraico. De acordo com certas passagens bíblicas, São José teria sido um sujeito exemplar: muito trabalhador, cheio de fé, e grande protetor de sua família. Por estas razões, São José tornou-se venerado como padroeiro universal, não só pelos católicos, mas também pelos cristãos anglicanos e ortodoxos.
Aquele José de 1958 não estaria sendo moldado para ser santo. Isso não! Talvez o fosse, se não fosse o Carlos, seu segundo nome. Muito mais laico e prosaico, “Carlos” é de origem franco-germânica e significa “homem livre.” Homem livre e santo não combinam muito bem para a beatificação. Deve ser por isso que José Carlos, ou, ZECARS, no dialeto de Paraguaçu, virou Rei em terras mineiras e capixabas! Rei por quê? Uai, tô aqui é pra contar isso mesmo. Resumindo já de cara: o meu irmão é loiro, alto, magro, calmo, inteligente, marajá, simpático e de coração muito bom, e de olhos muito verdes! Quer mais?
Tem mais. Nossos pais o ajudaram muito, sempre. Seus irmãos o amaram muito, sempre. Amava-o de modo muito especial a nossa irmã que veio na raspa do tacho, a Ana Beatriz, uma estrela saudosa que hoje muito brilha lá no céu. E olha que ele ainda tem um irmão, de quase a mesma idade, que muito se inspirou nele. A reza pra nascer um “macho” extrapolou um cadim e logo chegou mais um, o Dário Borim Jr., o vulgo Darim que lhes dirige a palavra, um contador de histórias meio-boêmio e meio-poeta – pior ainda, meio-gringo. A felicidade de nossos pais era tão grande com a chegada do loirinho, que mandaram brasa: comemoram muito bem o presente de Deus e seis meses depois daquele dia 4 de junho de 1958, bingo: lá estava encomendado mais bichinho pro ninho!
Tatau, assim apelidado pela avó paterna, Drosiana Foresti Borim, e eu, que carrego a honra do nome de nosso pai, passamos por muita coisa juntos pela proximidade da idade. Mais da metade não dá pra contar aqui não. Não passa na tesoura da minha auto-censura ou no filtro do bom-senso. Zecars já é aposentado, mas isso não quer dizer que chutou o balde, né? E eu preciso manter a classe e preservar o meu ganha-pão de professor universitário da Universidade de Massachusetts por mais uns seis ou sete anos, antes de eu também pendurar as chuteiras. A outra quase-metade das nossas travessuras eu vou tentar resumir aqui pra vocês, sem exagero, que é pra não nos comprometermos além do inevitável.
É claro que a história aqui é a dele, e vou ter o cuidado de proteger a imagem do meu irmão-herói, até certo ponto. Afinal de contas, contador de causo gosta de pôr pimenta na sopa, e estamos todos aqui é para rir e sorrir juntos, na mesma onda de felicidade desse cara muito bacana, um sujeito que chega aos sessenta anos com cara e corpo de rapazinho e com sede de viver e caminhar por todo esse mundaréu velho sem porteira.
Então chega de nhenhenhém. Vamos aos particulares. Zecars teve uma infância cheia de imaginação e aventura. Gostava de brincar com os indiozinhos de plástico que vinham no fundo dos vidros do gostoso achocolatado Toddy. Até os quase treze anos ele imaginou e criou partidas de futebol sobre uma mesa entre os tais indígenas de 4 cm de altura!
Tatau também tinha seu jeito de se divertir mais radicalmente! Lá em Paraguaçu, no sul de Minas, onde passarim canta assim, pir-pir-pir, ele e eu tivemos alguns ímpetos de sadismo infantil, muito na moda nos velhos anos 60. Juntos com nossos amigos, caçávamos e, algumas vezes – que vergonha – matávamos alguns dos pobres passarinhos a tiros de estilingue. Às vezes um gato ou outro também era sacrificado, em nome de uma pele que não era pra fazer tamborim. Sei lá pra quê que era. Deus nos perdôe!
Futsal e futebol de campo faziam parte do nosso dia a dia, é claro. Lá em casa, rolava uma espécie de academia de futebol. No fundo do quintal, a garotada, às vezes um grupo de 14 ou 15, jogava por horas a fio. Tatau sempre foi um bom jogador, e se destacava. Era orgulhoso dos seus dribles e chute forte. Nossos times às vezes jogavam em cidades vizinhas e disputavam as olimpíadas em Paraguaçu. No meio de carinhas cheios de manha, Tatau era honesto, mas achava que eu era ainda mais honesto nas horas de disputa sobre o que teria acontecido e o que não teria acontecido no jogo. Ela falava assim: Darim não mente; é Lobim. Nós dois fomos lobinhos, uma curta passagem inicial pela carreira de escoteiro que não vingou. Aquilo era certim demais para o nosso gosto.
Além do futebol, o talento de Tatau foi de grande destaque em partidas de xadrez. Éramos tantos os aficcionados pelo jog, que realizávamos campeonatos também lá em casa. Um bom número de adolescentes, como nós dois mesmos, disputavam os torneios que incluíam feras mais experientes, homens nas faixas dos 50 e 60 anos. Tatau era um dos melhores e se tornou campeão em muitas ocasiões.
Por essa época o Zecars também já vivia uma tremenda paixão por eletricidade e eletrônica. Quando criança, brincava com vitrolas quebradas e dizia que um dia seria engenheiro eletrônico. Tinha uma boa dose de inspiração para essa carreira em tenra idade por conta do nosso tio Savinho, irmão de nossa mãe, que estudava eletrônica em Santa Rita do Sapucaí, onde ele mesmo, Tatau, foi estudar aos 15 anos. O meu irmão levava muito jeito, vocês precisavam de ver! Juntava peça de equipamento quebrado daqui e dali, botava os neurônios pra funcionar, e de repente aparecia com um novo amplificador de som para as nossas brincadeiras dançantes, que também tinham coloridos holofostes estroboscópicos sob sua maestria.
Nossos pais tinham tanta paciência e confiança na gente! Era impressionante! Nas férias e feriados, dançávamos de rostinho colado, uma galera de 12 a 15 adolescentes, ao som dos Bees Gees, Marvyn Gaye, Roberta Flack, Pink Floyd,  e um forrozinho do Alceu Valença e do Zé Ramalho. O pessoal da cidade de Paraguaçu fazia fofoca. Falavam que rolava muita droga naquelas nossas festinhas nos anos 70. Mentira pura! Éramos de uma tremenda inocência, gente! Apesar do tesão arretado, ainda vivíamos sem sexo e sem drogas, apesar de muito rock’n’roll! É claro que isso mudou quando mudamos para a cidade grande. Mas esse é outro capítulo. Chegaremos logo lá.
Antes, vamos visitar Santa Rita do Sapucaí. Aquela cidade nunca mais será a mesma depois que meu irmão e companheiros da eletrônica estudaram lá. A turma era séria nos estudos, mas muito alegre e bagunceira! Faziam coisas que assustavam a população, como no dia em que compraram caixas e mais caixas de sabão em pó pra jogar na fonte da cidade. Quando já era noite, e chegava a hora de acender a fonte, os aventureiros estavam de tocaia. E foi aquela explosão de espuma na praça, sem que nenhum dos nativos soubesse por quê.
Tatau adquiriu o apelido de Gambá foi naquele ambiente, vamos dizer, insalubre. A turma não gostava de varrer ou lavar nada, e o par de tênis preto dele fedia adoidado. Os amigos não perdoaram e lhe deram a alcunha de Gambá. Na verdade, o convívio no alojamento só de homens deixou o meu irmão um pouco desumanizado, foi minha conclusão quando eu já morava com nossa mana Silvana em Belo Horizonte. Graças a ela, sempre paciente e gentil, eu já tinha aprendido a ser um pouco menos “selvagem” do que fora nos tempos de Paraguaçu, mas Zecars ainda tinha um longo percurso pela frente. Nada melhor do que morar com mulher pro homem saber que não pode limpar o nariz na toalha de mão! Nem deixar o vaso moiadim depois de uma visita ao sanitário. Paro por aqui nesse capítulo!
O outro capítulo foi mais apimentado, com outros resquícios, em Beagá, da vida do aventureiro de Santa Rita. Já na faculdade de engenharia, e já trabalhando como técnico de eletrônica, Tatau ainda achava tempo pra fazer pura sacanagem pelas ruas de Beagá. Por exemplo, quebrar e coletar antenas de carros e mandar rolar pneus velhos morro abaixo na avenida Afonso Pena. Cruz-credo! Ainda bem que passou essa fase!
Veio a fase seguinte, em que meu irmão instalava antenas de rádio para comunicação em fazendas isoladas do resto do mundo. Tatau era dono de um fusca verde, ao qual deu o apelido de Alfredo. Certa vez fomos nele a uma vila no interior do Bahia. Tivemos que seguir uma caminhonete em que fazendeiros carregavam gasolina para eles próprios e para nós, porque os militares tinham decretado a proibição da venda de combustíveis aos domingos. Que dureza tentar não perder de vista a pick-up dos homens naquelas estradas empoeiradas, sem placas e iluminação, em pleno sertão!
Tatau foi se civilizando com rapidez na capital, ao ponto de ser convidado para dar aulas de eletrônica numa escola de ensino médio profissionalizante, a UTRAMIG. Lá fez nome de excelente professor, e lá conheceu a tal namorada que lhe inspirou outra atitude na vida. Mais jovem do que ele, mas muito esperta e determinada, Jaqueline foi fundamental para exigir e solidificar o amadurecimento do namorado mais velho. Morávamos ele e eu numa república na rua Ceará, quando se conheceram. Isso foi em 1980, depois de termos feito dezenas de festas de arromba numa outra república onde moramos alguns anos, na Avenida Augusto de Lima, perto da praça Raul Soares.
As festança tinham sido homéricas e às vezes escandalosas, lá no Barro Preto. Foram com grandes amigos do peito, como os presentes aqui, como Henrique Prado, Mairon Leite, Geraldo Faraci e Batista Vaz. Outros de nossos amigos, menos queridos e menos disciplinados, chegaram até a ser declarados, oficialmente, pessonas non-gratas pelos administradores do condomínio. Tatau ainda era um tanto rebelde nessa época e liderou uma campanha anticoercitiva junto ao administradores do condomínio para que não fôssemos expulsos do prédio. Saímos, sim, mas por pura e espontânea vontade de morar melhor do que lá. Assim passaríamos um ano alugando outro apartamento, no nobre bairro de Funcionários. Ali nosso comportamento foi um pouco mais decente, mas com certeza longe de qualquer expressão de nobreza.
Da rua Ceará, Tatau se mudou para a Cidade Nova. Já ganhava bem e tinha condição de pagar aluguel sozinho, sem a desorientação ou outras más influências dos companheiros de farra. Todos estavam começando a virar gente, afinal de contas. Eu mesmo precisei sair do país para virar gente! Nessa época de redenção geral, o início dos anos 80, meu irmão concluiu o curso de Engenharia Eletrônica na Universidade Católica de Minas Gerais, curso que sempre fez à noite, com extremo esforço e dedicação, após cada jornada integral diurna de trabalho.
Diplomado, ou quase diplomado, não me lembro, Tatau quase conseguiu um excelente emprego. Foi finalista para uma posição na IBM. Passou em tudo e muito bem, mas a psicóloga o reprovou. Quando lhe perguntaram o que ele mais queria num futuro próximo, ele disse, bem humorado, que nada menos do que passear numa van lotada de mulheres bonitas e simpáticas. Acharam-no um pouco imaturo, acredito.
Logo veio o dia em que Zecars abriria uma firma de conserto de aparelhos eletrônicos. Não deu muito certo, e não faltaram algumas irresponsabilidades ecológicas no tratamento do lixo tóxico, especializado. Deixemos isso pra lá. Tá na hora de falar de mais coisas boas. E são muitas!
Tatau e Jac logo se casariam. Todos nós gostávamos muito dela, e nossa mãe punha muita fé no poder da norinha na hora de salvar o filho da farra. O mesmo –
ela, d. Lucci – pensaria em relação a minha namorada e futura esposa, a gringa Ann. Jac conseguiu, sim, e muito bem, realizar o sonho de d. Lucci! Tatau foi contratado por uma mineiradora alemã, a Ferteco, com planta perto de Ouro Branco, e logo se tornaria um super-star daquela poderosa empresa. Chamado de José ou de Borim, meu irmão só crescia ali dentro. O homem era um gênio na hora de desenvolver circuitos eletrônicos e achar soluções eletro-mecânicas para os problemas seríssimos e caríssimos de uma companhia de grande porte e capital multinacional.
Mesmo ainda muito jovem, Tatau tornou-se chefe de muitos engenheiros. Assumia cada vez mais pesadas responsabilidades nas costas o rapaz que tanto se modificou naqueles anos. Com relativamente pouca colaboração dos patrões, ele concluiu – e com muito mérito – um Mestrado em Automação pela UFMG. Nessa específica área do conhecimento tecnológico, meu irmão caminhava a galope rumo a uma posição de destaque no panorama nacional. Muitas glórias profissionais estavam pela frente e lá chegaria aquele dedicado – e quase chato de tão fanático – engenheiro eletrônico de minas. Tatau se tornara para alguns de nós um verdadeiro Gambá eletrônico!
Tatau e Jac viveram muito bem (e por muitos anos) numa vila daquela mineiradora e, claro, vieram os filhos. Daniel e Flávia trouxeram muito agito e muita alegria para o casal. Era um tempo de dedicação a eles e à exigente Ferteco, mas havia muitas horas para boas partidas de tênis e algumas festas bem comportadas naquela confortável casa, em aconchegante condomínio nas montanhas de Minas. Vieram outros tipos de festas, também, algumas delas patrocinadas pela mineiradora. Tatau gostava de cantar, embora meio desafinado, e de contar “causos” de zombaria ao microfone. Às vezes se excidia no grau etílico e fazia sinistros elogios aos patrões alemães. A pequena fornalha rebelde do meu irmão estava sob controle, quase apagada, mas ainda assim emitia algumas raras faíscas bem divertidas e sardônicas em inesquecíveis churrascos de confraternização entre funcionários e amigos.
Um dia a gigante Vale comprou a mineiradora alemã, e logo Tatau e Jac foram morar por vários anos na beira de uma praia de Vila Velha, Espírito Santo. A carreira dele seguia de vento em popa. Com olho no grande potencial do jovem engenheiro, a Vale lhe recomendou e incentivou a fazer mais um mestrado, esse em Administração de Empresas, um MBA. Zecars na verdade já tinha atingido grande distinção profissional não só no plano nacional, como também grande autoridade em Automação no plano internacional. Agora ele fazia palestras e coordenava importantes projetos de expansão ou de reparos técnicos em plantas espalhadas pelo Brasil de cabo a rabo, e pelo resto do mundo, entre América do Sul e Ásia, África Oriental e Oriente Médio, ou América do Norte e Europa Central.
Quando podiam estar juntos, apesar de serem tantos os compromissos dele fora do Espírito Santo, Tatau e Jac se divertiam naquele delicioso ambiente de cidade praiana. Algumas das lembranças mais fortes que o casal deve ter daqueles anos, penso eu, advêm das caminhadas pelas montanhas da região e dos sabores de peixes frescos que comiam junto à orla, especialmente o peruá frito do Antônio.
E foi por lá mesmo que aos poucos o casal Jac e Tatau foi se tornando mais viciado em caminhadas quilométricas. Um dia voltaram, então, de mudança para Belo Horizonte e se logo filiaram a um grupo de caminhantes de quase só mulheres, o que deixa o meu irmão se sentindo como se fosse dono de um harém. Seria agora a realização daquele sonho de uma van lotada de beldades? Jac não liga não. Aliás, adora – a mulherada é ainda mais amiga dela do que dele, e todos se divertem pra valer.
Agora o nosso ilustre biografado pendura as chuteiras, e assim entra para o panteão dos sexagenários aposentados bem de vida. Como ele e Jac merecem esses privilégios! Tatau já está pronto para muitas caminhadas nacionais e internacionais! Enquanto isso, é muito feliz e faz muita gente feliz ao seu lado. Na condição de irmão e cunhado, só tenho elogios para esse casal nota mil! E nem tenho como agradecer a Jac, por salvar o nosso anjo loiro de pé sujo, e também ao Tatau, pelo tanto que já fez por mim. Este Contador de causo, apesar de tudo o que se disse antes sobre o irmão mais velho, ainda era um pouquinho mais farrista e mais aventureiro. Sobrevivemos os dois, uai, e de letra! Então, gente: benze a Deus! E saravá!

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Uma Borinzada a Zero Grau



Uma Borinzada a Zero Grau

“Help! I need somebody, help” – eu gritava da varanda da nossa casa! Não queria parecer estúpido para ninguém, ali sozinho, a zero grau. Mas como não? Eu não tinha escolha! O jeito foi apelar para os versos de uma famosíssima canção existencial dos Beatles, de 1965. A persona criada por John Lennon e Paul McCartney está se sentindo só e insegura, então pede ajuda! Diz ela que passada a juventude, veio o bode. Agora o eu-lírico se encontra muito mal, mas resolveu abrir as portas da mente e procurar uma saída  ̶  para pôr de novo os pés no chão e tocar a vida. Abrir as portas literalmente e pôr o pé no chão do primeiro andar era o que eu precisava agora. Do segundo andar eu gritava, e gritava, em inglês, como os Beatles, com pequenas variações ao tema principal:
̶  Socorro, por favor! Sou Dário Borim Jr., seu vizinho da rua Anthony! Estou trancado na varanda da minha casa! Tá frio aqui! Um telefonema é só o que eu peço. Por favor!
Essa mensagem eu cortei, recortei, embaralhei e repeti umas cem vezes, durante mais ou menos uma hora e quinze minutos, entre 10h30 e 11h45 da manhã de ontem. Enquanto isso, eu dançava com marchinhas e sambas na cabeça, daqueles clássicos que toquei no meu programa de rádio, ontem. Ou, para variar um pouco, eu mexia as pernas e os pés como se estivesse me aquecendo e me aprontando para um jogo de handball das Olimpíadas de Paraguaçu! Às vezes eu resolvia me distrair, cantando em voz alta:
̶  “Bandeira branca, amor, não posso mais. Pela saudade que me invade eu peço paz…”
Tudo começou quando eu acabava de preparar a casa para receber as faxineiras açorianas, Mônica e Maria. Não sei se são lésbicas, mas parecem. Não é da minha conta, mas se são, dou crédito especial a elas. O mundo precisa ficar cada vez mais aberto para as várias possibilidades do amor e da vida a dois  ̶  ou a duas! Saravá!
O fato é que a chegada delas, as açorianas, marcada para 11h30, seria a minha redenção. O frio de zero grau  já começava a me incomodar. Um conjunto de moletom fininho (calça e blusa) não seria suficiente para me garantir o mínimo conforto, ali em pé, durante horas, principalmente quando o vento soprava e a sensação térmica devia cair para uns cinco graus negativos!
Bom, eu dizia que a preparação para a faxina estava pronta. Isso acontece porque Ann, minha esposa, e eu não somos de deixar a casa bonitinha o tempo todo. Muita gente criativa acha que é meio perda de tempo passar a vida organizando a vida. Então, em dia de faxina, os donos da casa fazem um exercício preparatório que inclui a retirada de alguns items do chão, das mesas, do balcão e das pias da cozinha, por exemplo, para que a Monica e a Maria não percam tempo com essas atividades e saiam daqui de casa o mais cedo possível, depois de no máximo umas duas horas de limpeza pesada apressada.
Então, como última ação coercitiva pré-faxina, eu pus a cesta de roupa suja no piso de madeira da nossa varandinha, um espaço de uma única parede de madeira e o resto de tela, onde eu me encontrava. É uma área de aproximadamente 3 x 2 metros adjacente ao nosso quarto de dormir. Ali fora, sem saber do mal que iria me causar, fechei a porta entre a varandinha e o quarto, enquanto posicionava a cesta para fora do alcance da chuva. Ela anda caindo por aqui nesses dias de “veranico” em pleno inverno  ̶  quando, por exemplo, o termômetro sai da casa dos 10 graus negativos e sobe até os cinco graus positivos. Ontem rondávamos a marca do zero grau, como disse. Ainda bem que foi dia de veranico, porque se meu descuido tivesse acontecido duas semanas atrás, eu teria corrido risco muito maior, sob um frio capaz de matar ou alejar um ser humano em menos de uma hora!
Se para você, que lê essa crônica, nada do que eu disse lhe foi útil, aqui vai uma mensagem de alerta: cuidado, mas muito cuidado mesmo, com um tipo muito comum de tranca aqui nos Estados Unidos. Foi esse tipo que quase me jogou no abismo. Ela funciona assim: quando você deixa a porta trancada (não apenas fechada), essa porta pode ser aberta a qualquer hora, sem problema, pelo lado de dentro. Mas cuidado: quando você abre a porta desse modo, pelo lado de dentro, a tranca não destranca! Imagina que coisa louca, para muitos de nós brasileiros. Repito: mesmo com a porta aberta, a tranca continua trancada. Se você quiser, pode destrancar a porta por dentro, sem qualquer chave. Mas se antes de sair você se esquecer de fazer essa ação coercitiva (está na moda essa expressão no Brasil, por isso a repito), você fechar a porta e ficar trancado do lado de fora!
Foi exatamente aquilo o que aconteceu comigo naquela manhã de grau zero, e sem saída! Eu tinha por acaso verificado a previsão do tempo antes. Aqui no norte dos Estados Unidos levam-se muito a sério essas coisas, por causa dos riscos cridos pelo frio assassino, pelos furacões, etc. Por isso eu sabia que o frio não ia piorar nas próximas horas, e algumas horas exposto a zero grau eu não ia morrer, ou perder pés e mãos queimados pelo frio, como pode ser o caso de hipotermia nessa parte do mundo. Mas eu não queria ficar feito bobo, sem telefone, sem o que fazer, enquanto congelava o meu rabinho na varanda da minha casa!
Então pensei em minha mãe. Várias vezes ela me disse que meu Anjo da Guarda era forte! Sem dúvida! Já foram tantos os meus percalços e aproximações à morte! Por exemplo, aos sete anos, no antigo Cine Íris, caí de uma escada e fraturei um osso do crânio, o que me obrigou a tomar choques elétricos na face ao longo de seis meses, para consertar a minha boca torta e reverter uma terrível paralisia no lado direito da face. O anjo trabalhou muito, e fiquei bom, ou quase bom, exceto pela surdez parcial e pela loucura discreta. (Essa última parte é brincadeira, viu?)
De moto em Belo Horizonte, aos 20 anos de idade, eu bati em dois carros de uma vez: o meu joelho num deles, e a minha Honda (a Magrela) no outro. Voei um pouco, só por uns quatro ou cinco metros. Mas como estava de capacete, o único estrago foi uma fratura no joelho. Aquilo só deu em quarenta e cinco dias de gesso, do calcanhar à virilha, mas nada muito sério.
Por último, isto é, só para limitar essa ladainha de acidentes a apenas três eventos das múltiplas ações coercitivas (de novo?) do meu Anjo da Guarda, vale lembrar o dia em que eu jogava tênis em parceria com meu irmão, José Carlos, também conhecido como Tatau, ano e meio atrás. Nós apanhámos terrivelmente de seu filho, Daniel. Naqueles que teriam sido provavelmente os últimos segundos da partida (da coça), ainda que uma quase-tragédia não tivesse acontecido, corri de costas para o fundo da quadra na tentativa de rebater uma bola para lá forçada. Em velocidade, tropecei e fui caindo para trás a todo o vapor. Infelizmente uma parede de alvenaria estava no meu caminho. Cheguei a ela quando meu corpo já estava na vertical. A pancada foi forte. Levei 12 pontos no coro que antes já fora cabeludo. Perdi a consciência por uns cinco segundos. Assim disse meu irmão, que é engenheiro e sabe dos números. Ele e Daniel correram comigo para o hospital, depois de um balde d’água para sair do perigoso sono. Foram constatadas três fraturas no meu braço esquerdo. Nada pior, graças a meu Anjo da Guarda, claro.
Naquela varanda, o Anjo da Guarda também trabalhou para o meu bem. Havia ali a cesta de roupa suja. Fui verificar os ingredientes e, para minha imediata satisfação, achei uma camisa e uma blusa de moletom, além de dois pares de meia. Vesti os quarto itens rapidinho, para diminuir o incômodo do frio. Tinha até uma calça jeans, que tentei vestir. Mas não deu. Era do tipo apertadinho, estilososo, e a calça jeans que eu usava era do tipo soltadão, folgado. Teria que tirar uma calça para pôr a outra e depois repor a primeira. Muito trabalho, além de que a segunda calça já estava é muito fria pro meu gosto!
Ah, na verdade eu estava é muito bem, tranquilo, porque literalmente não morreria de frio, e a minha fuga aconteceria  mais cedo ou mais tarde. Mônica e Maria poderiam atrasar, poderiam até não vir por motivos de força maior, como doença, mas eu pensava positivo. Seria uma hora ou pouco mais de espera. Mole para nós! Mesmo assim resolvi pesquisar as minhas chances de quebrar a porta ou rasgar a tela e “fugir” para o telhado da casa. Essas alternativas não eram muito boas. A porta é do tipo francês, com vidro temperado. Uma nova ia custar uma boa nota. Do telhado do segundo andar para o chão era uma altura razoável. Ia quebrar as minhas pernas já meio frágeis de homem se aproximando dos 60 anos.
Por isso tudo era melhor eu gritar “help me, please” sem parar, na esperança de que algum dos vizinhos saísse de sua casa e me ouvisse e chamasse Ann para me salvar! Mas nada! Eu só conseguia assustar a Minnie, coitadinha, nossa cachorra da raça golden retriever presa na frente da casa há quase duas horas. Ela me ouvia mas não via, muito menos me entendia o drama!
Com as janelas hermeticamente fechadas por conta do inverno, ninguém me ouviu. Ninguém passou com seu cachorro em frente à nossa casa, tampouco. Lá do outro lado, naquela varandinha, eu poderia ver se alguma alma por caminhasse pela rua. Carregando um celular, a pessoa me daria a liberdade de volta com uma simples chamada. Tinha certeza que Ann teria piedade de mim e deixaria a sala de aula para vir rapidinho aliviar o seu marido avoado.
Enquanto eu dançava para esquentar e gritava para sair da jaula, as faxineiras chegaram! Que maravilha! Assim que ouviram meus gritos correram para o fundo do quintal para me achar vivo e saber como poderiam me salvar! Sorri um sorriso bem aberto, claro, bem iluminado! Eu mal consegui esconder minha emoção! Nunca o fim de algum samba ou marchinha me deu tanta alegria!
Mas espera aí, pensei! Havia mais um momento de tensão a me desafiar. Mônica e Maria não têm nenhuma chave da casa! E eu não sabia se pelo menos uma das duas portas, a da frente ou a do fundo, estava destrancada! Caso ambas as portas estivessem lacradas, Ann teria que vir da escola, para que as senhoras trabalhassem e o marido dela voltasse à sua típica alegria de viver!
E não é que o Anjo da Guarda me deu mais uma força? A porta dos fundos estava destrancada, e logo me vi “bem quentinho” dentro da minha casa, sob o calor do providencial aquecimento central a gás e das quatro roupas esquentando o peito, além dos três pares de meia (um de lã, viva!) e um boné preto, que desde o nascer do sol protegia a minha careca das perigosas intempéries do norte do Hemisfério Norte. Aleluia, meu Anjo da Guarda! Mais uma vez lhe agradeço a ajuda! E mais uma vez espero não precisar mais dela no futuro, aos dissabores de mais uma perigosa mancada, descuido típico de nossa família que há muitos anos simplesmente chamamos de “borinzada”!

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Estereótipos e outros retratos do Brasil nos Estados Unidos




Estereótipos e outros retratos do Brasil nos Estados Unidos:
Literatura, música e cinema

PALESTRA DE DÁRIO BORIM JR.
NO CONEXÕES ITAÚ CULTURAL 2017

Quarta 8 de novembro de 2017 | 18h

Literatura e outras artes: ensino e pesquisa em chave comparada

Propostas para debate:
1) Apesar da variedade da produção nacional, fora do país o cinema, a música e a literatura brasileiros tem um público inicial que busca estereótipos do Brasil.
2) Existe espaço para obras que vão além, mantendo-se propriamente brasileiras, mas alcançando dimensão universal?
3) Como essa problemática aparece no ensino e na pesquisa sobre as artes do país?

Com: Dário Borim Jr., Saulo Neiva ​e Lidia V. Santos
Mediação: Fernanda Guimarães

Inicialmente, o meu muito obrigado a todos os responsáveis por esse belo evento – em particular a Claudiney Ferreira, João Cezar de Castro Rocha e Felipe Lindoso, que me fizeram o convite, e a Jahitza Balaniuk, que coordenou múltiplas logísticas.
A temática proposta para esta mesa tem três partes – pela ordem disposta, há uma asserção que relaciona duas ideias, seguidas de duas perguntas que se entrelaçam. Vou dialogar com a proposta seguindo essa mesma ordem.
Concordo plenamente com a primeira ideia: a produção cultural nacional é muito variada. Dos pampas temperados até o norte equatorial da Amazônia – das mãos de indígenas que pintam os próprios corpos no Pará até os pés agitados que dançam um partido alto no Rio de Janeiro – é vasta e cativante a nossa expressão artística nacional.
A segunda ideia da primeira afirmativa é muito mais controversa do que a primeira: a noção de que o cinema, a música e a literatura produzidos neste país tenham um público inicial que busca estereótipos do nosso país fora do Brasil.
Muito mais que nas obras de brasileiros traduzidas ou mesmo veiculadas em português no estrangeiro, desde que se publicaram os poemas de Gregório de Matos em Lisboa, até os nossos tempos de ensaios e narrativas de Lya Luft em inglês e outros idiomas, os estereótipos do Brasil aparecem muito mais frequentes nas obras literárias, autobiográficas ou etnográficas de estrangeiros que escrevem sobre o Brasil. Isso, desde maio de 1500, com a "Carta de Pero Vaz de Caminha", até os dias de hoje, em tantos filmes de Hollywood. O documentário Olhar estrangeiro (2016), da carioca Lúcia Murat, por exemplo, discute o Brasil retratado nas películas norte-americanas e europeias. O louvável trabalho de Murat é uma imperdível fonte de humor negro e perplexidade!
Dos escritores brasileiros com alguma repercussão crítica ou grande sucesso comercial no mercado norte-americano, somente me recordo de Jorge Amado como exportador de algo que se poderia entender por apelo do exótico. Porém, não sei se esse apelo, mesmo na obra do baiano, é mais forte do que aqueles outros, os da sensualidade e do erótico voyeur de uma Gabriela, cravo e canela, ou de uma Dona Flor e seus dois maridos.
Por outro lado, na esfera da repercussão acadêmica, estuda-se muito a obra de Machado de Assis e de outros autores canônicos do século XIX, os versos modernistas das três fases, o neo-realismo de Graciliano Ramos, Rachel de Queirós, e a diversidade contemporânea de Silviano Santiago e Ana Maria Miranda, sem destaque para o exótico, apesar do inusitado novo mundo que esses escritos possam configurar para o leitor nacional ou estrangeiro.
Sucesso brasileiro estrondoso, na sala de aula e nos periódicos e livros acadêmicos, é de fato a técnica narrativa diferenciada, o existencialismo preponderante, e o feminismo sutil nas obras da instigante e apaixonante Clarice Lispector. Sem dúvida, seu descobrimento pela crítica feminista, principalmente a francesa e a norte-americana, se fez instrumental para tal sucesso. Quando era estudante de doutorado na Universidade Minnesota-Twin Cities, certa vez trabalhei como assistente de pesquisa bibliográfica para o professor e tradutor Ronald Sousa. Em 1993, ainda no início da febre lispectoriana, encontrei mais de 900 artigos e livros que a discutiam!
Também tenho tido outras formas de aproximação e intervenção na cultura brasileira pelo contato direto ou indireto com as comunidades dentro e fora das universidades. Durante alguns anos escrevi e publiquei crônicas para O Jornal, periódico semanal dos lusofalantes da região de Fall River e New Bedford, no sul de Massachusetts. A crônica brasileira é um tipo de criação literária muito presente na minha carreira acadêmica, e por isso tenho trabalhado nos últimos oito anos como editor-contribuinte de uma seção do periódico Handbook of Latin American Studies da Biblioteca do Congresso em Washington. Esse contato com o leitor transcorreu paralelo ao nosso convívio através de múltiplos concertos musicais que produzi ao longo de mais de dez anos. Para o campus da UMass Dartmouth, ou para seu entreposto no centro histórico de New Bedford, levei a arte ao vivo de músicos lusofalantes residentes, por exemplo, no Brasil, Cabo Verde, Canadá, França, Israel, Portugal e Moçambique, entre outros. A comunidade sempre prestigiou tais eventos, e neles pudemos nos conhecer melhor e juntos apreciar um pouco do melhor que o mundo lusófono pode oferecer.
Fundos para esses eventos partiram da administração da Universidade, ao nível da Reitoria e do colegiado, e, principalmente, do Centro de Estudos e Cultura Portugueses, que permanece extremamente ativo desde sua fundação, quatro anos antes de minha chegada a Massachusetts em agosto de 2000. Além de patrocinar e organizar congressos e colóquios internacionais, o Centro administra uma cátedra que anualmente contrata professores visitantes de grande renome no mundo acadêmico e literário para trabalhar conosco por um semester, entre eles a antropóloga brasileira Bela Feldman e o escritor angolano Ondjaki.
O Centro tem mantido, através da sua própria editora, a Tagus Press, uma prolífica agenda e um alto calibre de publicações reconhecidas internacionalmente, inclusive uma série de Literatura Brasileira em Tradução, onde já saíram em inglês, por exemplo, Agosto, de Rubem Fonseca, e O eterno filho, de Cristovão Tezza. De fato, nos últimos 21 anos, pela editora do Centro já saíram mais de 70 volumes de obras literárias ou teórico-críticas, cujos lançamentos levaram ao campus figuras distintas, como José Saramago, Lídia Jorge, Silviano Santiago, e muitos outros grandes nomes da cultura lusófona.
O Centro também desenvolve e mantém atividades em parceria com os modernos Arquivos Lusos-Americanos Ferreira-Mendes, outra distinta organização da UMass Dartmouth voltada para os estudos lusófonos, que acolhe e serve a pesquisadores vindos de diversas partes do mundo. Também atrai tais investigadores uma outra instituição local, o belíssimo Museu da Baleia, de New Bedford. Como se sabe, foi muito significativa contribuição açoriana e cabo-verdiana à indústria da caça à baleia, história na qual se destaca a cidade de New Bedford como seu principal porto.
No tocante à música, em particular, a primeira assertiva da proposta para debate nesta sessão me parece ainda menos certeira. Talvez a grande exceção seja a da forma como a sambista de rádio e depois atriz carnavalizada Carmen Miranda representou o Brasil nos teatros de Nova York e nos estúdios de Hollywood. Sua representação caricatural, híper-estereotipada, entretanto, é muito mais caracterizada pela tipo de dança, vestimenta e trejeitos do que pelo que se poderia postular de exótico nas letras dos sambas que ela cantava em português — letras, claro, que quase nenhum norte-americano entendia. Vale destacar um belo e seminal estudo da imagem icônica de Carmen Miranda é a de Kathryn Bishop-Sanchez, publicada um ano atrás: Creating Carmen Miranda.
Em geral, a música composta por brasileiros – e interpretadas ou não por brasileiros, nos Estados Unidos – é de alta qualidade e grande variedade. A história registra a participação de brasileiros em festivais de jazz já no início do século XX, como no famoso evento de Newport, Rhode Island, a 40 minutos da nossa instituição, a UMass Dartmouth. Tocava-se o tal de “tango brasileiro”, o nome que muitos ainda davam ao que mais tarde se definiria como choro ou chorinho.
Na própria Califórnia dos tempos de Carmen Miranda, isto é, nos anos 40 e meados dos anos 50, nada menos que um gênio nascido no interior de São Paulo, chamado Laurindo Almeida, encantava com seu violão as platéias que dele ouviam música clássica, de um Bach ou Ravel, por exemplo – porém, ao ritmo do samba, bumba meu boi e maracatu. Também ouviam do próprio Laurindo Almeida a música brasileiríssima de fino trato nascida da imaginação de outro gênio da nossa história, Heitor Villa-Lobos.
Para os que não sabem, tem mais: Laurindo Almeida se tornou um exímio compositor e intérprete do jazz, ao ponto de receber não apenas quatro expressivos prêmios Grammy em música clássica, mas também vencer a Miles Davis, Henri Mancini e outros bambas do ofício – obtendo, ele, um filho da pequena cidade paulista de Prainha, em 1964, um Grammy, esse na categoria Best Instrumental Jazz Performance.
A partir do bagunçado, atropelado – e, mesmo assim, fascinante e memorável – concerto no Carnegie Hall, no sul de Manhattan, em 1962, a história da bossa nova nos Estados Unidos é razoavelmente conhecida no Brasil. É uma jornada brilhante e marca indelével de uma prata fina da fornalha cultural brasileira, que encantou e seduziu não só os norte-americanos, mas também os japoneses, os turcos e os europeus, desde a Espanha cigana à Suécia viking.
Nem se precisa dizer, eu acho, que a bossa nova que se imortalizou no canto de João Gilberto e nas harmonias de Tom Jobim não tem nada de exótico, fácil ou repetitivo. Diz-se entre artistas e historiadores da música nos Estados Unidos que não há astro do jazz norte-americano que nunca tenha gravado ou interpretado Jobim. Por outro lado, já ouvi de uma conhecida, que, no Japão, João Gilberto certa vez recebeu um aplauso de 42 minutos ao final de um concerto. Muitas lendas marcam sua biografia. Essa pode ser mais uma, ou não.
Após a chegada dos influentes percussionistas e multi-instrumentistas do naipe de Naná Vasconcelos, Airto Moreira, Thiago de Mello e Hermeto Pascoal, nos anos 70, chega a vez da MPB aterrissar na Terra do Tio Sam na década de 1980, com uma ajudazinha de David Byrne, do lendário grupo Talking Heads. Certa vez, entrei num cinema de Uptown, em Minneapolis, e o que ouvi pelos alto-falantes antes do filme foi puro mel: a arte de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Clara Nunes e Marisa Monte. A MPB estava mais forte do que nunca nos Estados Unidos. Brasileiros a partir de então receberiam vários prêmios Grammy na competitiva categoria world music.
Uma década depois, isto é, no fim dos anos 90, era a hora dos Mutantes, do Tom Zé e de outros sons tropicalista – os norte-americanos finalmente descobriam a Tropicália, mais de 20 após o movimento agitar o nosso chão e cruzar os nossos céus ao sul do Equador. A partir de então, naquele fim do século XX, fora do Brasil os tropicalistas passavam a exercer forte influência sobre a música internacional lá rotulada de “world music”. Os artigos do editor de música do New York Times, Jon Pareles, retratam muito bem esse, digamos, Renascimento daqueles vanguardistas baianos e paulistas.
Hoje em dia, a presença da música brasileira no mundo é distinta referência. Uma escola de música como a Berklee, de Boston, considerada a melhor do mundo em jazz e world music, envia agentes ao Brasil anualmente. São caçadores de jovens talentos, para quem a escola oferece bolsas de estudos integrais, com direito a razoáveis subsídios para moradia e alimentação. São cantoras, percussionistas, violonistas, pianistas, etc., que nos representam muito bem lá fora. Resta dizer que a mesma Berklee School of Music já ofereceu o título de Doutor Honoris Causa a pelo menos dois de nossos músicos, Milton Nascimento e Rosa Passos.
Ademais, a paixão pela música brasileira entre as pessoas que moram nos Estados Unidos, Itália, Espanha e Portugal, entre outros países, sustenta inúmeras turnês tanto de um fantástico conjunto de choro, como o das irmãs Ferreira, o Choro das Três, quanto da arte sem rótulo de uma Céu, de uma Luíza Maita, ou mesmo de um Seu Jorge – quem recebeu, no ano passado, um registro para a posteridade: o Dia de Seu Jorge, no calendário oficial da cidade de Boston. A honraria não é pra muitos santos.
Em relação ao cinema, sustento a mesma posição, a de que, pelo menos no mundo de hoje, o cinema brasileiro não depende de estereótipos ou exotismo para atrair público no exterior. A dinâmica que me parece estar dando algum resultado é o múltiplo patrocínio de agentes públicos e privados do Brasil em complementar parceria com produtores estrangeiros.
Quanto à pergunta sobre a existência ou não do espaço para obras que vão além do exotismo e do estereótipo, mantendo-se propriamente brasileiras, mas alcançando dimensão universal, penso que sim, que há tal espaço, dentro de vários limites e oportunidades criados por diversos parâmetros.
No caso da literatura, gosto muito das conclusões a que chega Carlos Minchillo em sua tese de doutorado defendida na USP e publicada pela EDUSP em 2015 sob o título de Erico Verissimo, escritor do mundo. O pesquisador paulista explora magistralmente os impasses e entraves que escritores vivem num tempo de massificação do consumo de tudo, e por que não, de bens culturais. A inserção do livro brasileiro num cenário transnacional, em plena era deste mercado globalizado, enfrenta o que Minchillo chama de “fatores intra e extratextuais que interferem no trânsito de obras pelos mercados editoriais” (21). Nesses mercados ocorrem a aceitação, rejeição ou indiferença por toda uma “cadeia de atores sociais e profissionais – editores, agentes literários, pareceristas, marqueteiros, capistas, resenhistas, críticos, acadêmicos etc – que atuam na avaliação e triagem de títulos” (21).
Concordo sem restrições com a síntese de Minchillo: o sucesso ou fracaço de uma obra ou de um escritor, com sua maior ou menor inserção no mercado nacional e internacional, “não são determinados exclusivamente pelas linhas do texto literário” (21). De fato, “derivam de um feixe de ações e discursos de múltiplas naturezas – política, econômica, mercadológica, diplomática, ideológica – e constituem, portanto, uma história escrita por diversas mãos e que ecoa diferentes vozes” (21-22).
A resposta para a última pergunta sobre ensino e pesquisa fica para esses dois últimos minutos da minha fala e, também, para o que nos restar de tempo para discussão.
Bem além de algo extremamente importante para mim mesmo, isto é, a concretização de um de meus maiores sonhos na vida, meu programa de radio dedicado a música luso-afro-brasileira, o Brazilliance, tem atingido metas que jamais imaginei. No ar nos últimos 16 anos, o Brazilliance tem veiculado muitas edições temáticas. Por exemplo, um programa com três horas de canções compostas exclusivamente por mulheres brasileiras. Outro, de canções gravadas por músicos da diáspora de lusofalantes. E um terceiro, com discussão e leitura de narrativas do século XIX que tematizam a própria música na literatura brasileira.
Alguns de meus programas funcionam como espécie de trilha sonora dos cursos que ensino, como um totalmente dedicado a Caetano Veloso, e outro, exclusivamente enfocado em Vinicius de Moraes. O Brazilliance também tem estabelecido laços entre minha pessoa pública e a comunidade de ouvintes através de entrevistas com músicos locais ou visitantes, jornalistas, líderes politicos, e pesquisadores das humanidades voltados para o mundo lusófono. Também tenho levado para os estúdios da rádio, a WUMD, vários dos meus alunos de todos os níveis de proficiência, desde a tábula rasa do Português 101 até os seminários do nosso programa de doutoramento em Estudos Luso-Afro-Brasileiros e Teoria. Meio por acaso descobri a Luso-América do Norte em agosto de 2000, uma região com seis cidades onde metade da população descende de brasileiros, cabo-verdianos e portugueses. E por lá fiquei, com um pé dentro, e um pé fora, no país que me viu nascer e que, na verdade, dentro do peito, nunca deixei.
É isso aí. Obrigado!