sexta-feira, 3 de julho de 2015

O Pé de Cabra em Marrakech



 O Pé de Cabra em Marrakech

Dário Borim Jr.

Dizem que a maior ponte do mundo é a que liga Fall River ao arquipélago português dos Açores, a tal de Ponte Braga. Moro nas redondezas e por isso entendo a brincadeira. São tantos os portugueses na costa sul de Massachusetts que essa ponte afetiva com a terra da infância ou da ascendência familiar é mesmo fácil de se imaginar.
Bem, pelos Açores passei rapidinho na rota que me trouxe a Casablanca, a mais rica cidade marroquina, também às margens do Atlântico, como Fall River e a ilha Terceira, onde troquei de aeronave e pude vislumbrar um pedaço do mar a um ponto muito distante de qualquer continente. A sensação desde que cheguei ao norte da África é a de que o mundo não passa mesmo de uma kitchenette, nas palavras de minha amiga Elizah Rodrigues. Ainda no aeroporto de Boston tive a primeira experiência das muitas coisas que nos unem, isto é, um certo gosto pela desordem, ou uma dose de desprezo pela ordem, como queiram.
O embarque daquele voo Boston-Terceira foi, digamos, um cômico caos! As pessoas se aglomeravam sem esperar o seu devido momento de embarque. Fila era uma passageira ausente. Em seu lugar, berros de brincadeira ou de frustração. Até mesma a agente da aerolínea SATA, dos Acores, ria-se do comportamento geral dos passegeiros. Disse-me assim: "ninguém sabe ler o número do assento no cartão de embarque".
Ao chegar a Lisboa, minha segunda troca de aviões, tive que lidar com o inconveniente cancelamento de meu voo para Marrocos. Recebi uma notificação da vendedora da minha passagem na noite anterior ao meu voo. Bem tarde, sim, mas a agente da aerolínea portuguesa de meu próximo voo, a TAP, retrucou: "Sentimos muito, mas avisamos a agência de viagens americana três semanas atrás". Sem outro voo para Casablanca no mesmo dia, tive que pernoitar em Lisboa. Ainda bem que o Tejo é tão lindo e os peixes, como diz uma canção do grupo Deolinda, não param de sorrir. Deixei a chateação de lado e curti a noite lisboeta de uma nova perspectiva, aquela de uma região moderna da cidade, onde nunca estivera, bem perto da impressionante estação de metrô Oriente.
Em Casablanca, um abraço apertado e emotivo de meu filho Ian me recebeu! Logo depois das nossas primeiras conversas, passou-me uma advertência: "cuidado ao embarcar no trem". As pessoas que aguardam não tem paciência nem educação para deixar os que chegam sairem do comboio antes dos novos viajantes embarcarem. A consequência é um perigoso caos. Dessa vez, nenhum acidente parece ter ocorrido, e seguimos felizes rumo ao centro de Casablanca, uma espécie de São Paulo de um país que tem a bela Rabat como sua "Brasília" política e burocrática.
Logo ao desembarcarmos do trem, recebo nova advertência: "cuidado, porque os motoristas geralmente não respeitam nem os sinais, nem os pedestres". É claro que esse comportamento ao volante não nos é estranho, a mim que morei 15 anos em Belo Horizonte, quando lá havia muito menos respeito no trânsito do que há hoje, ou ao meu filho, quem no ano passado se adaptou bem ao trânsito mais caótico que já conheci na vida, o da cidade do Cairo, a poerenta capital egípcia.
Em poucas horas os sabores da comida marroquina e o charme da arquitetura colonial francesa de Casablanca me fariam esquecer a desordem do trânsito. Primeiro, Ian me convidou para um ensopado com carne de camelo. Delicioso! Depois me mostrou os prédios brancos do centro colonial. A seguir fomos a um pub bem europeu, o Bar du Titan, onde se tocavam belas canções de Edith Piaf. Uma cervejinha marroquina, uma Flag bem gelada, desceu bem, mas logo Ian descobriu on-line um concerto de rock marroquino na beira da praia, numa casa de shows alternativos chamada Brock.
A banda Hoba Hoba Spirit fez um sucesso tremendo naquela noite. Lotada de quase 20 homens para cada mulher, Ian e eu nos sentimos em casa. Os presentes dançavam e cantavam juntos numa harmonia e alegria que poucas vezes presenciei em eventos musicais realizados no anonimato das grandes cidades. A simpatia dos músicos era tanta que varias vezes os vocalistas aceitaram filmar, do palco onde se apresentavam, a dança e o canto do público que os assistia, através dos smart phones que os entusiasmados fãs lhes passavam.
Algumas novidades "étnicas" eu teria que perceber, afinal estava (e ainda estou) em um país muçulmano ao norte da África. Por exemplo, num ambiente roqueiro como aquele, não vi ninguém beijar ninguém na boca. Muito menos qualquer "atrevimento" maior. Ian – agora assentado aqui do lado – me diz que uns beijinhos na boca bem rápidos e discretos são tolerados. Disse que deu uns desses lá mesmo. Os vigias fazem vista grossa, talvez. Mas "malhar" ou "ficar", nem pensar.
Beijinhos no rosto como forma de cumprimento rolam entre pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto. Como no Egito, ali vi muitos homens de braços dados com outros homens, sem qualquer indício de que fossem gays. Mulheres com mulheres, também. Bela e pura liberdade de expressão de carinho, acho eu.
A noite traria surpresa muito maior para mim. E também para meu filho. Meio tarde da noite, talvez pelas duas da manhã, apanhamos um táxi . O motorist, logo que saímos, perguntou em árabe marroquino se havíamos bebido. Ian respondeu em tom neutro mas em palavras que provavelmente soaram ríspidas para o motorista muçulmano: "sim, mas isso não é da sua conta". Erro estratégico de quem é sincero. Aos berros, o homem começou a pregar. Dizia que depois de certa hora era ilegal transportar bêbados, mulheres grávidas e não sei mais o quê.
Ian disse que desconhecia tal lei que queríamos descer do taxi. O marroquino não parou o carro, mesmo quando Ian abriu a porta e lhe entregou algum dinheiro. O motorista mudou de tom quando soube que éramos brasileiros. Começou a falar de futebol, e os nomes de Neymar, Roberto Carlos, Pelé e Ronaldinho ajudaram a suavizar o clima.
Mas a tensão voltou a subir quando chegamos ao destino e o taxista cobrou quase o dobro do que era de se esperar. Ian não deixou passar. Contestou a conta. O marroquino se enfureceu novamente, até que com raiva saiu do carro e disse que não cobraria nada de nós. Ian mesmo assim deixou moedas no banco do carro, que, Segundo me disse, provavelmente cobririam o valor do taxímetro, nunca ligado pelo esquentado marroquino.
Os vários países desse mundo afora têm de fato muito em comum, mas basta estar vivo para se vivenciar o inusitado aqui e ali. E se pudermos viajar, muito maior será a chance de encontrarmos o que parece absurdo entre humanos fanáticos, ou simplesmente contraditórios, como um sujeito a pedir esmolas e ao mesmo tempo falar ao celular.
Até mesmo os animais podem nos chocar. Extremamente disciplinadas, por exemplo, quinze cabras fazem um espetáculo ao ar livre entre as cidades de Essaouira e Marrakech. Ficam horas e horas trepadas numa árvore, comendo castanhas e quase sorrindo para os turistas que, ao vê-las da rodovia, descem dos carros para apreciar de perto aquela imagem surreal.
Dizem que a maior ponte do mundo é a que liga Fall River ao arquipélago português dos Açores, a tal de Ponte Braga. Moro nas redondezas e por isso entendo a brincadeira. São tantos os portugueses na costa sul de Massachusetts que essa ponte afetiva com a terra da infância ou da ascendência familiar é mesmo fácil de se imaginar.
Bem, pelos Açores passei rapidinho na rota que me trouxe a Casablanca, a mais rica cidade marroquina, também às margens do Atlântico, como Fall River e a ilha Terceira, onde troquei de aeronave e pude vislumbrar um pedaço do mar a um ponto muito distante de qualquer continente. A sensação desde que cheguei ao norte da África é a de que o mundo não passa mesmo de uma kitchenette, nas palavras de minha amiga Elizah Rodrigues. Ainda no aeroporto de Boston tive a primeira experiência das muitas coisas que nos unem, isto é, um certo gosto pela desordem, ou uma dose de desprezo pela ordem, como queiram.
O embarque daquele voo Boston-Terceira foi, digamos, um cômico caos! As pessoas se aglomeravam sem esperar o seu devido momento de embarque. Fila era uma passageira ausente. Em seu lugar, berros de brincadeira ou de frustração. Até mesma a agente da aerolínea SATA, dos Acores, ria-se do comportamento geral dos passegeiros. Disse-me assim: "ninguém sabe ler o número do assento no cartão de embarque".
Ao chegar a Lisboa, minha segunda troca de aviões, tive que lidar com o inconveniente cancelamento de meu voo para Marrocos. Recebi uma notificação da vendedora da minha passagem na noite anterior ao meu voo. Bem tarde, sim, mas a agente da aerolínea portuguesa de meu próximo voo, a TAP, retrucou: "Sentimos muito, mas avisamos a agência de viagens americana três semanas atrás". Sem outro voo para Casablanca no mesmo dia, tive que pernoitar em Lisboa. Ainda bem que o Tejo é tão lindo e os peixes, como diz uma canção do grupo Deolinda, não param de sorrir. Deixei a chateação de lado e curti a noite lisboeta de uma nova perspectiva, aquela de uma região moderna da cidade, onde nunca estivera, bem perto da impressionante estação de metrô Oriente.
Em Casablanca, um abraço apertado e emotivo de meu filho Ian me recebeu! Logo depois das nossas primeiras conversas, passou-me uma advertência: "cuidado ao embarcar no trem". As pessoas que aguardam não tem paciência nem educação para deixar os que chegam sairem do comboio antes dos novos viajantes embarcarem. A consequência é um perigoso caos. Dessa vez, nenhum acidente parece ter ocorrido, e seguimos felizes rumo ao centro de Casablanca, uma espécie de São Paulo de um país que tem a bela Rabat como sua "Brasília" política e burocrática.
Logo ao desembarcarmos do trem, recebo nova advertência: "cuidado, porque os motoristas geralmente não respeitam nem os sinais, nem os pedestres". É claro que esse comportamento ao volante não nos é estranho, a mim que morei 15 anos em Belo Horizonte, quando lá havia muito menos respeito no trânsito do que há hoje, ou ao meu filho, quem no ano passado se adaptou bem ao trânsito mais caótico que já conheci na vida, o da cidade do Cairo, a poerenta capital egípcia.
Em poucas horas os sabores da comida marroquina e o charme da arquitetura colonial francesa de Casablanca me fariam esquecer a desordem do trânsito. Primeiro, Ian me convidou para um ensopado com carne de camelo. Delicioso! Depois me mostrou os prédios brancos do centro colonial. A seguir fomos a um pub bem europeu, o Bar du Titan, onde se tocavam belas canções de Edith Piaf. Uma cervejinha marroquina, uma Flag bem gelada, desceu bem, mas logo Ian descobriu on-line um concerto de rock marroquino na beira da praia, numa casa de shows alternativos chamada Brock.
A banda Hoba Hoba Spirit fez um sucesso tremendo naquela noite. Lotada de quase 20 homens para cada mulher, Ian e eu nos sentimos em casa. Os presentes dançavam e cantavam juntos numa harmonia e alegria que poucas vezes presenciei em eventos musicais realizados no anonimato das grandes cidades. A simpatia dos músicos era tanta que varias vezes os vocalistas aceitaram filmar, do palco onde se apresentavam, a dança e o canto do público que os assistia, através dos smart phones que os entusiasmados fãs lhes passavam.
Algumas novidades "étnicas" eu teria que perceber, afinal estava (e ainda estou) em um país muçulmano ao norte da África. Por exemplo, num ambiente roqueiro como aquele, não vi ninguém beijar ninguém na boca. Muito menos qualquer "atrevimento" maior. Ian – agora assentado aqui do lado – me diz que uns beijinhos na boca bem rápidos e discretos são tolerados. Disse que deu uns desses lá mesmo. Os vigias fazem vista grossa, talvez. Mas "malhar" ou "ficar", nem pensar.
Beijinhos no rosto como forma de cumprimento rolam entre pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto. Como no Egito, ali vi muitos homens de braços dados com outros homens, sem qualquer indício de que fossem gays. Mulheres com mulheres, também. Bela e pura liberdade de expressão de carinho, acho eu.
A noite traria surpresa muito maior para mim. E também para meu filho. Meio tarde da noite, talvez pelas duas da manhã, apanhamos um táxi . O motorist, logo que saímos, perguntou em árabe marroquino se havíamos bebido. Ian respondeu em tom neutro mas em palavras que provavelmente soaram ríspidas para o motorista muçulmano: "sim, mas isso não é da sua conta". Erro estratégico de quem é sincero. Aos berros, o homem começou a pregar. Dizia que depois de certa hora era ilegal transportar bêbados, mulheres grávidas e não sei mais o quê.
Ian disse que desconhecia tal lei que queríamos descer do taxi. O marroquino não parou o carro, mesmo quando Ian abriu a porta e lhe entregou algum dinheiro. O motorista mudou de tom quando soube que éramos brasileiros. Começou a falar de futebol, e os nomes de Neymar, Roberto Carlos, Pelé e Ronaldinho ajudaram a suavizar o clima.
Mas a tensão voltou a subir quando chegamos ao destino e o taxista cobrou quase o dobro do que era de se esperar. Ian não deixou passar. Contestou a conta. O marroquino se enfureceu novamente, até que com raiva saiu do carro e disse que não cobraria nada de nós. Ian mesmo assim deixou moedas no banco do carro, que, Segundo me disse, provavelmente cobririam o valor do taxímetro, nunca ligado pelo esquentado marroquino.
Os vários países desse mundo afora têm de fato muito em comum, mas basta estar vivo para se vivenciar o inusitado aqui e ali. E se pudermos viajar, muito maior será a chance de encontrarmos o que parece absurdo entre humanos fanáticos, ou simplesmente contraditórios, como um sujeito a pedir esmolas e ao mesmo tempo falar ao celular.

Até mesmo os animais podem nos chocar. Extremamente disciplinadas, por exemplo, quinze cabras fazem um espetáculo ao ar livre entre as cidades de Essaouira e Marrakech. Ficam horas e horas trepadas numa árvore, comendo castanhas e quase sorrindo para os turistas que, ao vê-las da rodovia, descem dos carros para apreciar de perto aquela imagem surreal.



Um comentário:

Silvia Borim Codo Dias disse...

Que bacana!!!Divertida!!! Pensei que fosse montagem as cabras na árvore!! Que loucura!
Parabéns, muitos beijos😍😍😍