Ensaios e crônicas em português ou inglês sobre artes, literatura, viagens, e o cotidiano na Nova Inglaterra. // Personal essays and crônicas in Portuguese or English about art, literature, travel & day-to-day in New England.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Belos Horizontes
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Copas do Mundo

Não vi nenhuma estatística a respeito, por isso não sei qual é a parcela
da humanidade que tem essa característica de personalidade, o tal “eu
comunitário”. Não importa! Vocês todos que estão lendo esta crônica devem ter
algo parecido, se por acaso ficam arrepiados ao ouvir o hino nacional na hora
do jogo. Ou se sentem vontade de abraçar e pular com estranhos na hora de um
gol do Brasil. O fato é que, para quem tem um “eu comunitário” e também para
quem não o tem, as Copas do Mundo separam épocas das nossas vidas e fincam
profundas marcas tanto nas nossas mentes individuais como nas nossas lembranças
familiares, comunitárias, nacionais ou mesmo transnacionais.
Daquela minha primeira Copa pela TV, por exemplo, ficou a lembrança de dois
tios. Um deles, Dagoberto Pereira, me fez entender como que as emoções de um
jogo podem ser pesadas demais para certas pessoas. Ele ficava caminhando nas
ruas do quarteirão em volta da nossa casa. A cada dez minutos voltava e
perguntava o placar de Brasil x Inglaterra. Outro também muito querido e muito
fanático por futebol (e pelo Corinthians em particular) era tio Delmo, quem, na
época, tinha um braço e o peito engessados. Sofrera um sério acidente de carro
poucos dias antes dos jogos. Apesar do seu sangue italiano, ele dizia, com
convicção, a todos reunidos na Praça Oswaldo Costa (onde uma TV exibia os jogos
em branco-e-preto): “o Brasil vai ganhar da Itália de 4 a 1”. Poucos
acreditaram nele, mas a previsão do tio Delmo acertou em cheio. Com Pelé,
Jairzinho, Tostão, Rivelino, Gerson, Clodoaldo, Carlos Alberto (quase só tinha
craque aquele time), o Brasil daquele ano massacrou a squadra azzurra e deixou muitas saudades.
Para mim, individualmente, também foi inesquecível um determinado momento de
outra Copa do Mundo, a de 1982, na Espanha. Era a primeira copa que eu assistiria
no exterior. Os dormitórios da Universidade Estadual de Mankato, em Minnesota,
tinham poucas TVs a cabo, e nenhum dos canais disponíveis mostraria os
primeiros jogos do Brasil. Angustiado, tive que apelar para o rádio, onde
talvez eu conseguisse ouvir uma transmissão em ondas curtas (com certeza nada de
futebol haveria em AM ou FM). Pouco antes da hora marcada para o início da
partida do Brasil contra a Austrália, precisaria de sorte para achar uma rádio
que transmitisse o jogo direto da Europa, eu consegui, mas em espanhol. Pensei:
melhor isso do que nada. O coração já estava um pouco apaziguado depois da
frustração que sentira ao saber que não haveria transmissão por TV, quando me
veio a idéia de apanhar meu rádio portátil e toca-fitas marca Sony (ver foto
acima) e levá-lo para fora do prédio onde eu morava no campus: quem sabe o
chiado diminuiria.
Foi obra do Anjo da Guarda, ou minha estrela-guia, como diz minha mãe. Jamais
esquecerei o trovão de alegria que me atingiu no momento em que encostei a
antena do rádio na parede externa do dormitório e religuei o aparelho. As
primeiras palavras que ouvi me comveram: “Sob o patrocínio do seu Conhaque de
São João da Barra, passamos a falar diretamente da Espanha.” Que maravilha! Eu
mal podia acreditar, mas agora passava a ouvir a Rádio Nacional do Rio de
Janeiro, em bom, dulcíssimo português brasileiro. Os gringos que jogavam
voleibol nas imediações do dormitório logo acharam que havia um louco entre
eles naquele campus, porque só mesmo um maluco ficaria tão ligado e tão próximo
a um aparelho de rádio, nele colando o ouvido e, de vez quando, dele se
soltando, aos berros, em puro êxtase! Afinal, naquele 23 de junho o Brasil
derrotou a Austrália por 4 a 0 no Estádio Benito Villmarín, em Sevilha.
Pois é, aquele foi apenas o começo de uma longa série de recordações associadas
ao campeonatos mundiais de futebol, que a cada quatro anos vêm sedimentar
nossos laços coletivos e aguçar nossas emoções mais exaltadas de gozo e
sofrimento, aflição e contentamento! Espero voltar ao assunto em breve. Não
faltarão “causos” futebolistas para outras crônicas. Ao encerrar por hoje, vale
repensar como é bom ser brasileiro nesses anos mágicos que ressurgem
ciclicamente, momentos em que fãs de todo o mundo reconhecem e temem nosso
talento, nossa criatividade, e nossa forma alegre de jogar. Enquanto isso nós, os
únicos participantes de todas as Copas do Mundo, vamos sempre sonhar e chora
atrás de mais um caneco de ouro.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
domingo, 23 de maio de 2010
Fé e amor no que se faz

Ocasionalmente reservo uma parcela de meu programa para oferecê-la a alguém em forma de tributo. Esse foi o caso de três semanas atrás, dia 29 de abril. A data era significativa. Precisamente 75 anos antes, portanto, em 29 de abril de 1935, um jovem de 12 anos caminhava bem vestido pela rua Aureliano Prado, em Paraguaçu, Minas Gerais. Uma jovem, que se recostava a uma janela de sua casa, viu aquele menino de terninho branco e estranhou-lhe o traje:
— Onde você vai assim tão bem vestido, Darinho?
O menino respondeu logo:
— Vou trabalhar pela primeira vez na vida. Hoje é meu primeiro dia lá na Casa Oriente, na loja do Sr. Luiz Almeida Prado.
Entusiasmado, aquele futuro “caixeirinho” ouviu doces palavras que o seguiriam para o resto da vida:
— Vai com Deus, Darinho. Eu aqui vou rezar um Ave-Maria para que você tenha muita sorte no trabalho e na vida!
Aquele Darinho deixou de ser Darinho alguns anos depois. Apesar disso, até hoje acontece de eu estar visitando os meus pais e atender ao telefone quando alguém me pergunta pelo Darinho (mas não sou eu). Aquele Darinho teve muita sorte, sim, além de muita visão comercial, muita garra e muita perseverança. Nasceu em um lar de parcos recursos materiais, tanto é que somente usava sapatos aos fins de semana antes de conseguir aquele primeiro emprego. Teve pouca escolaridade, mas mesmo assim foi capaz de “vencer na vida” como homem de família, empresário e líder comunitário.
Aquela edição do Brazilliance, meu programa de rádio, caiu exatamente no dia 29 de abril. Eu não poderia deixar por menos. Tratei de reunir discos que tivessem pelo menos algumas das “clássicas” canções que meu pai mais gostava de cantar ao longo dos anos em que nos reuníamos em volta do piano de minha irmã Silvana. O tributo começou com o disco Omaggio a Frederico e Giulietta, uma gravação ao vivo em San Marino, região não muito distante de onde veio parte da nossa família italiana, os Borins. Com sua suave voz Caetano Veloso interpreta “Ave-Maria” (composição de Erothides de Campos): “Cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor / Despertando no meu coração a saudade do primeiro amor! / Um gemido se esvai lá no espaço, nesta hora de lenta agonia / Quando o sino saudoso murmura badaladas da ‘Ave-Maria'!”
Na seqüência veio o disco de Renato Motha e Patrícia Lobato, Antigas Cantigas. Entre tantas pérolas, escolhi “Bodas de prata” (Mário Rossi e Roberto Martins) e “Eu sonhei que tu estavas tão linda” (Lamartine Babo e Francisco Mattoso), cujos versos assim se fecham: “Violinos enchiam o ar de emoções / E de desejos uma centena de corações / Pra despertar teu ciúme, tentei flertar alguém / Mas tu não flertaste ninguém! / Olhavas só para mim / Vitórias de amor cantei / Mas foi tudo um sonho... acordei!”
As três canções que iniciaram a homenagem a Dário Borim também são algumas das prediletas de minha tia Vilia, irmã de meu pai, que costumava acompanhá-lo nas cantorias lá em casa. Houve ainda tempo para outra música bem conhecida e estimada pela geração de meus pais e tios, “Chão de Estrelas” (Sílvio Caldas e Orestes Barbosa). Para tocá-la consegui nada menos que uma versão ao vivo de um de seus compositores, o renomado Sílvio Caldas. Para encerrar, vieram lembranças dos inúmeros carnavais do Ideal Clube, onde meu pai, enquanto presidente daquela associação por 17 anos, teve que permanecer sóbrio para lidar com os exagerados do álcool e do lança-perfume. Era a vez, então, de um clássico de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres, “Um Pierrot apaixonado”, na voz de Maria Bethania.
Poucas horas após o final daquela edição especial do Brazilliance pude falar com meu pai ao telefone. Ele agradecia a homenagem e também me contava, com seu contagiante alento, que naquele dia tivera tempo para visitar a jovem que lhe desejara boa sorte em 29 de abril de 1935. Em plena consciência, a sra. Otília Gonçalves o recebeu em casa, fazendo tricô. Ela, na casa dos 90, e ele, bem perto de lá, confirmavam sutilmente a noção de que a vida pode ser longa e compensatória para quem tem fé e amor no que faz.
domingo, 11 de abril de 2010
Esses avoados Borins
dborim@umassd.edu
É mole? Claro que não. Mas vocês ainda não viram nada. E como essa crônica ainda não apareceu publicada em jornal, vale tudo por aqui, até a interação de leitores e leitoras. Duas delas acabaram fazendo comentários que merecem intromissão intertextual numa narrativa que já está ficando muito pós-moderna para o meu gosto. A questão é que depois de ler a versão inicial deste texto, crônica que gerou 25 comentários publicados online em dois dias, minha irmã Silvinha me mandou um email querendo saber da tal irmã que foi para o aeroporto sem mala:
— Quem será? Ainda bem que não fui eu, porque EU fui a Lavras, de carro, só que esqueci a mala em BH. Ela, a mala, chegou de ônibus. Normal. É só uma questão de logística, como diz o mano Joseph [o vulgo Tatau].
Normal? Isso não é nem o único engenheiro entre nós. Por exemplo, Tatau achava, na época da ditadura militar, que muitas placas que víamos nas estradas indicavam a existência de mais uma companhia estatal, a EM-OBRAS. Uau! Por alguns anos ele se referia à avenida Álvares Cabral, no centro de BH, como se fosse avenida “A Cabral”, questionando quem era essa moça famosa, porque a placa dizia apenas “Av. A. Cabral”. Será que o ponto estava apagado? Fazia diferença para o engenheiro?
Que normalidade é essa da nossa família se anteontem chegou uma mensagem eletrônica da minha afilhada Cristina, filha da avoada que “viajou” sem mala para dar aulas na Universidade Federal de Lavras. E eles em Lavras aceitam professora de BH sem mala? Preparem-se, meus caros, porque isso que diz a Cristina não é ficção mineira não, como suspeitou com humor o distinto crítico literário e poeta Charles Perrone, através de uma recente mensagem publicada no FaceBook. Minha sobrinha não se segura:
— Hihiii, mas temos casos demais para contar! Tem aquela do vovô que foi consultar em Alfenas, mas a consulta era em Varginha. Tem a minha: eu estava aguardando minha hora num consultório de acupuntura quando deveria mesmo ter ido a um consultório de gastroenterologia!
Vejam que a própria sobrinha não escapa da carga genética que atravessa gerações. Houve época em que ela freqüentava assiduamente a casa dos meus pais em Paraguaçu, por isso pode contar mais dois causos que a maioria da família ainda ignora:
— A vovó chamou a polícia por causa de um barulho muito alto de música que chegava no seu quarto de dormir. Na verdade o som vinha do rádio-relógio dela! Essa agora para mim é uma das melhores. O funcionário da loja do vovô, Afonso, teve que ir à casa do vovô às pressas para desligar o micro-ondas, porque programaram a máquina para 4 horas de ação e ninguém na casa sabia como desligar! Eh... Borinzada danada!
Eu digo tudo isso sobre minha família antes de confessar: eu provavelmente sou o pior de todos. Vamos viajar cronologicamente, então, e visualizar este cronista em dois de seus momentos de maior apuro ou embaraço. O primeiro foi lá pelo ano da graça de 1985. Eu ensinava num cursinho de inglês de Belo Horizonte, o MAI, e, infelizmente para aquele jovem de 26 anos, tinha que dar aulas aos sábados de manhã. Certa vez eu saí de casa atrasado, mas, como morava na av. Francisco Salles, podia chegar ao trabalho, usando meu Chevette marrom, numa questão de quatro ou cinco minutos.
Quando, naquela nefasta manhã, eu passava em frente ao Colégio Arnaldo, senti que o motor do carro perdia força rapidamente. De fato, veio a morrer em questão de segundos. O bom é que o sinal estava verde e passei por ele no embalo — podendo, graças a Deus, chegar ao MAI, na av. Brasil, naquele mesmo sopro de cilindros em seca, também de ressaca! Eu tinha me esquecido de pôr gasolina, é claro, e agora o tanque me dava dor de cabeça, pois tinha “desidratado”. O santo foi forte, não é, e me empurrou até meu destino. Só que meu santo se esqueceu de me avisar: bobagem pentear o cabelo ou escovar os dentes se não dava tempo, mas era preciso ter trocado de roupa, uai! Quando eu entrava no prédio foi que me dei conta: ainda estava de pijamas.
Passaram-se 25 anos e o “desligado” sr. Dário Borim Jr teve lá seus outros problemas, mas o espaço aqui é curto. Então, pulemos no escorregador do tempo até a quinta-feira passada. Eu tinha que devolver à Central de Polícia da Universidade de Massachusetts Dartmouth a chave da WUMD, estação de rádio onde faço o Brazilliance, meu programa semanal de música luso-brasileira. O colega radialista David Nader, apresentador do show Mediterranean Café, que vinha logo depois do meu, estava na Espanha. A entrega da chave era coisa muito importante e fora da minha rotina, por isso representava um risco para um homem “desligado”. Para eu não ir para casa sem antes deixar a chave na policia, fiquei com a dita-cuja na mão esquerda o tempo todo. Essa era minha estratégia para um desmiolado não dar vexame!
Cheguei bonitinho ao meu carro, um velho Kia Sephia verde, com a chave da rádio na mão, e logo me dirigi para onde deveria. Quando eu estacionava em frente ao prédio da policia, passou no seu carro um técnico de futebol, Gene Bergerson, meu amigo. Ele parou por um instante e perguntou sobre o meu filho Ian. Fiquei pensando no menino por uns instantes e conversando com o Gene. Enquanto isso eu fechava a porta do meu carro sem perceber que, daquele jeito, eu estava trancando a danadinha. Ainda agi como desligado mais uma vez, trancando em seguida a porta de trás do motorista.
Caminhei até a polícia, e somente quando voltei foi que vi que tinha trancado o carro inteiro, mas a chave continuava na ignição e, o motor, ligado! Minutos mais tarde o policial de plantão me informou que não podia me ajudar. Era contra o regulamento! Então liguei para o serviço AAA, de auxilio a motoristas. Chegariam em 30 minutos, por se tratar de um caso de emergência: “motor ligado!” Senão, levariam 50 minutos para aparecer! Huh! Não fiquei contente, e vi que uma janela estava com dois cm de abertura. Fui para o lote da polícia, sem qualquer permissão dos bacanas. Procurei e achei um tubo metálico de 2 metros e tal, que talvez desse para abrir a tranca da porta do outro lado do carro. Mas que diabo, eu não conseguia finalizar o “arrombamento” do meu próprio carro porque o tubo era pesado e chegava a menos de um centímetro da tranca, sem poder movê-la.
Bem, aí vi uns cinco rapazes alegres caminhando em minha direção. Com toda a humildade contei-lhes meu “causo” de homem avoado e pedi-lhes ajuda. Minha falta de orgulho-próprio foi recompensada. Um deles tinha os dedos mais fortes que os meus e conseguiu levar o tubo mais a frente um pouquinho e abrir a tranca. Lição final: com jeitinho e santo forte, não há cabeça avoada sem proteção. Bem, eu já ia esquecendo. (Estou sempre esquecendo algo!) Cuidado: tem nó que nem pai de santo desata. Por exemplo, é melhor tirar os pijamas antes de ir trabalhar.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Sopros de vida
Sopros de vida sábado, 6 de fevereiro de 2010
domingo, 31 de janeiro de 2010
Yumi Faraci
Letter Being
[Envelopes of 50 out of the almost 500 letters presently in my archives, the remains of the approximately 3,000 personal letters I had s...
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Dário Borim Jr. dborim@umassd.edu Batista, Alex, Geraldo, Henrique, DB, Tatau e Delson -- Turma da Eterna Saideira Hoje não tem papo de Clar...
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Dário Borim Jr dborim@umassd.edu Vinicius é um documentário que muito me impressiona pela sua formosura poética. Também me faz questio...
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Sem o Sam Dário Borim Jr. dborim@umassd.edu Ontem pelas oito e meia da noite fazia muito frio por esta região da Nova Inglat...