Países extensos como os nossos, Brasil e Estados Unidos, oferecem-nos o mito dos campos abertos, das matas sem fim, e das estradas que não acabam mais. Parece que fica mais fácil sonhar com longas viagens em que veremos o desconhecido por infindáveis dias, semanas, ou até meses. Sonhar é uma coisa. Pegar no volante ou colar o traseiro num banco de passageiro por muitas horas, dia após dia, é outra. Chamo isto de espírito americano porque vejo mais desse fenômeno por aqui, ao norte do equador, do que aí, do Oiapoque ao Arroio Chuí.
Ensaios e crônicas em português ou inglês sobre artes, literatura, viagens, e o cotidiano na Nova Inglaterra. // Personal essays and crônicas in Portuguese or English about art, literature, travel & day-to-day in New England.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
O espírito americano
Países extensos como os nossos, Brasil e Estados Unidos, oferecem-nos o mito dos campos abertos, das matas sem fim, e das estradas que não acabam mais. Parece que fica mais fácil sonhar com longas viagens em que veremos o desconhecido por infindáveis dias, semanas, ou até meses. Sonhar é uma coisa. Pegar no volante ou colar o traseiro num banco de passageiro por muitas horas, dia após dia, é outra. Chamo isto de espírito americano porque vejo mais desse fenômeno por aqui, ao norte do equador, do que aí, do Oiapoque ao Arroio Chuí.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Hospedar também é viajar
Desta feita, já em pleno século XXI, a primeira graça foi a que se passou em Miami. Aquela era uma gang de seis turistas. Para ser sincero, não tinham pinta de sacoleiros do Paraguai, mas, com certeza, revelariam simpáticos perfis de ávidos consumistas de roupas e eletrônicos do tal primeiro mundo. A gang se dividira em grupos de três diante dos agentes da imigração. Um dos agentes perguntou a um dos trios quanto tempo eles pretendiam permanecer. O dr. Francis Gonçalves, marido de minha sobrinha Cristina, quis praticar o inglês. Cansado ou distraído, em vez de dizer “treze dias”, respondeu: “treze anos”. É claro que se o agente de imigração o levasse a sério certamente pediria ao jovem médico para voltar para o Brasil, já que os Estados Unidos já estavam cheios de imigrantes ilegais. Tudo se resolveu logo, e o disparate do doutor só deu mesmo em risadas de lado a lado.
Talvez na melhor dessas cenas, o “filhote” Ian (de dezoito anos e quase de 1.90m de altura) jogava uma partida de um campeonato estadual de futebol na pitoresca região do Cabo Bacalhau (Cape Cod). Quase fim de jogo, sua equipe tem uma falta a cobrar bem distante do gol adversário. A torcida de nove brasileiros ou semi-brasileiros (os seis do Brasil e os três daqui, Ann, Zach e eu) pede em coro que Ian cobre a falta. Ele pede ao técnico. Positivo. A torcida, então, exige que ele chute direto ao gol. Ele gesticula ao técnico, que lhe dá permissão. Ian corre e bate de trivela (com os três dedões do pé direito). A bola sobe e vai descendo em curva vertical e horizontal. Sem chance, o goleiro cai abatido, e a bola entra no fundo da rede, depois de passar pelo ângulo superior do segundo poste. Uau! A galera, auxiliada por duas apaixonadas avós portuguesas, vai à loucura!
terça-feira, 10 de maio de 2011
Londres não é só para inglês ver
sábado, 26 de março de 2011
Eu te amo
Meu negócio é contar histórias, mesmo que para sobreviver eu tenha escolhido a profissão de professor e mesmo que, por graças divinas, eu tenha tido a chance de ministrar e desfrutar de um curso de pós-graduação sobre a paixão. Temos lido muitas teorias e poemas sobre aquele tema apaixonante, mas, melhor ainda tem sido aqui e ali – no corredor ou no meu escritório, por exemplo – ouvir alguns casos de amor “de arrepiar”. O assunto mexe com quase todas as pessoas. Ao final da nossa aula inaugural, portanto, quando mal tínhamos iniciado o curso, a aluna Nélia Alves passou por mim e me disse,
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Paixão: sina e esperança
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Cartas de Vinicius

A primeira carta reproduzida foi escrita pelo Poetinha a sua mãe, d. Lydia, quando ele tinha 19 anos. Conta de uma viagem a Itatiaia, cidade na região serrana do estado do Rio de Janeiro, hoje em dia, mais uma vez, tão tragicamente castigada pelas chuvas. E já chovia muito por lá em novembro de 1932 (quase 80 anos atrás). Sobre a estrada de terra morro acima, super estreita e escorregadia, as rodas do caminhão em que Vinicius viajava tinham correntes duplas, para maior tração, mas os precipícios eram enormes e se abriam logo às margens dos pneus, para o pavor dos passageiros da cidade grande. “Resultado: de músculos contraídos, com ave-marias na boca a cada curva, o vosso filho viu a morte perto do seu nariz durante uma hora e dez minutos” (17).
Diz o poeta: "Esse caminho, conforme nos disse o tal chofer, que e' a cara de são Pedro, não e' nada perigoso quando está seco. 'Quando está molhado', nos disse o animal, é apenas um bocadinho'. Imagina. Não assustes, porém. Para a volta já providenciamos cavalos mansos" (18).
“Depois da tempestade, vem porém a bonança”, acrescenta Vinicius (18). Daí surge uma bucólica descrição do hotel e de outras maravilhas do lugar, também com sensibilidade e humor: "Estou escrevendo esta num caramanchão poético e fresco, com sabiás discutindo perto. Uma delicia. Da' vontade de fazer uma poesia que preste. Mas a preguiça é muita" (19).
De fato há um universo de enredos e emoções em Querido poeta, mas aqui tenho somente um cantinho de jornal para representá-lo. Termino, então, com uma dose homeopática do amor do poeta pela família e amigos. Em 1938, aos quase 25 anos de idade, Vinicius partiu de navio para estudar literatura em Oxford, na Inglaterra. A bordo do Highland Patriot, ainda subindo pela costa brasileira, já sente saudades, e escreve à mãe: “Mais do que nunca, só o amor das pessoas conta para mim. É tão simples que chega a ser difícil explicar por quê” (53).
Apesar de apaixonado por uma paulista, Tati (Beatriz Azevedo de Mello), com quem logo se casaria por procuração, o poeta confessa os sentimentos pelo irmão: “Não creio que haja pessoa no mundo de quem eu goste tanto quanto do Helius. No entanto, você viu como nos despedimos? Um simples aperto de mão” (53). Então conclui, sobre os que ficaram para trás: “É que a ausência não é tudo. Há, mais fundo e mais forte, uma coragem de amar perigosamente, mesmo através do incompreensível. As pessoas tocam a vida pra frente, repousadas umas no amor das outras. É formidável isso. Vocês me deram uma grande lição” (54).
domingo, 12 de dezembro de 2010
Afagos

Usamos, principalmente, a palavra falada e a palavra escrita para nos comunicarmos, mas o silêncio também diz algo em muitos contextos, inclusive aquele que Carmen Miranda jamais esqueceu. Caladas, as elites do Rio de Janeiro presentes ao Cassino da Urca em uma noite de 1940 transmitiram um desafeto histórico, uma mise-en-scène da indelicadeza. Depois de Carmen cantar uma, duas, três canções, não soou nenhum aplauso, somente aquele silêncio que dizia, nas suas estrelinhas vazias mas, mesmo assim, ferozes de rancor: “Nós não gostamos mais de você. Você está muito americanizada”. A bela e talentosa Carmen Miranda não se recuperou mais daquele silêncio.
Outras formas “mudas” de comunicação não ferem a ninguém. Muito pelo contrário, podem redimi-las da dor, da solidão e da saudade, saudade até daquele tipo antecipado, como foi a de Gilberto Gil em 1969. Após serem injustamente acusados de anarquistas subversivos e sofrerem a humilhação e o extremo desconforto de uma prisão solitária, ele e Caetano Veloso receberam uma “graça” da polícia: poderiam fazer um concerto em Salvador para que, com o dinheiro, comprassem passagens e sumissem do país. Daí que Gil quis cantar e, através de uma nova canção, despedir-se de seus amigos e dos brasileiros em geral, sem sequer poder anunciar sua partida. Parece que todo o país entendeu o seu recado: a sua velada mensagem de adeus e de amor. Até hoje usamos, no dia a dia, a mesma expressão de Gil, “aquele abraço”, que também é o próprio título da música. Era sem dúvida um doce e carinhoso abraço de milhões de almas oferecido por mais um de nossos artistas a caminho do exílio.
Assim como um bom abraço, o aperto de mão, o cafuné, o tapinha no ombro, o leve toque na cabeça ou nas costas, o beijinho social, o beijo apaixonado, e aquela boa soneca no colo da mãe ou do namorado — tudo isso pode nos dar o prazer físico da amizade e do amor, da compaixão e do perdão, do consolo e da cumplicidade. Cada um de nós deve ter na memória pelo menos um dia em que algo assim aconteceu e o mundo se transformou.
Para mim um daqueles instantes mágicos aconteceu há quase um ano, quando antecipei minha viagem de Paraguaçu a Belo Horizonte por um motivo muito triste. Um dos meus melhores amigos — e aqueles que me conhecem sabem que sou agraciado por um contingente de pessoas que me querem bem — tinha acabado de perder sua filha única, de 18 anos. Assim como a esposa Sônia, Geraldo já sentia no corpo a saudade antecipada e dolorosa da inesquecível Yumi, vítima da fúria das águas que caíram sobre Ilha Grande, junto a Angra dos Reis, no estado do Rio de Janeiro.
Nosso encontro em Belo Horizonte não foi nada comum. Deixou-nos a certeza de que a energia do abraço expressa mais que qualquer palavra, que querendo e podendo “dizê-lo”, nos tornamos muito mais fortes, nos tornamos até temporariamente donos de dois corações, como tão bem explica o autor anônimo do texto que transcrevo abaixo.
Aqui vai, então, o meu mais terno abraço, com votos de felizes festas, a todos vocês que me honram com a atenção e me lêem a cada mês. Pelo carinho que lhes tenho e em gratidão pelos nossos encontros às páginas d’A Voz da Cidade ou do meu blog, Ponteio Cultural, aqui segue um singelo presente de fim de ano: “A tecnologia do abraço”. Espero que gostem. Nasceu da mais profunda, porém despretensiosa, sabedoria do povo mineiro.
O matuto falava tão calmamente, que parecia medir, analisar e meditar sobre cada palavra que dizia...
— É... das invenção dos homi, a que mais tem sintido é o abraço. O abraço num tem jeito di um só aproveitá! Tudo quanto é gente, no abraço, participa uma beradinha. Quandu ocê tá danado de sodade, o abraço de arguém ti alivia. Quandu ocê tá cum muita reiva, vem um, te abraça e ocê fica até sem graça de continuá cum reiva. Si ocê tá feliz e abraça arguém, esse arguém pega um poquim da sua alegria...
Si arguém tá duente, quandu ocê abraça ele, ele começa a miorá, i ocê miora junto tamém. Muita gente importante e letrado já tentô dá um jeito de sabê purquê qui é qui o abraço tem tanta tequilonogia, mas ninguém inda discubriu.
Mas, iêu sei! Foi um anju de Deus qui mi contô. Iêu vô contá procêis u qui foi quel mi falô: O abraço é bão pur causa do Coração. Quandu ocê abraça arguém, fais massage no coração! I o coração do ôtro é massagiado tamém! Mas num é só isso, não. Aqui tá a chave do maió segredo de tudo. É qui, quandu nois abraça arguém, nóis fica cum dois coração no peito!...
Letter Being
[Envelopes of 50 out of the almost 500 letters presently in my archives, the remains of the approximately 3,000 personal letters I had s...
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Dário Borim Jr. dborim@umassd.edu Batista, Alex, Geraldo, Henrique, DB, Tatau e Delson -- Turma da Eterna Saideira Hoje não tem papo de Clar...
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Dário Borim Jr dborim@umassd.edu Vinicius é um documentário que muito me impressiona pela sua formosura poética. Também me faz questio...
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As formas das pessoas se comunicarem mudaram radicalmente nos últimos anos. Houve o tempo de se usar o serviço de correio via lombo de burro...

